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Moda "O figurino impõe respeito", diz Mayza Becker, estilista pernambucana número um das drags Com encomendas fechadas até meados de 2016, Becker também assina vestimentas para o candomblé e roupas formais; alguns clientes desfilam fora do país

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 08/11/2015 10:10 Atualizado em: 08/11/2015 20:16

Mayza costura desde a infância, quando surrupiava agulhas das coisas da mãe. Foto: João Velozo/Especial para o DP/DA Press
Mayza costura desde a infância, quando surrupiava agulhas das coisas da mãe. Foto: João Velozo/Especial para o DP/DA Press

Trancado no quarto, com linha e agulhas surrupiadas da caixa de costura da mãe, sabia que não era uma criança comum: possuía um dom, usado, até então, para desenhar e fabricar roupas para as bonecas da irmã. A aptidão seria resgatada anos mais tarde, no início da juventude, quando ele assumiu o nome de Mayza Becker e passou a produzir as próprias fantasias para shows em boates locais. Plumas, lantejoulas, paetês, miçangas e tecidos finos, comprados no Centro do Recife, serviram de matéria prima a vestidos extravagantes - “com acabamento tão bem feito que se pode usar pelo avesso”, garante Mayza. As peças logo chamaram a atenção de drag queens pernambucanas, dando início à fama que consagrou o garoto que surrupiava agulhas como estilista de referência no nicho. Drags como Thânya Tumulto, Lolla Alegria e Gizelly Baygon se tornaram clientes fiéis e espalharam a assinatura de Mayza Becker pelo circuito de festas e desfiles, dos shows em Pernambuco à Parada Gay de Paris.

Se procurada pelos fregueses hoje, a estilista informa que tem agenda lotada de encomendas até agosto do ano que vem. Autodidata, brinca dizendo que começou a cerzir ainda na barriga da mãe, costureira profissional com quem troca figurinhas até hoje. É a costura - cujo preço é calculado pela soma de material e tempo investidos na roupa - que paga as contas de Mayza. Vestidos de festa e vestimentas do candomblé também são produzidos no apartamento onde vive e alinhava, no Centro do Recife. No contato com a clientela, Mayza Becker desfaz preconceitos. “Costuro para pessoas com religiões, valores e estilos de vida completamente distintos, que se encontram em minha casa, provam suas roupas e se respeitam”, conta. Para ela, a moda é uma forma de descontruir resistências e, no caso das drag queens, impor respeito. “Sempre tem um engraçadinho que age como se a drag fosse uma garota de programa. O figurino exagerado ajuda a entender que é um personagem, uma atuação”, explica.

Mayza Becker, que produz, em média, dez peças por mês, define seu trabalho como “roupa de palco”, que não se pode encontrar à venda em loja - “uma mistura de alta costura e prêt-à-porter” (pronto para vestir), pontua. As modelagens com corpete são marca registrada e, nas palavras dela, adaptam para os homens as roupas de mulher. A fama foi conquistada boca a boca. “O trabalho dela é bastante reconhecido entre as drags locais, usado inclusive no exterior”, diz Rafael Silva, intérprete de Thânya Tumulto. Um exemplo é a drag Lolla Alegria, que desfilou modelo assinado por Maysa na última Parada Gay de Paris. Os desenhos e tecidos foram trocados entre cliente e estilista por correspondência, até o envio final do vestido. A mesma roupa ainda embarcou com o dono, pernambucano, para o carnaval deste ano no Brasil. “As pessoas veem o resultado e encomendam também. Costuro uma, surgem dez”, brinca Mayza.

>> MODO DE PREPARO
Mayza apontou motivos para sua fama entre as drag queens pernambucanas, dos paetês costurados à mão aos corpetes dos modelitos.

A agenda da estilista está lotada de encomendas até meados de 2016. Foto: João Velozo/Especial para o DP/DA Press
A agenda da estilista está lotada de encomendas até meados de 2016. Foto: João Velozo/Especial para o DP/DA Press
Luzes

Brilho, especialmente em lantejoulas e paetês, é pré-requisito para as peças assinadas por Mayza Becker. O glamour é característica das roupas encomendadas para o uso no palco, com cores e acessórios mais extravagantes, que se destaquem diante da plateia, nas fotos e filmagens. “A cola ajuda a agilizar o processo de produção, a aplicação dos brilhos, mas prefiro a costura tradicional, que exige mais tempo”, explica a estilista.

Curvas
O corpete, que remete aos antigos espartilhos, está na maioria das peças produzidas por Becker. Foi um dos pontos que lhe conferiu fama. Ajuda a modelar o corpo masculino e simula as curvas femininas, essenciais na interpretação das drag queens. Saias armadas, com plumas ou babados, ajudam a ressaltar os corpetes.

Cortes
A matéria prima é comprada no comércio do Centro do Recife, onde o custo é mais vantajoso, segundo a estilista. Às vezes, contudo, há pouca variedade de tecidos e aplicações. Alguns clientes enviam os próprios cortes, alguns adquiridos fora do país, em polos da alta costura, como países do circuito fashion europeu. “Quando um cliente adentra a minha porta com o tecido nas mãos, começa a nossa história.”

Planos
Muitas vezes, as drag queens ainda não definiram o estilo e a personalidade de seus personagens quando encomendam a vestimenta, então deixam a cargo de Mayza Becker a concepção do figurino. Determinam a paleta de cores e a estilista desenvolve a modelagem, os bordados e as aplicações. “A fantasia é parte fundamental da identidade da drag”, sentencia ela. 

Horas
“Tenho um perfeccionismo doentio”, brinca Mayza, que já chegou a dispensar uma tarde inteira na aplicação de um zíper. Segundo ela, desde a produção das roupas das bonecas da irmã, o acabamento, inclusive no avesso das peças, era prioridade. O tempo dedicado a cada roupa é o que determina o custo para o cliente. A maioria das roupas é feita em menos de uma semana, mas algumas já consumiram meses.

>> ENTENDA O LOOK
Destrinchamos no esquema abaixo cada detalhe do figurino de uma drag queen, tomando como exemploum registro de Thânya Tumulto, cliente de Mayza Becker e uma das drags mais famosas do estado.




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