Colômbia Pablo Escobar, um legado obscuro que resiste em morrer A prefeitura de Medellín diz que entre 1983 e 1994, durante o auge do Cartel, houve 46.612 mortes violentas fruto do "narcoterrorismo"

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 02/12/2018 11:26 Atualizado em: 02/12/2018 11:39

O ator brasileiro Wagner Moura interpretou Escobar na série Narcos. Foto: Daniel Daza/Netflix
O ator brasileiro Wagner Moura interpretou Escobar na série Narcos. Foto: Daniel Daza/Netflix
Enquanto no bairro Pablo Escobar os moradores preparam emocionadas homenagens ao homem que lhes deu as casas onde vivem, a prefeitura de Medellín finaliza os detalhes para derrubar o que foi a residência do narcotraficante mais temido do mundo.

Vinte e cinco anos depois da morte de Escobar, o esqueleto mal cuidado do edifício Mónaco fica de pé pela última vez, após resistir a um explosão em 1988 do primeiro carro-bomba detonado no país, o que originou uma violenta guerra entre cartéis. 

Ícone da opulência e do poder da máfia colombiana, os oito andares abandonados do bunker que protegeu a família do narcotraficante nos anos 1990 cairão em um espetáculo aberto ao público em fevereiro do ano que vem.

"O Mónaco se tornou um 'antisímbolo', um lugar onde se faz apologia ao crime, ao terrorismo (...) Mais do que demolir um edifício, é demolir uma estrutura mental", disse à AFP Manuel Villa, secretário particular da prefeitura de Medellín.

Todos os dias, turistas visitam o fortim construído em El Poblado, um dos bairros mais exclusivos da cidade. Nos "narcotours", estrangeiros e locais observam, deslumbrados, o que em poucos meses será um parque dedicado às milhares de vítimas do narcoterrorismo dos anos 1980 e 1990. 

Há 25 anos, em 2 de dezembro de 1993, os meios de comunicação revelavam a imagem do corpo de Pablo Escobar, estirado em um telhado e rodeado de policiais sorridentes, que exibiam seu cadáver como um troféu.

Desde então, o aniversário de sua morte divide a sociedade entre o repúdio e a admiração, a dor e a gratidão. 

Os sobreviventes 
Ángela Zuluaga não chegou a conhecer seu pai. Estava na barriga de sua mãe quando, em outubro de 1986, pistoleiros atacaram o carro onde estava a família. Mataram a tiros o juiz Gustavo Zuluaga e deixaram sua esposa ferida.

A razão: o traficante o sentenciou à morte por ter ditado uma ordem de captura contra ele e seu primo Gustavo Gaviria. Embora tenha recebido ameaças e tentativas de suborno por três anos, Zuluaga afirmou que preferia "morrer a fraquejar".

Para os Zuluaga, demolir o edifício Mónaco é combater "a cultura do tráfico" e dar espaço aos que foram calados pela ficção.

"Ter um espaço para lembrar é ter um espaço para tentar ressarcir, simbolicamente, os que são vítimas deste flagelo do narcoterrorismo", diz Ángela.

Entre 1983 e 1994 houve 46.612 mortes violentas pela guerra dos traficantes colombianos, segundo a prefeitura de Medellín. 

Os defensores 
Luz María Escobar troca a lápide de seu irmão no cemitério Jardines Montesacro, na cidade que foi fortim do traficante. Ela redigiu a inscrição que o acompanhará a partir deste aniversário. Em meio às lágrimas, lê em voz alta para um grupo de turistas.

"Para além da lenda que hoje simbolizas / poucos conhecem a verdadeira essência de sua vida", recita. Uma jovem de Porto Rico, comovida, pergunta se pode abraçá-la. 

Para Luz María, apesar de seu irmão ter cometido muitos erros, seu lar deve continuar de pé. "A história de Pablo, derrubando o edifício Mónaco, não vai ser derrubada", confessa a caçula dos Escobar Gaviria.

Contudo, a prefeitura tem enfatizado a inviabilidade do seu pedido. O custo da remodelação e adequação do imóvel supera os 11 milhões de dólares; derrubá-lo e construir o parque custa cerca de 2,5 milhões. 

Pablo, o 'herói'
Os moradores do bairro Pablo Escobar vivem esta data com nostalgia. O "Robin Hood colombiano" os tirou do lixão de Medellín onde sobreviviam e lhes deu casas, 443 no total, em uma montanha da cidade.

