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Entrevista » Se eu fosse para um clássico e não tivesse briga, era a mesma coisa que não ir A história do zagueiro do Náutico que integrou uniformizada, traficou e viu boa parte dos amigos morrer; sem o futebol, garante que teria tido o mesmo destino

Daniel Leal - Diario de Pernambuco

Publicação: 08/07/2017 10:44 Atualização: 08/07/2017 11:42

Foto: Gabriel Melo/Esp. DP
Foto: Gabriel Melo/Esp. DP

Breno Calixto tinha 12 anos. A essa altura da vida, já estampava na perna direita uma tatuagem com o símbolo da Leões da TUF, uniformizada do Fortaleza. Cresceu ao lado da criminalidade e da banalidade da morte, que circundavam o Parque São José, conhecida como “favela vertical”. “Era comum homicídio. A gente via assassinato na nossa frente. Teve um na virada do ano de 2012 que foi ao meu lado”, disse. Imerso numa realidade obscura, traficou drogas até os 16 anos. Durante o mesmo período, usou maconha. "Pó, crack, essas coisas, nunca", garante. Válvula de escape às dificuldades da vida, acabou virando membro "considerado" da TUF. Carrega até hoje cicatrizes no corpo e na memória, vestígios de um passado violento. Marcas de tiro, de pedrada, de porrada. E ele admite: só está vivo graças ao esporte. A entrevista de Breno Calixto é um relato incomum no futebol nacional de um ex-membro atuante de torcida organizada que conseguiu se tornar jogador profissional. Sem demonstrar qualquer sinal de arrependimento pelo passado violento, o zagueiro de 24 anos, titular do Náutico, abriu a caixa preta da vida à reportagem do Superesportes. Com declarações fortes, que por vezes se chocam, define o período "louco" que atravessou como o melhor da sua vida, desaconselhando, porém, os "moleques mais jovens" a seguir pelo caminho que trilhou.

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Como foi o seu envolvimento com torcida organizada?
Eu era da Torcida Uniformizada do Fortaleza, Leões da TUF, desde 2009. Comecei no Parque São José, só que fizemos uma junção e ficamos todos juntos com a Vila Peri, que é a Zona Oeste de Fortaleza. Nessa época, era da torcida, mas já jogava na base também. Me profissionalizei em 2012 pelo Corinthians de Caicó e, mesmo assim, seguia na organizada. Sempre que eu ia de férias para Fortaleza, voltava para a torcida. Como na nossa língua, ia para a torcida, à pista, como nós falamos.

O fato de você ter sido da organizada prejudicou sua vida profissional em algum momento?
Em 2013, eu fui para o Horizonte, do interior do Ceará, e tem até uma história engraçada. Eu estava jogando o Campeonato Cearense já como profissional. Jogamos em um domingo e eu estava pendurado. Quando olhei na tabela, no outro domingo era clássico: Fortaleza e Ceará. Se não me engano, nós jogaríamos contra o Guarani de Juazeiro. Eu estava com os dois cartões (amarelos) e pensei... É uma coisa que vou até abrir agora, que pouca gente sabe. Eu levei o terceiro cartão justamente para ir para o clássico com meus amigos. Era coisa de moleque. Moleque assim, não tinha a mente que tenho hoje. Hoje não faria. Hoje eu tenho minha cabeça formada. Sou meio doido ainda, como os caras falam, mas já tenho a cabeça mais formada.

Como foi o seu ingresso no universo das organizadas?
Eu entrei na torcida por conta própria mesmo, vendo meus amigos mais velhos indo para o jogo. Fui acompanhando eles, vendo eles brigarem e fui pegando experiência. Tinha uns caras loucos que eu me espelhava: o Rifle, o Negão, o Vicente, o Beto, o Peter... Aí esses caras foram saindo da torcida e eu fui crescendo junto com os outros. Acabou que ficamos na linha de frente do bairro. Fui ganhando moral por nunca correr dos rivais. Sempre estava ‘na disposição’ ali. A gente ouvia comentários dos moleques mais novos que quando a gente tava na pista, era certeza de ‘vitória’ na briga. Eu sempre gostava de ir para os clássicos com a camisa preta e boné preto porque às vezes a gente se infiltrava na torcida rival para tomar as camisas deles e bater neles. Ficávamos escondidos no estacionamento do Castelão esperando o rival chegar e atacar.

Era comum você se envolver em brigas?
Para ser sincero, em quase todas as confusões eu estava no meio. Eu era considerado um dos ‘linhas de frente’. Até quando eu vim para cá (para o Náutico), os caras da Fanáutico (organizada alvirrubra) já me conheciam pelo fato de eu ser um dos linhas de frente da TUF. Em quase todas as brigas eu estava. Para falar a verdade, se eu fosse para um clássico e não tivesse briga, era a mesma coisa que não ir.

Você sentia prazer nisso?
Sentia, sentia bastante prazer. Na época, tipo assim, muita gente critica a torcida. Ah, só tem vagabundo, só tem ladrão… Mas só quem sabe mesmo é quem está lá. Quem é da torcida.

