diplomacia Ordem para a retirada de tropas norte-americanas da Síria já foi assinada O anúncio surpreendeu aliados a Washington e até mesmo políticos norte-americanos

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 24/12/2018 08:09 Atualizado em:

Foto: Delil SOULEIMAN / AFP
Foto: Delil SOULEIMAN / AFP
A ordem para a retirada das tropas norte-americanas da Síria já está assinada, anunciou o exército no domingo, depois que o presidente Donald Trump e seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, concordaram em evitar o vácuo de poder após a polêmica medida.

O anúncio de que as tropas norte-americanas devem abandonar o país devastado por uma guerra civil, onde foram mobilizadas para prestar auxílio na guerra contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI), surpreendeu aliados a Washington e até mesmo políticos norte-americanos. "O decreto para a Síria já foi assinado", disse um porta-voz militar à AFP ao ser questionado sobre a ordem, sem revelar detalhes.

A Turquia elogiou a decisão de Trump sobre a Síria, país onde agora terá liberdade para atacar os combatentes curdos aliados dos Estados Unidos que desempenham um papel chave na guerra contra o EI, mas que Ancara considera terroristas.

Trump e Erdogan conversaram por telefone no domingo e se comprometeram a "assegurar a coordenação militar, diplomática e em outras áreas para evitar um eventual vácuo de poder (...) após a retirada e a fase de transição na Síria", informou o governo turco em um comunicado.  

O presidente dos Estados Unidos afirmou no fim da noite de domingo que o colega turco, Recep Tayyip Erdogan, assegurou que eliminará qualquer combatente do EI que restar na Síria. "O presidente da Turquia @RT_Erdogan me garantiu em termos muito firmes que vai erradicar o que resta do EI na Síria", escreveu Trump no Twitter, antes de completar: "Nossas tropas voltam para casa". Algumas horas antes, Trump tuitou que ele e Erdogan conversaram sobre o EI, a participação dos dois países na Síria e a "retirada lenta e extremamente coordenada das tropas norte-americanas da região". Erdogan tuitou pouco depois que os dois líderes concordaram em "aumentar a coordenação em muitos temas, inclusive as relações comerciais e os desenvolvimentos na Síria", qualificando o telefonema como "produtivo".

As tropas norte-americanas vão sair da Síria sob o comando de um novo chefe do Pentágono, que assumirá o cargo em janeiro, depois que Jim Mattis pediu demissão do cargo por divergências com Trump sobre temas cruciais, incluindo a Síria. Esta retirada abrirá o caminho para que a "Turquia comece suas operações contra os curdos e terá início uma guerra sangrenta", disse o analista Mutlu Civiroglu. 

No domingo, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que lamenta profundamente a decisão de Trump e que "um aliado deve ser confiável". Vários políticos norte-americanos dos dois partidos rebateram a afirmação de Trump de que o EI foi derrotado. Muitas pessoas no exército do país expressaram preocupação com a ideia de abandonar repentinamente os sócios curdos de Washington. 

A decisão de Trump também provocou uma crise em seu governo, com as renúncias de Mattis e de Brett McGurk, o enviado especial dos Estados Unidos para a coalizão que luta contra o EI.

Novo chefe do Pentágono
Os planos para a retirada das tropas serão supervisionados pelo subsecretário de Defesa, Patrick Shanahan, que substituirá Mattis no cargo a partir de 1 de janeiro, anunciou Trump no domingo.

Mattis, 68 anos, havia anunciado que deixaria o cargo no fim de fevereiro para permitir uma transição sem problemas para o próximo chefe do Pentágono, mas Trump, irritado, acelerou a saída em dois meses.

De acordo com a imprensa norte-americana, o presidente republicano expressou ressentimento com a cobertura à carta de renúncia de Mattis, que não escondeu as divergências com o presidente. "Como você tem o direito de ter um secretário de Defesa cujos pontos de vista estejam mais alinhados com os seus, acredito que o correto é renunciar a meu cargo", escreveu Mattis, um general da reserva condecorado.

Poucos dias depois, o enviado especial McGurk tomou uma decisão similar, ao afirmar que não poderia apoiar a decisão de Trump na Síria, o que segundo ele "deixou nossos sócios da coalizão confusos e nossos aliados ainda em combate desconcertados".

Ao contrário de Mattis, Shanahan nunca serviu o exército e passou a maior parte da carreira no setor privado. Ele foi vice-presidente e diretor geral da Boeing Missile Defense Systems, antes de entrar para o Pentágono como subsecretário em 2017.

Até que Trump encontre um novo secretário permanente para a Defesa, Shanahan coordenará os planos de retirada norte-americana da Síria, assim como uma importante redução de tropas no Afeganistão. As duas decisões preocupam analistas, que apontam o risco de abandonar regiões devastadas pela guerra.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.