"Para mim, primeiro Deus e segundo, ele. O vejo como se fosse um segundo deus", diz María Eugenia Castaño, uma dona de casa de 44 anos, enquanto acende uma vela no pequeno altar decorado com uma fotografia do traficante. 

Yamile Zapata trabalha no salão de cabeleireiro El Patrón, um pequeno estabelecimento dedicado à beleza e ao marketing em torno da imagem de Escobar. 

"Pablo confunde você. Se você se basear no que era bom, ele era muito bom. Se procurar o mal, ele era muito mal", diz Yamile, amiga de Juan Pablo Escobar, ou Sebastián Marroquín, como é conhecido o filho do chefe do extinto Cartel de Medellín.

Levará entre três e quatro segundos para o edifício Mónaco se transformar em escombros. Sua estrutura extravagante mostra a vontade de Escobar de ascender socialmente.

"Irá doer (...), mas vai ser a única forma de nós começarmos a curar uma ferida", afirma Villa, que em poucos meses estará diante da contagem regressiva da implosão.

Cifras 
Toneladas de cocaína exportadas aos Estados Unidos e rios de sangue na Colômbia. Veja a seguir as cifras criminosas do chefe do tráfico Pablo Escobar que seguem vigentes 25 anos depois de sua morte.

Mortos
Não existe uma cifra oficial dos assassinatos atribuídos ao chefe do Cartel de Medellín, que incluem policiais, jornalistas, juízes e candidatos à presidência.

Seu filho, Sebastián Marroquín, estima em 3.000 os homicídios mandados por seu pai. Fontes policiais citadas pela revista Semana calculam em 5.500. Mas este número pode ser maior.

A prefeitura de Medellín diz que entre 1983 e 1994, durante o auge do Cartel, houve 46.612 mortes violentas fruto do "narcoterrorismo", que inclui pessoas ligadas a Escobar e outras organizações criminosas.

Riqueza
Escobar apareceu durante seis anos consecutivos (1987-1993) na lista dos homens mais ricos do mundo da Forbes.

Em sua primeira aparição, a publicação calculava que seu fluxo de caixa alcançava os três bilhões de dólares da época, e seu patrimônio líquido chegava a mais de dois bilhões. A sua fortuna, então, era equivalente ao PIB anual atual de países como Serra Leoa ou Suriname.

No momento de sua morte, quando as autoridades ofereciam 11 milhões de dólares por sua cabeça, seu patrimônio líquido rondava um bilhão de dólares, entre mansões, obras de arte, um zoológico e automóveis.

Boa parte de sua fortuna foi entregue pelos Escobar aos seus inimigos em troca de suas vidas.
 
Destino
O princípio e o fim do chefe do tráfico - católico e esotérico- esteve marcado pelo mesmo mês: dezembro. 

Nasceu em 1º de dezembro de 1949 em Rionegro, próximo a Medellín; morreu em 2 de dezembro de 1993 na capital de Antioquia, e foi sepultado em 3 de dezembro na cidade que converteu em seu espaço de operações, em um enterro que contou com a presença de milhares de seguidores.

Vinte e cinco anos depois, ainda recordam o vaticínio do astrólogo colombiano Mauricio Puerta, que a partir do mapa astral do traficante - sagitariano com ascendente em peixes - assegurou que ele teria uma morte súbita por fatais conjunções dos astros.

Escobar se interessou pela previsão e tentou marcar uma reunião com Puerta, que nunca se concretizou.

O astrólogo interpretou as dificuldades de se encontrarem como "um recurso de proteção dos astros para que nada interferisse em um destino, que já era inexorável", segundo o livro "Pablo Escobar: ascensão e queda do grande traficante de drogas", de Alonso Salazar.

Presentes
Considerado um dos piores criminosos da História, muitos se perguntam o motivo pelo qual alguns o chamam de "Robin Hood colombiano".

Quando o chefe do tráfico estava tentando entrar na política, no início dos anos 1980, levantava bandeiras sociais, o que impulsionou com a entrega de 443 casas a habitantes de um lixão de Medellín. 

A urbanização é conhecida popularmente como bairro Pablo Escobar e atualmente conta com 4.000 residências.

Além disso, inaugurou 100 campos de futebol em bairros mais pobres de Antioquia, de acordo com a obra de Salazar.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.