Eleições Bolsonaro: tensão máxima e desafio à vista para imprensa brasileira O candidato de extrema direita tem se valido de comícios e das redes sociais para desacreditar a cobertura de sua campanha, seguindo os passos de Donald Trump nos Estados Unidos.

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 27/10/2018 15:47 Atualizado em: 27/10/2018 15:51

FOTO: AFP / CARL DE SOUZA (FOTO: AFP / CARL DE SOUZA)
FOTO: AFP / CARL DE SOUZA
A possível eleição de Jair Bolsonaro prevê tempos tensos e desafiadores para a imprensa no Brasil. Conhecido por seus comentários ofensivos contra as minorias e pelo seu apoio à ditadura militar (1964-1985), o capitão da reserva do Exército direcionou a sua fúria ao jornal Folha de S.Paulo em um vídeo transmitido ao vivo para uma multidão de partidários no domingo passado.

"A Folha de S.Paulo é a maior (produtora de) 'fake news' do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo", advertiu o favorito nas pesquisas para o segundo turno contra o candidato do PT, Fernando Haddad.

Bolsonaro, que dias antes havia prometido por escrito respeitar a liberdade de informação e expressão, atacou o jornal por uma investigação que vinculou a sua campanha a um disparo maciço de notícias falsas.

"O candidato demonstrou diversas vezes que não compreende o papel e o trabalho dos órgãos de imprensa. Evita questionamentos diretos, responde muitas vezes de forma agressiva e desrespeitosa aos repórteres (...) Se eleito, é factível prever mais turbulências", declarou à AFP Paula Cesarino, ombudsman da Folha.

No Twitter, onde conta com mais de 1,9 milhão de seguidores, Bolsonaro tem usado expressões como "imprensa lixo" e em uma recente entrevista à Rádio Guaíba, de Porto Alegre, colocou como condição apenas receber perguntas do apresentador do programa.

O jornalista Juremir Machado, que há 10 anos fazia parte da equipe, decidiu pedir demissão imediatamente por essa exigência "humilhante".

- 'Ameaça' -

Desde que levou uma facada durante um comício em 6 de setembro, Bolsonaro parou de ir ao espaço público e optou por fazer transmissões pelo Facebook, nas quais aborda o que foi publicado pela imprensa. Ninguém pergunta, ninguém responde.

"Mas diante dos seus apoiadores esse discurso se transforma em ação: assédio dirigido, ameaças e até violência física" contra jornalistas, disse à AFP Marina Iemini, diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

A Abraji documentou ao menos 141 episódios de violência e ameaças contra jornalistas durante esta campanha, a maior parte "atribuída a apoiadores de Bolsonaro".

A jornalista da Folha Patrícia Campos, que revelou o suposto esquema de financiamento de "fake news" para favorecer Bolsonaro por meio do WhatsApp, denunciou ligações com o objetivo de intimidar e assédio moral nas redes.

"Jair Bolsonaro é uma grave ameaça à liberdade de imprensa e à democracia", alertou Christophe Deloire, da Repórteres Sem Fronteiras.

- Mau exemplo -

A situação evoca o que está acontecendo nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump desqualifica a grande mídia como fábrica de "fake news".

"A ANJ espera que um possível governo do candidato Bolsonaro não siga essa mesma linha de colocar a opinião pública, a população, os cidadãos, contra os veículos de comunicação. Isso é muito ruim para a democracia (...) e pode chegar até a estimular a violência", advertiu Ricardo Pedreira, diretor da Associação Nacional de Jornalistas.

Antes de ameaçar a Folha, Bolsonaro questionou os "bilhões" recebidos pela Rede Globo em publicidade oficial.

O certo é que os meios de comunicação, de forma geral, estão recebendo menos dinheiro por pautas publicitárias devido à crise econômica.

Em 2016, a TV Globo sofreu um corte de 26% com relação a 2015 e, no caso da Folha, foi de 54,2%, segundo dados do site especializado Poder360.

"No caso da Folha, a publicidade governamental é muito pequena em comparação com anunciantes privados", o que faz com que esse tipo de pressão tenha um efeito limitado, declarou a ombudsman do jornal.

A Globo informou que a propaganda oficial corresponde a menos de 4% de sua renda por publicidade.

Não obstante, segundo analistas, o Executivo poderia pressionar a imprensa regional de forma ainda mais efetiva.

Os governos do PT também enfrentaram a grande imprensa e consideraram acabar com o monopólio midiático no país, em uma ameaça dirigida ao grupo Globo. Nenhuma lei foi à frente, mas, em alguns casos, houve cortes na publicidade oficial.

- Renovação -

Cabe esperar que a imprensa submeta um eventual governo do capitão da reserva a um escrutínio permanente e intenso, e "a possibilidade de que Bolsonaro priorize o uso das redes sociais em sua comunicação com a população em detrimento da mídia tradicional é grande", comentou a diretora da Abraji. Contudo, os meios de comunicação poderiam se revalidar, como está acontecendo nos Estados Unidos diante dos ataques de Trump.
 
"Menos discursos (oficiais), mais investigação, análise, contextualização, narrativas atraentes. Tudo está mudando. Tanto a forma de governar como de informar sobre o governo", destacou Paula Cesarino.


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