Polêmica Partido do governo reivindica vitória esmagadora em eleições legislativas no Camboja Defensores dos direitos humanos e a oposição descreveram as eleições como um sério revés para o processo democrático

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 29/07/2018 15:49 Atualizado em:

O partido do premier Hun Sen reivindicou neste domingo (29) uma vitória esmagadora nas eleições legislativas no Camboja, criticadas pela ausência da principal força de oposição, dissolvida no ano passado. "Esperamos conseguir mais de 100 deputados", dos 125, disse o porta-voz do Partido do Povo Cambojano (PPC), Sok Eysan, baseando-se nos resultados parciais da Comissão Eleitoral do Camboja. "O PPC terá mais de 80% dos votos. Trata-se de uma vitória enorme para nós", afirmou.

Os dirigentes do principal partido de oposição, Partido do Resgate Nacional do Camboja (CNRP), que venceu as legislativas de 2013, questionaram a vitória. Os resultados definitivos não serão divulgados oficialmente antes de 15 de agosto. "Nossos compatriotas escolheram o caminho da democracia", publicou no Facebook o primeiro-ministro Hun Sen, no poder há 33 anos.

"Vencer sem dificuldade representa um triunfo sem glória", criticou Sam Rainsy, fundador do CNRP, dissolvido no ano passado. "Pela primeira vez desde as eleições organizadas pela ONU em 1993, o Camboja já não conta com um governo legítimo, que tenha o reconhecimento da comunidade internacional", assinalou. 

Tanto Washington quanto Bruxelas retiraram seu apoio à organização destas eleições, alegando falta de credibilidade, enquanto os defensores dos direitos humanos e a oposição as descreveram como um sério revés para o processo democrático. Hun Sen, 65 anos, no poder desde 1985, reprimiu toda a dissidência antes da votação, mirando na imprensa independente, sociedade civil e nos opositores políticos.

Dezenove pequenos partidos, muitos dos quais novas formações acusadas de ajudar a legitimar a votação, competiram com o Partido do Povo Cambojano (CPP) de Hun Sen, na ausência da principal força de oposição. Com um resultado conhecido de antemão, a atenção se voltava para a participação, em uma votação considerada um plebiscito sobre a popularidade do primeiro-ministro, mas descrita como "farsa" pela oposição, que convocou um boicote. "Não fui votar. Muitos dos meus amigos tampouco o fizeram", declarou Khem Chan Vannak, ex-representante do CNRP.

Segundo a Comissão Eleitoral, controlada pelo regime, os níveis de participação atingiram 82%, cifra superior à da votação de 2013, em que 69% dos eleitores foram às urnas.

O punho do ditador
Mais de 8 milhões de eleitores foram registrados para estas eleições. O Camboja já realizou seis eleições, inclusive o primeiro pleito sob a égide da ONU, em 1993, depois que o país emergiu de décadas de guerra civil. 

Hun Sen apresentou-se como o salvador da pátria após os estragos do regime do Khmer Vermelho, embora tenha sido membro deste grupo ultramaoísta (1975-1979), que matou um quarto da população do país. Mas a indignação com a corrupção generalizada entre uma população jovem, com aspirações de modernidade e pouca memória dos horrores praticados pelo Khmer, colocou em risco a longevidade do CPP nas eleições anteriores.

Os votos dos jovens ajudaram a oposição a obter mais de 44% dos votos nas eleições de 2013 e uma porcentagem similar nas eleições locais do ano passado. "O CNRP representava a promessa de um governo reativo e não corrupto, e as pessoas queriam dar a ele uma oportunidade", explica Phil Robertson, vice-diretor para a Ásia da ONG Human Rights Watch (HRW).

Mas Hun Sen sentiu a ameaça eleitoral, acusou o CNRP de participar de um complô para derrubar o governo e mandou prender seu líder, Kem Sokha "Esta é a história de como os sonhos democráticos morrem sob o punho do ditador", lamenta Robertson. A Suprema Corte dissolveu o partido em novembro de 2017 e abriu o caminho para a vitória do CPP neste domingo.


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