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Música Na moda, Chico Science imprimiu legado nas chitas e no chapéu coquinho de palha Na terceira reportagem da série em homenagem aos 50 anos do artista, entenda as inspirações e a resistência ao figurino do líder do movimento mangue

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Por: Luiza Maia - Diario de Pernambuco

Publicado em: 15/03/2016 10:53 Atualizado em: 15/03/2016 11:30

O chapéu e os óculos de segunda mão eram marcas registradas do mangue boy. Foto: Gil Vicente/Arquivo pessoal
O chapéu e os óculos de segunda mão eram marcas registradas do mangue boy. Foto: Gil Vicente/Arquivo pessoal

O algodão morim barato e colorido, de qualidade duvidosa e estampas extravagantes, ganhou ares de excentricidade quando Chico Science adotou a chita como matéria-prima de seu figurino. Com as calças no meio das canelas, o chapéu de palha sem aba, a corrente de contas pendurada no pescoço, o meião comprido envolto pelo par surrado de tênis Conga e os óculos de segunda mão enfeitando o rosto, o músico inscreveu referências autorais na moda pernambucana.

“Os ecos da nossa ‘greia’ se perderam no tempo, mas aquela roupa insólita vai ficar na cabeça das pessoas até um futuro que a vista não alcança”, chegou a escrever o pernambucano DJ Dolores sobre a indumentária. Buscas rápidas na internet comprovam: em 0,30 segundos, a combinação “chapéu à [moda] Chico Science” conduz a mais de 15 mil resultados relacionados diretamente ao acessório em específico. Um efeito que, provavelmente, não surpreenderia o mangueboy de pensamento tecnológico e vanguardista dos anos 1990. Naquela época, Chico já percebia a moda - e lançava mão dela - como assinatura, cartão de visita e parte importante na impressão definitiva de seu legado.

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“A gente não pode se comportar igual às outras bandas, nem se vestir como todos se vestem”, Chico costumava dizer ao colega Gilmar Bolla8, desde a fase embrionária do projeto Chico Science e Nação Zumbi. Nos bastidores dos primeiros shows do grupo fora do estado e da primeira entrevista à MTV - fonte primária de informação musical num Brasil sem internet -, o figurino inovador incomodava. Fugia ao código comportamental reservado aos clubbers, roqueiros e b-boys da época. Chico, porém, não via motivo para recuar: o estranhamento impedia que passassem despercebidos e, como ele bem sabia, o estilo e a cafonice eram conceitos separados, na maioria das vezes, por julgamentos preconceituosos.

Science usava bermudas, meiões e tênis Conga surrados. Foto: Peu Ricardo/Esp. DP/ Reprodução do arquivo pessoal do Chico Science
Science usava bermudas, meiões e tênis Conga surrados. Foto: Peu Ricardo/Esp. DP/ Reprodução do arquivo pessoal do Chico Science
“Uma vez encontramos [Marcelo] D2, e ele comentou como éramos diferentes. Estávamos usando camisetas de cirandeiros e ternos inspirados no maracatu. Chico gostava de causar essa impressão, isso era planejado, esse efeito era calculado”, explica Gilmar. “Não chocávamos nosso público, nosso nicho. Quem curtia a música, curtia a estética do manguebeat. Queríamos dar vitrine aos elementos regionais. E, além de tudo, precisávamos de simplicidade: não havia grana”, completa. “A gente tirava onda daquela roupa, daquelas meias. Era um bullying, mas era uma ‘greia’, ele sabia. E dizia ‘é isso mesmo’”, recorda o fotógrafo Fred Jordão, contemporâneo de Science.

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Para driblar a escassez de recursos, os músicos e estilistas costuravam manobras diversas - da seleção de tecidos mais simples ao escambo entre produtos e serviços. Márcia Lima, fundadora da marca olindense Período Fértil, chegou a articular com o sócio Clesinho um plano arriscado para captar verba e produzir o figurino de lançamento do álbum Da lama ao caos (1994). “Eram oito homens, os custos para vestir todos eles eram muito altos. Coincidentemente, surgiu uma encomenda de togas para membro do judiciário. Fizemos um orçamento bem alto, a fim de custear as roupas de Chico e dos meninos”, conta Márcia. Na ocasião, ternos em verde musgo - inspirados no figurino de agentes de espionagem e em rappers norte-americanos, revela a estilista - e as camisas de malha floral com guizos - inspiradas no maracatu rural - compuseram um dos figurinos mais marcantes da parceria entre o grupo e a Período Fértil.

