Passarela Celebração da alta-costura nas passarelas de Paris Semana de Alta-Costura de Paris reuniu grifes como Dior e Chanel, reivindicando poder para as roupas feitas à mão e lançando luz sobre tradições e preciosismo

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 09/07/2018 10:11 Atualizado em: 05/07/2018 18:25

Dior celebrou o minucioso trabalho por trás de cada peça de alta-costura. Foto: François Guillot AFP
Dior celebrou o minucioso trabalho por trás de cada peça de alta-costura. Foto: François Guillot AFP

Reconhecida como palco de um seleto clube de grifes icônicas e suas criações mais exclusivas, a Semana de Alta-Costura de Paris reuniu o crème de la crème da moda internacional: até o último dia 5, selos como Chanel, Armani, Gaultier e Dior cruzaram as passarelas francesas com tendências – e mensagens – para as próximas estações. A autorreferência ao preciosismo da alta-costura, uma das principais bandeiras hasteadas na temporada, coube especialmente à performance da Dior: o minucioso trabalho por trás de cada peça de alta-costura serviu como pano de fundo para coleção discreta e sóbria.

Para o desfile, a italiana Maria Grazia Chiuri imaginou o Museu Rodin como um ateliê de costura, lançando luz sobre as etapas de criação de cada peça, que chegam a somar até duas mil horas de trabalho manual. Vestidos monocromáticos, tons pastéis e modelagens plissadas protagonizaram a coleção, complementados por acessórios como cintos, boinas e colares de tecido com pérolas suspensas.

No segmento da alta-costura, cada peça pode demandar até duas mil horas de trabalhos manuais. Foto: François Guillot AFP
No segmento da alta-costura, cada peça pode demandar até duas mil horas de trabalhos manuais. Foto: François Guillot AFP

“Hoje se acredita que a única coisa que tem valor é o que é visível na foto. E a alta-costura, por ser cara, parece que tem que ser visível”, disse Chiuri em entrevista à AFP. “Há algo que é invisível e é muito caro: é o toque humano, são as horas de trabalho, os acabamentos...”, finalizou a estilista, que está à frente da direção artística da Dior desde meados de 2016 e tem marcado seus últimos desfiles com discurso feminista. Sua nova missão parece ser a de educar as novas gerações, conectadas à extravagância e à busca por likes nas redes sociais, sobre o valor da confecção, do trabalho e da atenção humanos. “O público da alta-costura não passa seu tempo no Instagram”, ela disse. Em declarações à imprensa, Chiuri acrescentou que novos estilistas podem aparecer, bem como novos clientes para a alta-costura, se os jovens forem sensibilizados pelo segmento.

Modelos da Chanel por entre réplicas de barracas de livros características dos arredores do Sena. Foto: Alain Jocard/AFP
Modelos da Chanel por entre réplicas de barracas de livros características dos arredores do Sena. Foto: Alain Jocard/AFP
A Chanel, outra gigante da moda, se curvou à literatura para também reverenciar tradições: reproduziu a sede da Academia Francesa e celebrou Paris e suas históricas livrarias às margens do Rio Sena. Em junho do ano passado, Karl Lagerfeld havia homenageado os signos parisienses ao reproduzir a Torre Eiffel. Desta vez, sob o teto de vidro do museu do Grand Palais, modelos caminharam por entre réplicas de barracas de livros características dos arredores do Sena, acompanhadas por três "livreiros" de luxo (o modelo americano Brad Kroenig e seus dois filhos, Hudson e Jameson, afilhados de Lagerfeld).

Mangas volumosas, saias luxuosas, cinturas marcadas e botas de cano curto marcaram a performance. Fotos: Alain Jocard/AFP
Mangas volumosas, saias luxuosas, cinturas marcadas e botas de cano curto marcaram a performance. Fotos: Alain Jocard/AFP

Entre os espectadores, a atriz espanhola Penélope Cruz, nova embaixadora da marca, conforme anunciado pela grife no último dia 3. O estilista octogenário, grande erudito, que segundo estimativas possui mais de 300 mil títulos em sua coleção pessoal de livros, reproduziu também a elegante sede da Academia Francesa, órgão guardião da língua de Molière. Nesse contexto, veio à luz uma coleção marcada por forte presença do cinza, mangas amplas até os cotovelos, zíperes, mãos e braços cobertos por luvas de couro e saias com fendas laterais - deixando entrever anáguas do mesmo tecido e cor. A Chanel propôs, ainda, saias luxuosas, cinturas marcadas e botas de cano curto. O tradicional vestido de noiva da grife surgiu composto por duas peças em tom verde-azulado, bordado com folhas de oliveira, em referência ao traje dos Imortais da Academia Francesa.

