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Moda O universo de Alexandre Herchcovitch Em passagem pelo Recife, o estilista concedeu entrevista exclusiva para a equipe de moda Diario, onde falou sobre carreira, família e seu processo criativo

Por: Aline Ramos

Publicado em: 13/03/2018 10:00 Atualizado em: 13/03/2018 09:31

"Eu comecei a costurar à mão, na máquina, a cortar tecidos e foi nesse momento, que percebi que faria isso pro resto da vida". Foto: Thiago Santos/ESP.DP
"Eu comecei a costurar à mão, na máquina, a cortar tecidos e foi nesse momento, que percebi que faria isso pro resto da vida". Foto: Thiago Santos/ESP.DP

Transgressor, polêmico e inovador. Alexandre Herchcovitch levou para a passarela a drag Márcia Pantera num look branco estampado com uma cruz invertida. Por onde ela passava deixava um rastro de sangue. Nas mãos, um terço. Na cabeça, chifres. Isso era apenas o anúncio do que estava por vir de alguém que se tornaria um dos maiores criadores da moda brasileira em seu desfile de conclusão do curso de Moda, da Faculdade Santa Marcelina.

“Ver a roupa sendo construída foi o que me seduziu e eu pedi para a minha mãe me ensinar a utilizar a máquina de costura. Eu comecei a costurar à mão, na máquina, a cortar tecidos e foi nesse momento, que percebi que faria isso pro resto da vida”, afirma o estilista de 46 anos. No início da adolescência, o fashion designer nascido e criado em São Paulo começou a costurar para si, para sua mãe e para os amigos mais próximos. Quando vendeu sua primeira peça não queria entregar de qualquer jeito e resolveu criar uma marca. “Eu não pensei em outro nome que não fosse o meu, porque as minhas roupas falam muito sobre mim. Fiz a minha primeira etiqueta e foi aí que nasceu a Alexandre Herchcovitich”, conta.

Alê, como gosta de ser chamado, também ganhou destaque na noite paulistana ao produzir peças para drags queens e prostitutas. “O maior apoio que eu tive foi dentro de casa. E até hoje, os meus pais são entusiastas do meu trabalho. Isso me ajuda e me dá muita força. Inclusive, a primeira máquina de costura industrial que eu tive foi meu pai quem me deu”, relembra. Com mais da metade da sua vida dedicada à moda, o estilista passou de destaque na cena underground nos anos 90, para um profissional reconhecido internacionalmente por sua moda sofisticada, suas modelagens que fogem do comum e alfaiatarias únicas.

Herchcovitich carrega em sua bagagem trabalhos para marcas como Zoomp, Ellus, Cori, além de parcerias com a C&A,  Chilli Beans, Melissa, Hering, entre tantas outras. Como uma forma de se comunicar com o mundo,  Alexandre foi um dos primeiros a apostar na expansão das suas criações para linhas de decoração, roupas de cama e óculos. Na passarela sempre surpreendeu seus expectadores com toques inusitados.

"Quando eu quiser transgredir novamente eu vou". Foto: Thiago Santos/ESP.DP
"Quando eu quiser transgredir novamente eu vou". Foto: Thiago Santos/ESP.DP
O desfile de inverno de 2004, por exemplo, foi um dos pontos altos da história da moda nacional. A personagem Hello Kitty e uma explosão de xadrezes se misturavam a uma Carmen Miranda dark coberta de babados emborrachados pretos, assim como as frutas que as modelos levavam na cabeça. A coleção foi apresentada em Paris e as imagens viajaram o mundo, estamparam uma série de livros e compuseram exposições.

Talvez uma das coleções mais polêmicas do estilista foi a do inverno de 2007, inspirada no universo dos bóias-frias. Chapéus trançados, macacões de trabalho e os famosos vestidos de saco de lixo movimentaram a opinião dos fashionistas e da crítica. “Confesso que sinto falta dos jornalistas de moda que eram realmente críticos. Não sei se é por medo da repercussão nas redes sociais ou se não sabem mesmo o que falar. Atualmente, o que se observa é só uma descrição dos desfiles”, revela.

Outro momento marcante na vida do designer foi em 2016, nas Olimpíadas, quando criou o vestido usado por Gisele Bundchen na abertura do evento. “O meu processo de criação é muito livre. Eu procuro ver o que me dá mais vontade naquele momento. Independente de saber qual vai ser o meu tema, às vezes eu começo escolhendo as cores, outras vezes prefiro iniciar pelas formas ou tecidos. E quando tudo está estabelecido, eu sigo um cronograma bem rígido de entrega de desenhos, protótipos... No começo, o processo é bem livre, mas depois de estabelecido é bem matemático”, enfatiza.

Após 23 anos à frente de sua marca homônima como diretor criativo, Alexandre anunciou seu desligamento da empresa e pouco tempo depois embarcou em uma nova empreitada, assinando as criações da À La Garçonne, selo criado por seu marido, Fábio Souza. A primeira coleção foi um marco da sua carreira em que soube misturar, com maestria, a alta-costura com o street. “Hoje eu não tenho mais nenhuma ligação com o selo Alexandre Herchcovitch. Não me arrependo de ter vendido e não acho estranho não poder usar mais meu nome como marca, eu sabia disso ao vendê-la”, diz.

Longe dos holofotes, Alexandre desempenha o papel de esposo do empresário Fábio e de pai dos pequenos Ben e Fernando. Com uma vida mais caseira, Herchcovitich conta que isso não mudou o seu lado transgressor na moda. “Quando eu quiser transgredir novamente eu vou. Só que hoje existem poucos assuntos que são verdadeiramente transgressores. Eu acho que tudo já foi muito explorado, tudo muito falado. Eu amadureci muito na minha carreira e procurei outros caminhos e a transgressão, ela nunca foi proposital, sempre foram assuntos que faziam parte do meu dia a dia e isso refletia nas minhas roupas e na passarela. Esses temas vão e vem e se tornam menos transgressores com o passar do tempo. Eu não acho que o casamento e a paternidade tenham influenciado nisso”, pontua.



>>FAST FASHION COM ALEXANDRE HERCHCOVITCH

Quem é o Alexandre pai? Difícil de responder. Vamos pra outras perguntas (risos).

Família? Pra mim é um lugar. Às vezes uma pessoa não é da sua família, mas se torna da família. Esse conceito é abrangente.

É difícil trabalhar com o marido? É um pouco mais delicado do que você trabalhar com alguém todo dia, mas que você não vê me casa. E nós temos muitos cuidados pra não misturar as coisas, não levar trabalho para casa. Claro que se fala um pouco, mas nada de exageros.

Arrependimento? Não (responde sem hesitar).

Um livro? Eu não leio faz muitos anos.

Filme? Drácula de Bram Stoker, que para mim não é um filme de terror é um romance e sempre que posso revejo.

Um lugar? Aqui agora.

Uma frase? Eu costumo dizer que a elegância não está na roupa, mas na forma como você se sente e se comporta.


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