Chico Science buscava inspiração nos folguedos populares e na cybercultura. Foto: Peu Ricardo/DP
Chico Science buscava inspiração nos folguedos populares e na cybercultura. Foto: Peu Ricardo/DP
A lógica armorial daquela fase da moda, embora não fosse chamada assim, misturava manufaturado e industrial, popular e sofisticado. “O artesanato estava em pontos turísticos, como a Casa da Cultura e o Mercado de São José. E a ‘moda’ estava nas galerias e shoppings. Decidimos misturar, criando espaços como o Mercado Pop, no Bairro do Recife, para unir tradição e vanguarda”, explica o designer Evêncio Vasconcelos, outra personalidade do front daquela corrente estética. “A princípio, a moda era consumida por um nicho. Os mangue boys e suas namoradas frequentavam os mesmos bares, shows e festinhas caseiras. Eles tinham o mesmo estilo, se vestiam de forma parecida. Com o tempo, a estética mangue se estabeleceu, se expandiu. Sinto que essa procura por autenticidade, essa visão da moda, são parte do legado que Chico nos deixou”, conclui Márcia.

O mangue regional, por Márcia Lima
“Tudo estava atrelado à cultura e às raízes pernambucanas. Nós [da Período Fértil] fazíamos roupas bem coloridas, como fazemos até hoje. As camisas eram de malha floral, inspiradas no maracatu rural. As criações eram coletivas, não partiam somente de nós. Chico dava ideias, Jorge [Du Peixe] era muito ligado às questões estéticas. Escolhíamos cores, tecidos, moldes. Não somente a moda, mas as artes plásticas em geral se beneficiaram, como as raízes da cultura pernambucana, quando o manguebeat estourou. Gosto de dizer que toda mulher pernambucana, por exemplo, gosta de flores e babados, o que é verdade. Mas isso é reflexo das nossas preferências, das nossas raízes, tem a ver com quem somos. As roupas daquela época carregavam esse espírito, essa ideologia. Misturávamos regional e internacional, folclore e cultura pop. Era fácil embarcar no pensamento de Chico, porque eu e Clesinho não temos formação em moda - ela é pedagoga e ele, engenheiro mecânico -, então, não nos rendíamos às tendências ‘empurradas’ pela indústria.”

Clezinho e Márcia, à frente da Período Fértil, recebiam encomendas diretas de Chico Science. Foto: Peu Ricardo/DP/DA Press
Clezinho e Márcia, à frente da Período Fértil, recebiam encomendas diretas de Chico Science. Foto: Peu Ricardo/DP/DA Press


O mangue urbano, por Beto Normal
“A estética daquele momento era, em grande parte, inspirada no cotidiano da cidade, no verão, nas feiras, nos mercados públicos. Usei toalhas de mesa para produzir camisas, calças. Fiz vestidos com fios coloridos usados pelas operadoras telefônicas, que eu garimpava pelas ruas. Na moda relacionada ao movimento mangue, havia o regionalismo, mas também a relação com a tecnologia, com placas de computadores, com a estética urbana. Não fiz roupas que remetessem ao maracatu, ao coco, à ciranda. Foquei no Recife, na atmosfera metropolitana.

Cheguei a produzir uma camiseta sem manga para um show de Chico em São Paulo, feita a partir de garrafas PET reaproveitadas. Nos anos 1990, assinei uma camisa que estampava releitura da bandeira de Pernambuco com uma folha de maconha. Foi uma peça muito popular. Esse era o espírito, essa coisa da subversão. Queríamos reinterpretar símbolos tradicionais e trazê-los para a nossa realidade. Era moda aliada a posicionamentos políticos. A camisa sintetizava isso, esse desejo das pessoas.”

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