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Gastrô » Mel de engenho é quase um camaleão Ele percorreu senzalas, passou pela mesa dos senhores da Casa Grande e hoje conquista seu lugar ao sol

Publicação: 18/08/2012 11:17 Atualização: 20/08/2012 11:54

Frango assada com molho de mostarda e mel. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
Frango assada com molho de mostarda e mel. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
Uma cadeia carbônica de sacarose anterior à cristalização do açúcar, uma longa jornada histórica, usos terapêuticos para combater a anemia, além de instrumento para a confecção de inúmeros pratos. Se pudesse ser definido em poucas palavras, o protagonista da edição do Gastrô desta semana teria esta conotação: um viajante que, em tempos de colonização, saciou a fome dos que até então eram tidos como personas non gratas e desprovidas de alma, pela fé cristã. O mel de engenho percorreu senzalas, passou pela mesa dos senhores da Casa Grande e hoje conquista seu lugar ao sol, atribuindo ares de requinte desde o preparo de entradas, emulsionadas no seu marrom-cintilante, a sobremesas reforçadas pelo seu sabor especial da terra.

Destaque na obra de Gilberto Freyre, esta que completa oito décadas de publicação em 2013, o mel ainda é um dos componentes-base da gastronomia pernambucana desde a economia colonial açucareira, ao lado da mandioca e do coco. A surpresa: mesmo já sendo empregado numa escala maior na confecção de pratos com paladares distintos. De uma boa galinha caipira sob o mel de engenho, passando pelo pernil de cabrito, a receitas mais comuns como o típico queijo de coalho frito regado ao item açucarado - , ele está lá, sempre aliado a um baixo custo de consumo. “Ainda é pouco presente na mesa dos pernambucanos”, resume o antropólogo e curador da edição Prazeres da Mesa deste ano, Raul Lody.
Sobremesa Caboclo gelado, com sorvete de mel de engenho.  Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
Sobremesa Caboclo gelado, com sorvete de mel de engenho. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press

Lody comenta ainda sobre a necessidade dos chefs e cozinheiros mergulharem neste universo da naturalização do uso dos insumos locais, procurando unir os diferentes paladares e mostrá-los ao mundo. “A gastronomia corresponde a um terço do processo decisório no sentido do aquecimento do turismo, que ganha reforço com as pessoas cada vez mais mobilizadas a se aventurarem em outras localidades, atraídas pela comida típica daquela região”, complementa Gilberto Freyre Neto, sociólogo e descendente do escritor de Casa Grande e Senzala.

Quem já se considera íntimo do mel de engenho, integrado ao cardápio do seu estabelecimento, é o chef e proprietário do Parraxaxá, Bruno Catão, que tem uma relação de longa data com o derivado da cana. “Como minha família é nordestina, o costume de comer queijo coalho com mel sempre foi comum. Hoje, percebo que é indiscutível o uso de produto em receitas dos mais variados tipos. É usado desde pratos salgados como carne-de-sol até bolinhos de mandioca com mel na composição, acompanhados de uma bola de sorvete do próprio insumo regional ou da tradicional cachaça”, sugere.

Leia mais na edição do Diario de Pernambuco deste sábado (exclusivo para assinantes)

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