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Vidas em movimento Campeão no tatame, estudante de Garanhuns leva lições de mestre do judô ao Canadá Aos 17 anos, Carlos Magno da Silva Donato acumula medalhas e valores conquistados em Garanhuns, no Agreste do estado

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 23/07/2017 14:02 Atualizado em: 24/07/2017 16:31

Carlos Donato não acreditou que o judô poderia levá-lo tão longe e hoje passa um filme em sua cabeça cada vez que sobe no pódio. Foto: Rafael Martins/DP
Carlos Donato não acreditou que o judô poderia levá-lo tão longe e hoje passa um filme em sua cabeça cada vez que sobe no pódio. Foto: Rafael Martins/DP
Prosperidade e crescimento mútuo são as palavras-chave. Aos 17 anos, o atleta pernambucano Carlos Donato repete mentalmente os princípios do judô sempre que está prestes a subir ao tatame - do Agreste pernambucano à província de Quebec, no Canadá. A evolução dele deve contribuir para a evolução do oponente - e vice-versa. Nos últimos seis anos, manteve essa referência ao conquistar títulos em campeonatos estaduais, regionais e nacionais. Foram seis medalhas de ouro e uma de prata no Campeonato Brasileiro Regional, mais dois ouros e dois bronzes no Nacional. Donato, tetracampeão pernambucano de judô, lutou em tatames da Paraíba, do Ceará, de Sergipe, Alagoas e da capital federal, Brasília. Acreditava que o quimono já o havia levado longe demais – quem diria o menino do Agreste pernambucano cruzando tantos estados?, ele pensava - até receber a notícia de que embarcaria para um intercâmbio no Canadá, graças ao judô. A vida de Donato agora é outra, mais próspera do que era um ano atrás.

Nos últimos seis anos, manteve rotina de viagens pelo Brasil e títulos com o esporte. Foto: Rafael Martins/DP (Nos últimos seis anos, manteve rotina de viagens pelo Brasil e títulos com o esporte. Foto: Rafael Martins/DP)
Nos últimos seis anos, manteve rotina de viagens pelo Brasil e títulos com o esporte. Foto: Rafael Martins/DP
“Comecei a lutar em 2011, através de um programa social da Associação Carlos Tevano para pessoas de baixa renda da cidade. Nunca passou pela minha cabeça para onde o judô poderia me levar... Hoje, quando subo no pódio, passa um filme”, conta Donato, que embarcou para o Canadá em agosto de 2016, com o quimono e as expectativas na mochila. Contemplado pelo Programa Ganhe o Mundo Esportivo, que leva jovens da rede estadual de ensino para temporada de estudos em países de língua estrangeira, o rapaz se lembra de ter recebido a notícia com euforia. Os pais, o autônomo José Carlos Donato e a funcionária pública Maria Rejane Donato foram mais serenos: acolheram a novidade com tranquilidade e lhe disseram que aquela era uma das oportunidades da vida que não se deve perder. O menino partiu. Estudou inglês, praticou francês e treinou judô em Quebec, onde se hospedou com família canadense e aprendeu a conviver com o frio de 2ºC.

A evolução como atleta, segundo ele, foi acelerada pela valorização da prática esportiva no país estrangeiro, um dos principais destinos para os quais seguem mais de mil estudantes pernambucanos todos os anos através do Ganhe o Mundo, distribuídos entre países de língua inglesa e castelhana. “Foi uma experiência fantástica, tanto pelo treinamento, como pela convivência em outra sociedade. As pessoas eram extremamente educadas, além de valorizarem demais os esportes”, conta Donato. Idioma, alimentação e condições climáticas foram entraves temporários à adaptação, o verão era mais quente e o inverno, muito mais frio que os de Garanhuns. O processo de amadurecimento, contudo, não ficou restrito à América do Norte: continuou em curso após o retorno para casa, em outubro de 2016.

