Se um dos 575 cidadãos brasileiros radicados em Damasco bater nesta sexta-feira (20) à porta da Embaixada do Brasil na Síria, vai encontrar um bilhete, escrito em árabe e inglês, com instruções explícitas para entrar em contato com o Consulado-Geral do Brasil em Beirute. Ou a Embaixada brasileira em Amã. Fontes ouvidas pelo GLOBO revelam que, por uma determinação direta da presidente Dilma Rousseff, o corpo diplomático brasileiro na Síria passa a trabalhar a partir de sexta-feira na capital do vizinho Líbano, devido à rápida deterioração da segurança.
Quatro diplomatas - entre eles o embaixador Edgard Casciano -, além de um funcionário administrativo e um oficial de chancelaria seriam levados a Beirute, de carro, logo nas primeiras horas da manhã de hoje, conforme previsto por um plano de emergência traçado há meses pelo Itamaraty. Os detalhes foram mantidos ocultos para preservar a segurança do deslocamento.
Entre as determinações de Brasília, porém, estava a queima de todos os documentos considerados secretos ou sensíveis. Um antigo funcionário da missão, sírio, vai ficar responsável pela manutenção do prédio, no bairro de Mezzeh.
"A embaixada não vai fechar, mas estará prestando aos cidadãos brasileiros toda a assistência consular necessária, temporariamente, em Beirute", explicou Alexandre Gonçalves, chefe do setor consular da Embaixada do Brasil em Damasco. "Não vamos abandonar os cidadãos brasileiros na Síria."
O início do mês sagrado do Ramadã, oficialmente marcado pelo governo Assad para sábado, tornou propícia uma retirada rápida. Segundo fontes diplomáticas, a militarização da capital, há cinco dias, acelerou a tomada de uma decisão que vinha sendo debatida, em Brasília, há algumas semanas.
Mas uma série de divergências internas no Itamaraty exigiu a intervenção direta da Presidência da República.
"O secretário-geral do Itamaraty (embaixador Ruy Nunes Pinto Nogueira) era favorável ao fechamento da embaixada; o embaixador era contra, e o ministro das Relações Exteriores (Antonio) Patriota contemporizava, oscilando entre os dois. Dilma foi decisiva ao dizer não para os riscos de manter os diplomatas em Damasco", assegurou a fonte.
Documentos sensíveis são incinerados
Até o envio de agentes de segurança para proteger a embaixada, anunciado no início da semana, foi suspenso devido à situação volátil.
O embaixador Edgard Casciano admitiu que nesta quarta-feira (18) os combates e bombardeios intensos forçaram a suspensão do expediente. As condições de trabalho também se deterioraram. Segundo ele, durante todo o dia não houve acesso à internet. Telefonar para o Brasil era uma tarefa impossível.
"Não dá para colocar os pés na rua. Posso confirmar o uso de armas pesadas em Damasco. Coletei balas de fuzil Kalashnikov no jardim da minha casa e vejo os helicópteros sobrevoando a baixa altitude", relatou. "Pela primeira vez não consegui dormir à noite com o barulho de disparos e as explosões."
No posto há quatro anos, Casciano vinha mantendo contatos regulares não só com o governo sírio, mas com todos os representantes da oposição:
"O Brasil tem uma relação de Estado com a Síria. Temos contatos com todos e, no fim, esperamos que o Estado sírio seja preservado."
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