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Vidas em movimento Serviço 'secreto' entre polícia e potenciais vítimas de violência doméstica ainda é pouco utilizado 190 Mulher fornece senha para facilitar localização de cadastro prévio de mulher em caso de agressões, mas ainda esbarra na falta de denúncias e nos entraves da Justiça

Publicado em: 01/08/2017 16:50 Atualizado em: 01/08/2017 17:10

Vítima apanhou do marido e passou a temer a vida, quando a mãe dela tomou a iniciativa de buscar o serviço de proteção. Foto: Rafael Martins/DP
Vítima apanhou do marido e passou a temer a vida, quando a mãe dela tomou a iniciativa de buscar o serviço de proteção. Foto: Rafael Martins/DP
 
Entre as violações mais comprometedoras da estabilidade psicológica humana, talvez seja aquela que pulveriza a sensação de segurança dentro de um lar o que tenha consequências mais marcantes. A sensação é multiplicada quando trata-se de agressão por parte de um alguém com o qual se divide um teto. Juliana* mostra as fotos de seu quarto ensanguentado antes de apontar para a própria face quebrada, imortalizada numa tela de celular, espécie de cicatriz sem vida que carrega como prova de sobrevivência ou algum tipo de proteção - do tipo que, numa distância considerável de uma cidade grande, como é o caso de Dormentes, no Sertão do Araripe, praticamente não se sente. 
 
Já tinha apanhado com um capacete, mas entre as inúmeras vezes que o companheiro entrava esgueirado em sua casa, acabou cedendo à volta. A quase deformação do rosto, no primeiro semestre de 2016, no entanto, excedeu qualquer limite. Temia pela vida. A mãe foi quem teve condições de ligar para o 190 Mulher, serviço que cadastra mulheres em situação de vulnerabilidade e cede uma senha para que, em caso de emergência, seus dados sejam localizados de modo rápido o bastante para que o socorro se faça presente. Os dados são armazenados no Centro Integrado de Operações de Defesa Social (Ciods), que cobre todo o estado e onde o serviço não possui profissionais próprios, resgate e segurança ficam a cargo do batalhão da Polícia Militar da área, caso de Dormentes.
Concursada da prefeitura da cidade onde vive, aos 39 anos e com uma filha menor de 18 anos, Juliana recusou convite para uma das quatro casas-abrigo distribuídas no estado. "Não posso parar minha vida por causa de um vagabundo. Mas não acontece nada com eles. A pessoa fica só arriscando a vida", diz a mulher, sobre o fato de, após pagar fiança, o ex-companheiro ter obtido o direito de responder ao processo em liberdade. O processo está em tramitação no fórum de uma cidade vizinha. A casa ganhou proteção nos muros para diminuir a sensação de vulnerabilidade. Juliana vai ao trabalho, a filha à escola. Recusam-se a ficar reféns na própria casa.
 
Com cadastro, dados são localizados de modo rápido para que o socorro se faça presente. Foto: Rafael Martins/DP
Com cadastro, dados são localizados de modo rápido para que o socorro se faça presente. Foto: Rafael Martins/DP
Em Pernambuco, a cada 16 minutos, uma mulher foi vítima de violência doméstica em 2017. Fora isso, quase uma mulher foi morta por dia no estado. Justamente por isso, há investimentos em equipamentos que lidem exclusivamente com a questão. Atualmente, são 10 delegacias especializadas, 10 varas de violência doméstica e familiar, bem como três defensorias voltadas apenas a essas questões, em funcionamento do Litoral ao Sertão pernambucano. A rede de apoio conta ainda com 181 organismos municipais de políticas públicas para mulheres, 37 centros especializados de atendimento à saúde e 13 dedicados a lidar com violência sexual.

"Não quero que minha filha case. Com esse mundo do jeito que está? Matam mulher como se fosse mosquito", lamenta Juliana, remexendo a caixa de papéis que guarda do episódio que mudou sua vida. Separado, está o número do Cidadã Pernambucana, telefone gratuito que oferece informações sobre a rede de atendimento a mulheres vítimas de violência, que funciona pelo 0800.281.8187. 
 


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