Violência Estudante pernambucana é morta a tiros na Nicarágua Raynéia Lima teria sido vítima de um grupo de paramilitares

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 24/07/2018 12:23 Atualizado em: 24/07/2018 15:15

Foto: Facebook/Reprodução
Foto: Facebook/Reprodução
 


 Uma estudante de medicina, natural de Vitória de Santo Antão, Zona da Mata de Pernambuco, foi morta nesta segunda-feira (23) em Manágua, capital da Nicarágua. Raynéia Gabrielle Lima, de 30 anos, teria sido atacada por paramilitares que fuzilaram o carro onde ela estava, nas proximidades do campus da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua.

Segundo informações repassadas pelo pai da estudante, o motorista Ridevando Pereira, a filha estudava há seis anos medicina em Nicarágua e estaria voltando para o Brasil em breve. "Ela era uma pessoa calma, estudiosa, tranquila. Não estava envolvida em protestos", afirmou. Segundo ele, Rayneia vinha pouco ao Brasil. "A última vez que nos encontramos faz uns dois anos. Fiquei sabendo através de uma ligação, às 7h da manhã. A família está em choque", contou.

O país vem passando por uma crise de violência muito grande, em que grupos armados pedem a saída do atual presidente, Daniel Ortega. Esse conflito já fez mais de 300 vítimas, mas o presidente afirma que não tem envolvimento com a repressão violenta desses manifestantes. Para Ortega, os culpados pelo número de vítimas são os próprios protestantes. 

A estudante teve a morte confirmada pela Embaixada do Brasil.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que o governo brasileiro recebeu a morte de Raynéia com profunda indignação e que condena a trágica morte ontem da cidadã brasileira. O órgão afirmou que a jovem foi atingida por disparos em circunstâncias sobre as quais está buscando esclarecimentos junto ao governo nicaraguense. Confira um trecho da nota:

"Diante do ocorrido, o governo brasileiro torna a condenar o aprofundamento da repressão, o uso desproporcional e letal da força e o emprego de grupos paramilitares em operações coordenadas pelas equipes de segurança, conforme constatado pelo Mecanismo Especial de Seguimento para a Nicarágua instalado para implementar as recomendações da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 

Ao repudiar a perseguição de manifestantes, estudantes e defensores dos direitos humanos, o governo brasileiro volta a instar o governo da Nicarágua a garantir o exercício dos direitos individuais e das liberdades públicas.

O governo brasileiro exorta as autoridades nicaraguenses a envidarem todos os esforços necessários para identificar e punir os responsáveis pelo ato criminoso."

Entrevista
Chorando muito ao telefone, a mãe de Raynéia, a enfermeira aposentada Maria José da Costa, 55 anos, conversou com o Diario. Segundo ela, a filha tinha se mudado para a Nicarágua em 2013, depois de tentar medicina duas vezes em faculdades públicas de Pernambuco. Medicina era o grande sonho de Rayneia, que estava terminando a residência e voltaria para o Brasil no começo do próximo ano. Rayneia, segundo a mãe, passou dificuldades para terminar o curso e chegou a vender brigadeiro para custear a vida na Nicarágua, para a qual também recebia ajuda financeira dos ex-sogros. A última vez que Maria José e Rayneia se falaram foi na manhã de ontem, quando a estudante afirmou que estava de plantão e que, ao chegar em casa, à noite, ligaria para a mãe.

Como vocês ficaram sabendo do ocorrido?

Hoje (terça-feira) pela manhã, por volta das 7h30, meu ex-sogro me ligou. Neste momento, deu um aperto no meu coração. É difícil ele me ligar e quando vi a chamada imaginei que houvesse acontecido algo com a inha filha. Foi quando ele disse que ela tinha levado vários tiros e que não resistiu. Até agora, não sei mais de nada. Ainda não recebi ligação da embaixada.

Como era a rotina dela na Nicarágua?

Era de casa para o hospital. Ela tinha terminado a faculdade em dezembro e estava agora apenas na residência. Quyeria muito voltar ao Brasil. Tinha ido para lá porque na época o ex-sogro era engenheiro da Odebrecht lá. Assassinaram a minha filha sem motivo algum. Ela nunca foi de fazer manifestação, não era de acordo. Por que fizeram isso com ela? Quero justiça.

Ela já havia chegado a comentar dos protestos que estavam acontecendo na Nicarágua?

Já faz uns seis ou sete meses que ela comentou desses protestos. Disse que o país estava em conflito, que estava um caos. A primeira vez, ela contou: ‘já faz 10 anos que o governo está no poder e ninguém quer ele, mãe. Chega policial ferido, gente ferida, o tempo todo no hospital’. Eu dizia para ela ter cuidado ao sair de casa e voltar, para não ir sozinha. Ela tinha medo, dizia que era mais seguro ficar no hospital do que em casa. Ontem, disse de novo para ela ter cuidado. Mas nã volta do plantão aconteceu isso.


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