comércio Trump acusa o governo brasileiro de tratar injustamente empresas do EUA Ao comentar o novo tratado entre Estados Unidos, Canadá e México, o presidente norte-americano acusa o governo brasileiro de tratar injustamente as empresas dos EUA, deixando no ar a possibilidade de adotar medidas contra o país

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 02/10/2018 08:06 Atualizado em:

Para o líder republicano, o Brasil está entre os países 'mais duros do mundo' e 'cobra o que quer' das companhias norte-americanas. Foto: Jim Watson/AFP
Para o líder republicano, o Brasil está entre os países 'mais duros do mundo' e 'cobra o que quer' das companhias norte-americanas. Foto: Jim Watson/AFP
Em entrevista coletiva convocada para celebrar o novo acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México (USMCA), ontem, nos jardins da Casa Branca, o presidente dos EUA, Donald Trump, queixou-se das relações comerciais entre Brasil e EUA. Ao ser indagado sobre o comércio com a Índia, Trump avaliou negativamente o país asiático, estendendo a crítica ao Brasil. “O Brasil é outro caso. É uma beleza. Eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas empresas, elas dizem que o Brasil está entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro. E nós não os chamamos e dizemos ‘ei, vocês estão tratando nossas empresas injustamente, tratando nosso país injustamente”, reclamou.

Os EUA foram o segundo maior parceiro comercial do Brasil em 2017, representando 12,3% das exportações, ficando atrás apenas da China (21,8%). Entre os principais itens brasileiros exportados para os EUA, estão óleo bruto de petróleo, produtos semimanufaturados, celulose e café em grão. No ano passado, o Brasil teve saldo comercial positivo de US$ 2,68 bilhões com os EUA. Além de pequeno, o superavit foi o primeiro dos últimos nove anos no comércio bilateral, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

O secretário de Comércio Exterior, Abrão Neto, reiterou que, apesar das críticas de Trump, a relação comercial entre as duas nações é “positiva”. “É importante entender o contexto e o teor das declarações. O Brasil e os Estados Unidos são parceiros comerciais importantes, estratégicos. O Brasil tem os Estados Unidos como o segundo principal destino das exportações, e o comércio bilateral tem crescido nos últimos anos, está crescendo em 2018, com resultados mais positivos do lado americano”, disse.

Na visão de Mauro Rochlin, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a fala de Trump deve ser observada com atenção. “Quando os EUA anunciaram a suspensão das taxas para o aço brasileiro, estava bom para o Brasil. Naquele momento, a guerra se concentrava entre EUA e China. Para o Brasil, o aço merece atenção, já que o país exporta cerca de US$ 2 bilhões do produto ao mercado norte-americano”, observou. “Agora, a gente está falando de uma nova postura do Trump. Essa menção é perigosa. Será que ele está pensando em taxar o aço e voltar à imposição de barreiras?”, alertou.

Ontem, o Canadá chegou a um entendimento com os Estados Unidos para garantir participação em um novo acordo comercial, que envolve também o México, e substitui o Tratado do Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que vigorava desde 1994. A nova cooperação econômica se chamará Acordo EUA-México-Canadá (USMCA, sigla em inglês).

A reformulação do Nafta era uma exigência de Trump, que se elegeu prometendo reduzir o deficit comercial dos EUA com os dois países. Um dos setores mais afetados pelo novo arranjo comercial é o da indústria automotiva. As empresas que produzem veículos de baixo custo no México terão que absorver maior volume de peças e componentes dos EUA. Parte da produção se deslocará para o Canadá e EUA. O novo tratado deve ser assinado em novembro.

Perguntado se a nova relação comercial entre EUA, México e Canadá poderia prejudicar o Brasil, o secretário de Comércio Exterior ressaltou que ainda não tem detalhes, mas que é importante destacar que é uma medida de modernização. “As preferências tarifárias já existiam antes e, agora, estão sendo modernizadas e, em alguns casos, alteradas”, disse Abrão Neto. “Pode haver impacto em alguns setores, como o automotivo, mas, de maneira geral, a tendência é de que se mantenha a relação comercial entre esses três países e que o Brasil continue tendo acesso aos mercados, lembrando que o país tem iniciativas individuais com cada um deles”, ressaltou o secretário.

Desenho refeito
O novo acordo entre Estados Unidos, Canadá e México, que deve ser assinado em novembro, visa, sobretudo, atender as demandas de Donald Trump. Veja alguns pontos:

» O tratado abarca três países, que têm 500 milhões de habitantes e uma relação comercial trilateral ao redor de US$ 1,2 trilhão. Segundo Trump, “é o maior acordo comercial da história dos EUA”;

» O novo tratado era uma exigência de Trump, que busca reduzir o deficit comercial dos EUA com parceiros comerciais;

» O Canadá vai abrir mão do sistema de cotas de leite, dando maior acesso ao mercado local aos produtores dos EUA;

» A fabricação de veículos a custo baixo, no México, terá maior fornecimento de peças e componentes produzidos nos EUA, que, com o Canadá, absorverá maior quantidade de automóveis;

» O acordo também incluirá um capítulo ambiental;

» Segundo o tratado, o Canadá poderá conservar a sua produção cultural;

» O USMCA vigorará por 16 anos e será revisto a cada seis anos;

» Os EUA não retiraram as barreiras tarifárias para o aço e alumínio canadenses.


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