Moda

Requinte danado de Catende

No universo criativo do estilista João Luíz Battista, bordados, tecidos e aplicações ganham formas de alta-costura em plena Mata Sul do estado

Recentemente, Battista desenvolveu o editorial inspirado na mitologia grega Mênades. Foto: João Luíz Battista/Divulgação

Há 13 anos, a vida do antigo garoto que sonhava em ser psicólogo mudou. Seguir os passos de sua avó costureira foi o que, de fato, estava plantado no coração de João Luís Battista. Ver Dona Maria moldando “desejos” para suas clientes despertou o lado criativo do jovem, da cidade de Catende, localizada a 142 quilômetros do Recife. “Com minha avó, tive as primeiras experiências em alta-costura. Eu ficava observando ela fazendo os acabamentos impecáveis e como ela executava”. Mesmo sem o apoio inicial dos pais, o catendense resolveu seguir em frente.

Autodidata, iniciou sua carreira em 2003, quando participou do extinto Recife Fashion e conseguiu destacar-se como um dos quatro novos designers. Após essa conquista, João começou a produzir peças em casa e há 10 anos abriu um ateliê, na Rua Estudante Ivan Aguiar, 18, Nova Catende, no município que o viu crescer. Apaixonado pelo trabalho do estilista francês, Emanuel Ungaro, o fashion desiginer, atualmente com 27 anos, traz em suas peças uma releitura de tecidos usuais acrescentando um toque de requinte. “As matérias primas são as mais diversas possíveis. Uso desde a seda pura ao couro. Gosto de desenvolver texturas, experimentando diferentes materiais como bordados artesanais, tingimentos e aplicações”, explica.

Segundo João, são produzidos por mês de três a cinco vestidos de noivas, madrinhas e debutantes, tudo sob medida. “Meu processo de criação parte das referências físicas e emocionais de cada cliente. Mas sem dúvida, a forma de concepção de um vestido de noiva me encanta. O que mais me atrai é poder realizar, junto com a cliente, o seu sonho”, revela. O estilista conta com uma equipe formada por cinco pessoas, entre assistentes, pilotos, bordadeiras e costureiras. As peças são produzidas em torno de dez dias. Além de roupas, são desenvolvidos sapatos, bolsas, joias e adereços para cabelo.

O ateliê fica em Nova Catende, na Mata Sul de Pernambuco. Foto: João Luíz Battista/Divulgação

Mesmo com a demanda do ateliê, Battista sempre reserva um tempo para criar coleções para editoriais e passarela. Recentemente, ele desenvolveu o editorial inspirado na mitologia grega Mênades, onde ninfas seguidoras e adoradoras do culto de Dioniso eram conhecidas como selvagens e endoidecidas. Normalmente eram representadas com cabelos desgrenhados entrelaçados de serpentes e vestidas com uma pele de veado, de raposa ou de pantera e tigre, com uma grinalda de hera e empunhando um tirso (bastão envolto em ramos de videira).

“Sentimento é palavra-chave para cada coleção. A necessidade de mergulhar em cada universo e transmutar as referências de vastas pesquisas, observações e transformar em roupas faz do meu trabalho atemporal e da mulher que a veste uma cosmopolita. As ideias do meu trabalho nascem completas desde a trilha sonora, beleza, acessórios, e claro, a roupa. Com um mix de materiais, trabalho a identidade dessa mulher que usa, desde as tramas artesanais de um bordado com pedraria, fios de seda e de algodão ou aplicação de couros. Alguns tecidos são relidos, passando por processos de tingimento e texturas – enobrecendo o resultado final de cada peça”, afirma. Questionado sobre quem ele desejaria vestir, João pontua: “Dilma Roussef, por sua coragem; Madonna, por sua ousadia e atemporalidade; Vanessa da Mata, por sua poesia”.

Autodidata, João iniciou sua carreira em 2003, quando participou do extinto Recife Fashion e conseguiu destacar-se como um dos quatro novos designers. Foto: João Luíz Battista/Divulgação

O que a moda significa pra você?

Moda pra mim é uma ciência visual.

Como você enxerga o mercado da moda na sua cidade?

Na região em que vivo não existe um mercado de moda. Existe, uma excelente mão de obra, que atrai clientes de outras regiões.

O que te inspira?

Formas femininas, conceituais, arquitetônicas e poéticas – misturadas a diferentes materiais, texturas e cores.

Quem são seus principais clientes?

O público alvo são as mulheres de todas as idades, que apreciam alta-costura pernambucana.

Quem são seus ícones da moda?

Julien Fournié, Emanuel Ungaro, Gorethe Pugh.

Qual é a sua perspectiva para os próximos anos?

Aprimoramento de técnicas e visão de novas linhas de materiais e suas misturas.

Qual é seu maior sonho?

Ampliar cada vez mais meu trabalho.

Ateliê João Luís Battista

Rua Estudante Ivan Aguiar, 18, Nova Catende, Catende – PE.

Contatos: (81) 9 9400.4976 | (81) 3673-2084 | joaoluisbatista@yahoo.com.br

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