Acordo Oposição da Rússia e dos Estados Unidos pode frear resolução climática Líderes participantes da COP-24 devem finalizar hoje o roteiro que explicitará como o Acordo de Paris será posto em prática. Especialistas temem que oposições de alguns países, como Rússia e Estados Unidos, interfiram no teor do documento

Por: Paloma Oliveto - Correio Braziliense

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 15/12/2018 10:08 Atualizado em:

Protesto na sessão final da cúpula da Polônia: seguem as discussões com representantes de 196 países sobre o livro de regras. Foto: Janek Skarzynski/AFP
Protesto na sessão final da cúpula da Polônia: seguem as discussões com representantes de 196 países sobre o livro de regras. Foto: Janek Skarzynski/AFP
Depois de duas semanas de negociações na COP-24, a Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, delegações de 197 países devem finalizar neste sábado (15) o livro de regras do Acordo de Paris, manual de operações do tratado elaborado em 2015 na capital francesa. Está nas mãos dos governos reunidos em Katowice, na Polônia, entregar ao mundo um roteiro transparente que sinalizará os esforços globais para se adequar aos alertas da ciência. Em outubro, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) advertiu que um aumento na temperatura acima de 1,5ºC, tendo como referência os níveis pré-industriais, representará um risco para a sobrevivência da humanidade.

Ainda na primeira semana da COP-24, porém, os negociadores sofreram um golpe de Estados Unidos, Rússia, Arábia Saudita e Kuwait, que rejeitaram menção ao relatório no livro de regras. Um rascunho que circulou ontem em Katowice trazia uma referência tímida ao trabalho do IPCC, construído em cima de mais de 6 mil evidências científicas. O texto diz que as partes serão “convidadas a fazer uso da informação contida no relatório do IPCC”, bem menos do que cientistas climáticos esperavam. “Não é possível questionar o 1,5ºC. Temos 10 anos para investir maciçamente (nas ações climáticas, tendo o limite de temperatura como referência)”, discursou ontem o ministro costa-riquenho do Meio Ambiente, Carlos Manuel Rodríguez. “Isto é o que buscam 190 países, enquanto outros sete — Estados Unidos, Rússia, China e os Estados árabes — têm dúvidas”, lamentou. O governo chinês não vetou a menção, mas colocou em dúvida o relatório.

“A mão dos Estados Unidos está por trás de todo esse texto. É como um elefante na sala: não pretendem participar do Acordo de Paris, mas continuam negociando, o que terá um grande impacto no resultado”, diz Meena Raman, da organização não governamental (ONG) Third World Network. Embora o presidente Donald Trump tenha anunciado a saída dos EUA do Acordo, pelas regras do tratado, o país continua nas negociações até 2020.

“Nós queremos deixar muito claro que um livro de regras estilo queijo suíço é inaceitável”, diz Li Shuo, do Setor de Políticas Climáticas e Energia do Greenpeace asiático. Segundo ela, um manual não pode deixar de responder como a responsabilidade pela mudança no clima será distribuída entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e de que forma mecanismos fundamentais para o mundo em desenvolvimento serão incorporados ao roteiro. À agência France-Presse (AFP) de notícia, Jeniffer Morgan, também do Greenpeace, afirmou que o rascunho de ontem, quando ocorreu a sessão de encerramento da cúpula, era apenas um início. “O trabalho não acabou.”

Desvios

Por causa do veto à menção ao relatório do IPCC, as discussões da COP-24, muitas vezes, se desviaram das duas questões-chaves: a redação do livro de regras e a revisão dos compromissos que os países assumiram voluntariamente de redução nacional das emissões de gases de efeito estufa. A polêmica irritou o ex-vice-presidente do IPCC e cientista climático Jean-Pascal van Ypersele, que lamenta os poucos avanços da COP de Katowice. “A melhor maneira de reconhecer o trabalho feito pelo IPCC é parar de discutir se o relatório será vetado ou bem-vindo, e começar a levar a sério os dados apresentados”, afirmou.

Outro assunto paralelo que tomou conta dos bastidores da COP-24 foi a futura política climática brasileira, “premiada” com o nada honroso Fóssil do Dia, uma crítica ao país que pior se destaca na questão do aquecimento global. Além de ter desistido de sediar o evento em 2019, o presidente eleito Jair Bolsonaro tem feito declarações negativas a respeito do tratado, a afirmar, em um vídeo no Twitter, que, se não houver mudanças no Acordo — ele não especificou quais —, o Brasil terá de “cair fora disso aí”.

“O Brasil sempre foi uma das lideranças das negociações e principalmente o anúncio de não sediar (a próxima COP) trouxe uma desconfiança grande nos bastidores, houve muito questionamento”, conta Rubens Benini, líder da estratégia de restauração florestal da The Nature Conservancy (TNC) da América Latina. “Não foi criticado, porque até agora o país está comprometido e próximo de assumir suas metas”, observa.

“Há uma certa urgência para fazer a coisa acontecer. Se não conseguirmos reduzir as emissões, não vamos mais falar em evitar as mudanças climáticas, mas em nos adaptar a elas e em tentar salvar vidas”, afirma Benini. Ele lembra que o mundo passa por um momento de transição que favorece o investimento em uma economia verde. “A ciência mostra que investir nesse modelo de economia pode gerar muito mais empregos que os setores de petróleo e gás. Temos exemplos robustos nessa direção. A União Europeia vai banir o combustível fóssil até 2050, essa é uma oportunidade”, diz.



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.