A tradicional noiva da grife surgiu com peças em tom verde-azulado bordadas com folhas de oliveira. Foto: Alain Jocard/AFP
A tradicional noiva da grife surgiu com peças em tom verde-azulado bordadas com folhas de oliveira. Foto: Alain Jocard/AFP
Já o veterano Jean Paul Gaultier, abriu espaço ao contraditório, tendo sido, possivelmente, o responsável pelo desfile com maior potencial de “viralização” nas redes sociais, levando a alta-costura ao ambiente virtual. Enquanto autoridades sanitárias de todo o mundo lutam com todas as armas contra o cigarro e seus efeitos nocivos, a performance de Gaultier apostou na transgressão. Na cortina branca de onde surgiram os modelos, foram projetadas imagens de espirais de fumaça em uma passarela mista aberta com a canção Cigarette, de Jacques Higelin.

Gaultier deixou claro que o inconformismo ainda está vivo em seu trabalho criativo. Foto: Alain Jocard/AFP
Gaultier deixou claro que o inconformismo ainda está vivo em seu trabalho criativo. Foto: Alain Jocard/AFP

Modelos desfilaram com cachimbos e cigarros eletrônicos, sendo também foram representados os que lutam contra o fumo, com a frase “no smoking” estampada em suéter de pele e numa máscara. A inspiração foi clara: “A liberdade que deveríamos ter de poder fumar ou não”, disse o estilista em entrevista à AFP. “Vivemos em um mundo muito politicamente correto”, acrescentou. Gaultier também passeou sobre o polêmico território dos “mamilos livres” - campanha representada na internet pela hashtag #freethenipple – e fez alusão ao escândalo ocorrido num colégio da Flórida, nos Estados Unidos, onde uma jovem foi obrigada pela direção do centro de ensino a cobrir seus mamilos com adesivos por não usar sutiã. “Os homens têm direito a mostrar seu tórax nu. Por que as mulheres não têm?”, questionou o francês.

A inspiração do desfile viria da "liberdade de poder fumar ou não". Foto: Alain Jocard/AFP
A inspiração do desfile viria da "liberdade de poder fumar ou não". Foto: Alain Jocard/AFP


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Viktor & Rolf: a dupla holandesa Viktor & Rolf apresentou no último dia de desfiles da Semana de Alta-Costura uma coleção exclusivamente em branco, concentrada na modelagem, de imaginação transbordante. Uma das modelos lembrava uma cama móvel usando um casaco acolchoado extragrande semelhante a um cobertor, com duas almofadas atrás da cabeça. Outra usava uma jaqueta branca decorada com dezenas de laços brilhantes em tom de cinza.

Viktor & Rolf apresentou uma coleção exclusivamente em branco. Foto: Bertrand Guay/AFP
Viktor & Rolf apresentou uma coleção exclusivamente em branco. Foto: Bertrand Guay/AFP

Iris van Herpen:
A simplicidade não foi marca do desfile da holandesa Iris van Herpen, que continua desenvolvendo seu estilo inconfundível entre moda, arquitetura e tecnologia. Seus looks, comparáveis a esculturas, conquistaram estrelas como Lady Gaga, Cate Blanchett e Naomi Campbell e são protagonistas de várias exposições. No desfile, a jovem estilista, especialista em impressão 3D e nos cortes com laser, apresentou a coleção "Syntopia", inspirada nos pássaros e seu voo. "Como ex-bailarina, o movimento sempre me hipnotizou", disse Van Herpen, que colocou na passarela uma instalação com 20 "asas" de cristal que se moviam representando cada fase de um voo. 

Franck Sorbier: "Ajuda!", foi como o francês Franck Sorbier batizou sua nova coleção, aberta com duas crianças que agitavam duas placas em que se lia "Chega de prejudicar meu planeta" e "Chega de prejudicar os animais". Inspirado em animais como a zebra, o orangotango e o rinoceronte branco, o estilista apresentou uma série de vestidos com influência do século XIX, desfilados por bailarinas no ritmo de uma música oriental apresentada ao vivo.

"Chega de prejudicar meu planeta" e "Chega de prejudicar os animais" no desfile de Franck Sorbier. Foto: François Guillot/AFP
"Chega de prejudicar meu planeta" e "Chega de prejudicar os animais" no desfile de Franck Sorbier. Foto: François Guillot/AFP




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