Treinador Carlos Tevano é referência como atleta e inspiração para a vida pessoal do judoca. Foto: Rafael Martins/DP (Treinador Carlos Tevano é referência como atleta e inspiração para a vida pessoal do judoca. Foto: Rafael Martins/DP)
Treinador Carlos Tevano é referência como atleta e inspiração para a vida pessoal do judoca. Foto: Rafael Martins/DP

“Ele voltou meio de salto alto, querendo mostrar umas técnicas novas que ensinaram por lá… mas logo aprendeu as lições que precisava e se tornou um atleta mais completo”, conta o treinador, o judoca pernambucano Carlos Tevano, de 51 anos. Foi ele quem acolheu Carlos Donato na Associação de Judô, referência no município, mesmo quando o programa social que conduziu o jovem ao judô foi suspenso. Tevano, cujo currículo reúne títulos como atleta e treinador em campeonatos brasileiros e internacionais, acreditava desde o princípio no potencial do rapaz. Foi o principal incentivador do intercâmbio e foi, ainda, quem primeiro lhe ofereceu uma atividade remunerada: hoje, Donato dá aulas na academia para meninos entre 3 e 15 anos de idade.

Donato estuda Educação Física e pretende seguir carreira como atleta e treinador. Foto: Rafael Martins/DP (Donato estuda Educação Física e pretende seguir carreira como atleta e treinador. Foto: Rafael Martins/DP)
Donato estuda Educação Física e pretende seguir carreira como atleta e treinador. Foto: Rafael Martins/DP
Para formar um grande atleta, Tevano sempre repete, é preciso primeiro formar um bom cidadão. “Isso requer investimento financeiro, apoio familiar, apoio público e até sorte. Preciso treinar meus atletas psicologicamente, não basta ensinar as técnicas. Nisso, eu sempre digo aos meninos, qualquer viagem é válida, por menor que seja. Porque cada vez que você viaja, você amadurece, se fortalece, acumula novas experiências. Quanto mais uma bolsa de estudos em outro país...”, explica o instrutor, que treina cerca de 120 alunos na Associação. Tevano ensina judô há mais de três décadas, competiu por 22 anos na seleção pernambucana e participou durante 14 da Liga Nacional, o que poderia explicar a admiração de Carlos Donato pelo mestre. Mas o vínculo vai além dos troféus e dos feitos. “Eu devo tudo a Tevano. Ele me deu a oportunidade de conhecer o judô, me incentivou a persistir, me ensinou tudo. Quando estou mal, ele me coloca para cima, me ouve, me aconselha”, conta o jovem. Foi com o treinador que ele compartilhou todas as inseguranças antes da viagem e todas as conquistas pessoais depois dela. E é ele quem diz que a maior evolução do aprendiz tem sido de caráter pessoal. Há quase um ano, é um rapaz muito mais forte.

Atleta vê o judô como um esporte transformador por ensinar sobre respeito e lealdade. Foto: Rafael Martins/DP (Atleta vê o judô como um esporte transformador por ensinar sobre respeito e lealdade. Foto: Rafael Martins/DP)
Atleta vê o judô como um esporte transformador por ensinar sobre respeito e lealdade. Foto: Rafael Martins/DP
Para o professor, a curiosidade e a disposição para aprender foram os passaportes de Carlos para cruzar países e chegar tão longe, em sentido geográfico e particular. “Foi o fato dele ser curioso que o trouxe aqui. Foi a curiosidade, novamente, que o fez correr atrás do intercâmbio”, avalia o treinador. “Nos últimos anos, ele acertou muito. Errou muito também. Mas soube reconhecer, soube ouvir. Quando você aceita uma crítica, quem mais cresce é você. Hoje você pode ser campeão, amanhã já será outro e isso é bom. Se você acerta tudo, não aprende”, diz. O jovem concorda e se diz orgulhoso dos valores conquistados através do judô, conhecido como “o esporte individual mais coletivo de todos”, já que os golpes se “alimentam” da postura e força do oponente, não somente da aptidão do competidor.

“O judô ensina muito sobre respeito, lealdade, justiça e compaixão. São princípios que deveriam ser seguidos por todo mundo. Imagine como seria o mundo se todo mundo buscasse prosperidade e crescimento mútuo… É um esporte transformador”, conta Donato, que treina todos os dias e segue dieta sazonal para manter a forma física, rotina mantida também no Canadá. Graças à paixão pelo esporte, o rapaz cursa Educação Física em universidade particular de Garanhuns e pretende passar adiante as lições que recebeu do mestre Tevano, seguindo carreira como atleta e treinador. E deixa claras as raízes dos planos: “Sair de casa me fez valorizar ainda mais o que tenho aqui, o pai que Tevano tem sido para mim. Tenho ele como inspiração, quero ser um reflexo de quem ele é, do que me ensinou todos esses anos.” Prosperidade e crescimento mútuo, Donato garante, são o ponto de partida para o futuro que ele sonha em ter.

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