O que passava pela tua cabeça, o que você sentia?
Não sei explicar. É uma adrenalina tipo assim... Você pegar um cara rival e assim… Não matar, porque tirar a vida, assim, não sou a favor. Mas estar ali na pista é para o que der e vier. Se vier, nós temos uma ‘palavra’: se quer guerra terá, se quiser paz, nós queremos em dobro. Mas torcida não é só isso. Torcida também tem as ações sociais que sempre faz para família carente. Por exemplo, no Ceará tem bastante seca, como aqui (em Pernambuco) também tem. A gente sempre reunia todo mundo, comprava galões de água para dar às famílias carentes. É tipo uma família, sabe? Tem suas coisas de guerras, mas é igual à vida. Tem o lado bom e o ruim.

Quando você saía para brigar, saía armado? Com faca, revólver…
Não, faca não. Nem revólver. Era pedra, pau, barra de ferro, mão… Já usei barra de ferro. Já bati, já fui ‘batido’... A vida é assim.

Chegou a ser espancado?
Da organizada rival, não. Muito difícil. Nunca chegaram a me espancar. Mas da polícia, já levei um sacode violento, de passar quase dois dias quebrado. Pedrada na testa com cicatriz também já levei. Peguei oito pontos com pedrada à queima roupa.

Você chegou a ser preso?
Só detido e depois liberado. Geralmente, não tem uma lei que dê cadeia para briga de torcida. Mas se eles pegarem dois caras batendo em um, podem alegar tentativa de homicídio.

E a sua família? Ficava preocupada, dava conselho?
Tipo assim, só fui criado sempre eu, meu pai e minha avó, que faleceu faz um mês e meio. Ela foi minha mãe, foi quem me criou. Meu pai saía para trabalhar e eu ficava muito só com minha vó. Ela, idosa, não tinha noção do que era organizada.

Você chegou a se envolver com drogas?
Sim. Me envolvi com o crime até os 16 anos. Não cheguei a assaltar, meu negócio era só traficar mesmo.

Chegou a usar drogas?
Já usei. Só maconha. Crack, pó, essas coisas, não. Na verdade, nunca fui a favor. Sempre fui um cara de cabeça mais formada. Os caras com quem eu convivi, que a gente fala que são os bandidos grandes, de verdade, eram bandidos mesmo, mas passavam o certo para nós moleques, que queríamos ser como eles. Eles eram nosso espelho, mas se for ver, hoje, estão todos mortos.

Perdeu muitos amigos?
A maioria. Muitos amigos meus morreram. Nós tínhamos um grupo de amigos de uns 12, 15 e hoje só tem eu e mais dois, o Jamerson e o Vitinho. Há cinco anos, eu tive uma perda muito grande quando mataram meu melhor amigo, o Renê. Ele era jogador também. A minha primeira viagem para jogar fora (de Fortaleza) foi com ele. Éramos da base ainda, tínhamos 15 anos e éramos muito chegados. Mataram ele. Até hoje não sabemos o real motivo, só sabemos quem foi e o assassino dele também já está morto. Quando ele morreu, no caixão dele, falei que quando meu filho nascesse daria o nome dele. Ano passado meu filho nasceu e fiz a homenagem.

Podemos dizer que você está vivo graças ao futebol?
Com certeza. O futebol foi que abriu meus olhos. E tem um cara em Fortaleza, o Bira, que é um treinador que me ajudou bastante. Ele sempre vinha abrindo meus olhos e sempre me dava oportunidade de viajar porque via que quando eu ia para Fortaleza,  me perdia, me envolvia com meus amigos, usava drogas, estava no meio da torcida... Então  sempre procurou time para mim fora de Fortaleza.

Você vê mais coisas positivas ou negativas nas organizadas?
Vejo mais o lado positivo. Imagine aí um estádio sem uma torcida organizada cantando. Vai ficar o quê? Um teatro? É difícil, mano. Hoje já está muito complicado para quem vive de torcida organizada. Para manter a torcida... Estão tirando festa, tirando tudo. Tiraram sinalizador, bandeira, faixas, tudo. Já é para reprimir a torcida. Tem o lado ruim que é de briga. Hoje eu particularmente não sou mais a favor de violência porque já tenho minha cabeça formada, tenho minha família, um filho de nove meses, então minha cabeça meio que se transformou. Mas se eu falar que eu não sinto saudade… Eu sinto!

Se pudesse dar um conselho a quem está envolvido com organizada, qual seria?
O que eu posso passar é que compareça sempre ao estádio, apoiando o clube e, na hora de cobrar, tem que cobrar mesmo, porque futebol vive de cobrança. Não vou dizer para parar de brigar porque isso aí é impossível. É igual às drogas, ao tráfico. O cara falar que vai acabar com as drogas... É impossível. O próprio povo ‘lá de cima’ que traz. O que eu posso dizer é fique em paz. Mas se vier… Tem que se defender, né? Digo, legítima defesa. Não vá procurar, mas se vier, se defenda.

Você se arrepende de algo?
Não me arrependo de nada. Posso dizer que foi uma das melhores épocas da minha vida. A gente nessa época não ligava muito para a vida. A gente defendia o nome da torcida de qualquer jeito, até a morte. Não me arrependo, mas não aconselho ninguém a entrar em violência. Aconselho a torcida a gritar, apoiar e fazer festa na arquibancada. Mas nunca mais volto para torcida organizada.

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