Tendência Tendência: quimonos se reinventam para sobreviver Tradição oriental busca reconquistar espaço no mercado da moda com matérias-primas mais acessíveis, novas fórmulas nas passarelas e aluguel de peças únicas

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 25/05/2018 14:51 Atualizado em: 25/05/2018 15:18

A tradição oriental dos quimonos ganha força a partir de reinvenções Foto: Kazuhiro Nogi/AFP
A tradição oriental dos quimonos ganha força a partir de reinvenções Foto: Kazuhiro Nogi/AFP


Sob a luz, Yuichi Hirose desenha com tinta azul sobre um tecido fino, com o qual enfeitará um quimono - a tradicional túnica japonesa que tenta sobreviver em uma indústria em declínio. Em um centenário ateliê de um bairro de Tóquio, o artesão de 39 anos repete incansavelmente os mesmos gestos, transmitidos de pai para filho. É a quarta geração de sua família a se dedicar a este ofício, mas, agora, os tempos são menos prósperos do que no passado. O mercado do quimono caiu para 278,5 bilhões de ienes em 2016 (2,5 bilhões de dólares), segundo estudo do instituto de pesquisa Yano, após alcançar 1,8 trilhão de ienes (quase 16,6 bilhões de dólares) em 1975.

Alguns quimonos podem custar milhares de euros, o que desperta a busca pelo aluguel ou empréstimo das peças. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP
Alguns quimonos podem custar milhares de euros, o que desperta a busca pelo aluguel ou empréstimo das peças. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP
O quimono, uma palavra que significa literalmente "algo para se pôr", "tornou-se uma veste muito distante da nossa vida diária", reconhece Hirose. “É preciso imaginar novos grafismos, criar novas ocasiões, menos formais, para usá-los. Como, por exemplo, para ir a um concerto, ou ao teatro”, completou. Atualmente, está reservado a eventos importantes, como casamentos, ou ritos tradicionais, como o dia da transição da adolescência para a idade adulta, celebrada em janeiro pelos jovens de 20 anos. E, mesmo para essas ocasiões, poucos compram um quimono, devido aos preços proibitivos - que podem chegar a milhares de euros. Muitos preferem alugá-los ou pedir peças emprestadas a familiares.

Para Takatoshi Yajima, vice-presidente da associação japonesa de promoção de quimonos, a indústria deve se adaptar para frear a queda do volume de negócio. “Os profissionais do setor continuaram vendendo seus produtos sem baixar os preços, concentrando-se em modelos de seda muito sofisticados”, lamenta Yajima. Ele é a favor, pelo contrário, de se estabelecer as bases "para que mais pessoas possam comprar quimonos". Sua empresa comercializa túnicas mais acessíveis, de algodão ou de linho. E funciona: os que custam menos de 100 mil ienes (cerca de 900 dólares) representaram em 2016 quase 60% das vendas, em comparação com 25%, em 2000. 

Técnicas mais acessíveis, com algodão ou linho, podem movimentar o segmento. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP
Técnicas mais acessíveis, com algodão ou linho, podem movimentar o segmento. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP
Além de preços mais convidativos, também é hora de rejuvenescer a peça, defende Jotaro Saito, que apresentou em março sua coleção na Tokyo Fashion Week. "Não saíram de moda e usá-los é divertido", diz este estilista que testa novas fórmulas.

Para dar um novo impulso a essas vestes tradicionais, Kahori Ochi encontrou outra solução: um serviço de aluguel de quimonos para turistas. A japonesa de 42 anos estudou de perto a evolução do setor. Seus pais tinham uma loja de quimonos, em Saitama (norte de Tóquio). "Quando eu era pequena, não paravam de trabalhar, e tínhamos dinheiro. Depois, explodiu a bolha financeira e complicou", conta ela. "Minha mãe teve de se resignar a vender quimonos de segunda mão (...) Foi uma boa decisão. Nós sobrevivemos, e outros fecharam", relata Ochi. "Me parecia que não estava na moda e, além disso, não era nada prático", reconhece, sorrindo.

Depois de uma viagem à Noruega, porém, onde sair vestida de quimono causava sensação, ela mudou de ideia e decidiu apoiar sua mãe. "Ela se surpreendeu e me disse: 'você não vai ter salário!'", lembra Kahori Ochi. Agora, sua loja no bairro da moda de Harajuku atrai cerca de 500 clientes por ano, que os alugam por 9 mil ienes (cerca de 81 dólares) por algumas horas. "É uma experiência única", descreve Ruby Francisco, uma holandesa de 33 anos, encantada com poder posar com um quimono verde-claro sob cerejeiras em flor. Para ela, é a própria “essência da elegância".

A tradição acompanha gerações e pode ser revigorada nas passarelas atuais. Foto: Toshifumi Kitamura /AFP
A tradição acompanha gerações e pode ser revigorada nas passarelas atuais. Foto: Toshifumi Kitamura /AFP


>> PARA REINVENTAR

Quimonos estampados remetem às tradições milenares orientais e podem compor look romântico e delicado. Apostar em comprimentos curtos ou medianos pode rejuvenescer a produção.

Quimonos com brilho são perfeitos para sair à noite e caem bem sobre roupas de estampas sóbrias e cores neutras. Uma boa ideia é apostar num quimono de paetês para “quebrar” produções monocromáticas.

Combinados a shortinhos e calçados casuais (botas, tênis), quimonos fluidos fazem lembrar de imediato os festivais de música a céu aberto e são ideais para programas ao ar livre e produções menos formais. 

Quimonos coloridos são peças-chave para “levantar” looks mais básicos – como short jeans e camiseta neutra, agregando estilo e informação de moda a produções antes comuns.

Para um quimono midi, que pode causar a sensação de achatamento da silhueta, uma calça justa de cintura alta e uma sandália de salto caem bem. Calças boca sino também “dão match” com a peça e alongam o visual.

Com saias listradas ou estampadas, os quimonos dão ar de informalidade (sobretudo às composições com saia lápis). Para não errar, devem ter uma ou mais tonalidades em harmonia com a tabela de cores das demais peças.

Na Tokyo Fashion Week, estilistas testaram novas fórmulas e releituras das tradições. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP
Na Tokyo Fashion Week, estilistas testaram novas fórmulas e releituras das tradições. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP





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