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Estátua China festeja com modéstia aniversário de Mao Tsé-tung

Publicado em: 27/12/2013 09:08 Atualizado em:

A comerciante Tong Lingui fez uma viagem de 400 quilômetros somente para visitar a enorme estátua de Mao Tsé-tung erguida na cidade natal dele, Shaoshan. Nesse vilarejo no centro da China, distante cerca de 1,5 mil quilômetros de Pequim, guias turísticos dizem que é preciso se curvar três vezes diante do monumento para obter boa sorte e prosperidade. E vendem de tudo: de ímãs de geladeira a retratos e pequenas estatuetas que imortalizam e quase santificam o líder comunista chinês, pai da República Popular da China.

"Eu adoro o Comandante Mao. Ele vai trazer sorte para o meu negócio", disse Tong ao comprar uma estatueta.

Ironicamente, a comerciante espera que a imagem de Mao - o homem que aboliu a iniciativa privada na China - seja a bênção que faltava para o sucesso de sua loja de antiguidades. A situação ilustra um paradoxo exposto na quinta-feira, quando o país comemorou os 120 anos do nascimento do líder comunista equilibrando-se entre o respeito à figura nacionalista, endeusada por milhões, e a parcimônia, necessária para levar adiante as reformas econômicas e a abertura gradual às quais Mao certamente iria se opor se estivesse vivo.

Em Shaoshan, milhares fizeram filas à noite para ver o local onde ele nasceu e assistir a um espetáculo de fogos que teria durado quatro horas. Em Pequim, o presidente Xi Jinping e a cúpula do Partido Comunista Chinês (PCC) participaram de um modesto tributo no mausoléu da Praça da Paz Celestial. Segundo a agência estatal Xinhua, eles "reverenciaram" o corpo embalsamado e "relembraram as conquistas gloriosas do Camarada Mao".

Analistas explicam o dilema do PCC: a nova cúpula do partido, empossada no ano passado, precisa equilibrar o culto a Mao - a quem deve sua legitimidade política - com o reconhecimento de que algumas das políticas maoistas tiveram consequências desastrosas. E, também, com a necessidade de aprofundar as reformas econômicas para impulsionar a economia em desaceleração, numa sociedade que já abraçou o consumismo e já conta com uma geração adulta nascida após a morte do líder comunista.

Sem baile ou manchetes de jornal

Apesar de enaltecer o lado nacionalista do maoismo para resguardar o regime, o governo de Xi deu sinais de sua preocupação com as reformas. Um baile de gala no Grande Salão do Povo foi cancelado, assim como as referências a Mao desapareceram dos nomes da programação de concertos de músicas patrióticas. Na manchete do principal jornal estatal, o "Diário do Povo", não havia qualquer menção aos 120 anos do Grande Timoneiro, morto em 1976. O assunto apareceu escondido na página 7. Uma reportagem descrevia Mao como um brilhante "teórico, revolucionário proletário, estrategista". Mas, ao lado, um editorial dizia que "a melhor forma de celebrar" é levar adiante as reformas empreendidas pelos sucessores dele.

É impossível saber a verdadeira influência de Mao na atual sociedade chinesa ou até que ponto seu pensamento determina as políticas do governo. Ele é criticado especialmente por sua política do Grande Salto Adiante, um pacote de medidas econômicas, sociais e políticas implantadas no final dos anos 1950 que, junto a uma série de catástrofes naturais, como a seca, provocaram uma crise de fome em massa que matou até 30 milhões de pessoas - o número varia dependendo das fontes. Num discurso a líderes do PCC, o presidente tentou enaltecer o líder, mas admitindo veladamente seus erros.

"Não devemos julgar ou cobrar exigências dos nossos antecessores baseados nas condições atuais, no nível de desenvolvimento e entendimento; não devemos pedir demais, pedir que eles alcancem o que somente seus descendentes podem alcançar", afirmou Xi.

Nas redes sociais, a censura do Estado parecia ocupada apagando toda crítica ao legado de Mao. Mas, por um aplicativo de celular, o WeChat, analistas liberais faziam circular seus pontos de vista.

"Para falar do legado de Mao deve-se incluir pelo menos: o silenciamento da opinião pública, um regime que nunca será eleito, a cooperação harmoniosa dos três poderes do governo e a criação de uma linha de produção de condenações injustas", escreveu Bao Tong, ex-assessor do governo hoje em prisão domiciliar.



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