saúde mental Inflamação da mente por estresse é gatilho para depressão, diz estudo Pesquisadores têm ajudado a construir uma visão mais sistêmica do transtorno, considerando, por exemplo, que ele pode ser desencadeado por fatores diversos. Série do Correio traz avanços e apostas na área

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 18/06/2018 09:42 Atualizado em:

Número de casos da doença tem aumentado mundialmente, desencadeando problemas mais graves, como o suicídio, o que torna urgente a compreensão de sua origem. Foto: Reprodução/Internet
Número de casos da doença tem aumentado mundialmente, desencadeando problemas mais graves, como o suicídio, o que torna urgente a compreensão de sua origem. Foto: Reprodução/Internet

Nas páginas de O mercador de Veneza, Antonio descreve seu estado de espírito de forma melancólica: “Não sei porque estou triste. Ela me cansa, como cansa você. Do que é feita ou do que terá nascido, eu vou aprender”.

Formulada há mais de quatro séculos, a indagação de um dos personagens criados por William Shakespeare ainda descreve de forma eficaz os mistérios que circundam a depressão.

O número de casos da doença tem aumentado mundialmente, desencadeando problemas mais graves, como o suicídio, o que torna urgente a compreensão de sua origem. Mas, aos poucos, cientistas começam a desvendar esse enigma.

Uma das constatações revela que há um trabalho longo a ser percorrido é a de que a depressão não ocorre por desequilíbrios neurais específicos, mas por uma série de mecanismos que envolve diferentes partes do organismo humano.

Geralmente, o estresse é o primeiro ponto a ser lembrado nas discussões, mas isso não é suficiente para explicar o transtorno. "Ele é um grande risco para a depressão, sabemos disso sem sombra de dúvidas. Mas como o estresse causa depressão? Tudo indica que isso ocorre por meio da inflamação", explicou ao Correio Edward Bullmore, autor do livro The inflamed mind: A radical new approach to depression (Em tradução livre, A mente inflamada: Uma nova abordagem radical sobre a depressão) e professor de psiquiatria na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Desde 1989, Bullmore pesquisa sobre a relação da inflamação com o transtorno psiquiátrico. Em seus trabalhos, analisou dados de pacientes com depressão e percebeu níveis altos de inflamação no cérebro.

"O estresse causa uma resposta inflamatória no corpo de animais e em humanos, como se o sistema imunológico estivesse preparando o corpo para responder a uma ameaça à sua sobrevivência”, detalhou.  

O pesquisador acredita que uma explicação viável para que a melancolia acometa pessoas durante inflamações é o desencorajamento de indivíduos doentes a socializar e disseminar uma infecção, mesmo que nem todas as enfermidades relacionadas sejam contagiosas.

Segundo Bullmore, outros cientistas também têm conduzido estudos relacionando inflamação e depressão e mostrando a facilidade com que proteínas conseguem entrar no cérebro, uma vulnerabilidade não considerada há pouco tempo.

Para o pesquisador, esse mecanismo precisa ser mais compreendido, pois pode fornecer dados valiosos para a compreensão da doença. “Precisamos aprender com a história da montanha-russa da pesquisa cerebral e manter a empolgação sob controle. Porém, acredito que, ainda assim, a inflamação poderia fornecer um elo perdido entre estresse e depressão”, ponderou.

DNA

A genética é outra frente investigada como um dos principais fatores desencadeadores da depressão. Segundo especialistas, entender a relação do DNA com a doença também pode ajudar a compreender a maior frequência de casos do distúrbio psiquiátrico em uma mesma família.

O estudo mais recente e um dos maiores sobre o tema foi publicado em abril, na revista Nature Genetics, e analisou o DNA de 135.458 casos de depressão e 344.901 casos de pessoas sem a doença.

O levantamento mostrou que, entre os 20 mil genes que compõem o genoma humano, 44 contribuem para o risco de depressão de uma geração para outra. “Nós mostramos que todos nós carregamos variantes genéticas para a depressão, mas aqueles com uma carga maior são mais suscetíveis”, explicou Naomi Wray, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Universidade de Queensland, na Austrália.

“Sabemos que muitas experiências de vida também contribuem para o risco de depressão, mas identificar os fatores genéticos abre novas portas para a pesquisa dos fatores biológicos”, completou.

Os investigadores acreditam que mais questões surgem com a descoberta, já que cada um dos genes pode ter um papel distinto relacionado à doença, mas, ainda assim, o estudo aumenta as chances de tratamentos mais direcionados no futuro.

“Apesar de décadas de esforço, houve, até agora, apenas escassos dados sobre os mecanismos biológicos da depressão. Muitas pessoas sofrem com ela e têm opções limitadas. Esse estudo representa um grande passo para elucidar os fundamentos biológicos da doença”, explicou Steven Hyman, diretor do Centro Stanley de Pesquisa Psiquiátrica da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e autor do estudo.


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