internacional Ex-escrava e médico que lutam contra violência sexual levam Nobel da Paz Comitê norueguês concede honraria à iraquiana yazidi Nadia Murad, ex-escrava do Estado Islâmico, e ao médico congolês Denis Mukwege, que atendeu a 50 mil vítimas de estupro. Laureados reagem com humildade e dedicam o prêmio às mulheres

Por: Rodrigo Craveiro - Especial para o EM

Publicado em: 06/10/2018 09:10 Atualizado em:

Murad, 25 anos, violentada várias vezes pelos terroristas: 'Eu penso em minha mãe, que foi assassinada' (foto: Bernd Weissbrod/AFP)
Murad, 25 anos, violentada várias vezes pelos terroristas: 'Eu penso em minha mãe, que foi assassinada' (foto: Bernd Weissbrod/AFP)


Era uma manhã de sexta-feira normal em Bukavu, no leste da República Democrática do Congo. Denis Mukwege realizava mais uma das 50 mil cirurgias em vítimas de estupro. A 10,6 mil quilômetros dali, em Oslo, o Comitê Nobel Norueguês anunciava que o médico ginecologista de 63 anos e Nadia Murad, 25, ativista iraquiana da etnia yazidi e ex-escrava sexual do Estado Islâmico (EI), dividiriam o Prêmio Nobel da Paz “por seus esforços para colocar fim ao uso da violência sexual como arma de guerra e em conflitos armados”. “Nós começamos a celebrar. O doutor Mukwege terminou o seu trabalho e, cerca de meia hora depois, se uniu a nós na comemoração”, contou ao Correio Prince Kwamiso, funcionário da Fundação Panzi, afiliada ao Hospital Panzi, mantido pelo médico que ganhou o apelido de “o homem que conserta mulheres”. 

Mukwege, 63 anos, começou a ajudar as congolesas em 1999: 'O mundo presta atenção à tragédia do estupro' (foto: Junior D. Kannah/AFP)
Mukwege, 63 anos, começou a ajudar as congolesas em 1999: 'O mundo presta atenção à tragédia do estupro' (foto: Junior D. Kannah/AFP)


Nadia evitou a mídia e dedicou a distinção à mãe, por meio de um comunicado. “Eu penso em minha mãe, que foi assassinada pelo Daesh (acrônimo em árabe para Estado Islâmico), e nas crianças com quem eu cresci. (…) Eu me sinto incrivelmente honrada e humilde. Compartilho este prêmio com os yazidis, os iraquianos, os curdos e outras minorias perseguidas, e com incontáveis vítimas da violência sexual em todo o mundo”, declarou.

Por sua vez, Mukwege homenageou as vítimas. “Meus pensamentos imediatamente se voltam a todos os sobreviventes de estupro e de violência sexual em zonas de conflito pelo mundo. (…) Essa honraria é uma inspiração, pois mostra que o mundo está prestando atenção à tragédia do estupro e da violência sexual e que as mulheres e crianças que sofreram por tanto tempo não estão sendo ignoradas”, comentou. “O Prêmio Nobel reflete este reconhecimento do sofrimento e da necessidade por reparações justas às vítimas. (…) Eu o dedico às mulheres de todos os países do mundo, prejudicadas por conflitos e enfrentando a violência diária.”

Berit Reiss-Andersen, presidente do Comitê Nobel Norueguês, lembrou que “Denis Mukwege e Nadia Murad arriscaram as vidas lutando corajosamente contra  crimes de guerra e pedindo justiça para as vítimas”. Em nota, o Comitê destacou que “Denis Mukwege é o símbolo mais importante e unificador, tanto nacional quanto internacionalmente, da luta para acabar com a violência sexual na guerra e nos conflitos armados”. “Seu princípio é o de que a justiça diz respeito a todos”, afirmou. “Nadia Murad é uma vítima dos crimes de guerra. Ela se recusou a aceitar os códigos sociais que exigem que as mulheres permaneçam em silêncio e com vergonha dos abusos. Ela demonstrou coragem incomum ao relatar seus próprios sofrimentos e ao falar em nome de outras vítimas”, acrescentou.

Dignidade
Desde 1999, passaram pelo Hospital Panzi, em  Bukavu, mais de 50 mil sobreviventes de estupro e de violência sexual, e 80 mil garotas e mulheres com lesões ginecológicas complexas. Prince Kwamiso acredita que, com o Nobel, “a voz dos sem voz foi ouvida”. “O doutor Mukwege tem falado por muitas mulheres em nosso país, onde o estupro tem sido usado como arma de guerra. Além de denunciar os crimes, ele tem usado o tempo, a energia e o conhecimento para curar e restaurar a dignidade das congolesas”.

A história de Nadia Murad se confunde com as de 6.400 yazidis, sequestrados pelo EI em agosto de 2014. A laureada com o Nobel da Paz vivia com a família no remoto vilarejo de Kocho, na província de Sinjar, norte do Iraque. Ela foi capturada com cerca de 3 mil garotas e mulheres, transformada em escrava sexual e repetidamente estuprada. Três meses depois, fugiu. “Nós, yazidis, perdemos quase 10 mil pessoas no genocídio. Milhares foram sepultados em covas coletivas. Cerca de 3.200 ainda estão em poder do EI. Por isso, precisamos de  pessoas inspiradas e corajosas como Nadia para ajudar a reconstruir o que o Estado Islâmico devastou e para ser uma voz para povos perseguidos e esquecidos, como o meu”, disse ao Correio Murad Hamu, 31 anos, um yazidi que vive no campo iraquiano de deslocados de Khanke.

Hamu relata que, em 3 de agosto de 2014, os extremistas chegaram a uma cidade vizinha ao vilarejo onde vivia e mataram homens e jovens. “Eles sequestraram as mulheres e muitas meninas. Fomos avisados por um informante de que o EI estava a caminho e fugimos a pé. Em nossa comunidade, 803 pessoas foram executadas. Buscamos refúgio nas montanhas, onde não havia nada para comer ou beber. Nos dois primeiros dias, dezenas de crianças, idosos e doentes morreram. Nove dias depois, andamos por 15 horas até a fronteira da Síria, com a ajuda de guerrilheiros curdos e yazidis”, contou. “Nadia é nossa voz para devolver o nosso sorriso e garantir um retorno seguro às nossa cidades.”


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