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Vidas em Movimento Atendimento descentralizado a bebês com microcefalia garante evolução dos pacientes no Sertão Recém-inaugurada, UPAE de Ouricuri poupa a população sertaneja de grandes deslocamentos em busca da reabilitação e estimulação precoce dos bebês com tratamentos específicos

Publicado em: 17/07/2017 10:08 Atualizado em: 18/07/2017 11:08

Na Upae, bebês com microcefalia recebem acompanhamento de fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, além de fazerem exames. Foto: Rafael Martins/DP (Na Upae, bebês com microcefalia recebem acompanhamento de fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, além de fazerem exames. Foto: Rafael Martins/DP)
Na Upae, bebês com microcefalia recebem acompanhamento de fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, além de fazerem exames. Foto: Rafael Martins/DP

Com um bebê nos braços e demandas que não podem esperar, a rotina de uma mãe que teria que enfrentar dois, três agendamentos médicos a 270 km de casa passaria longe de fácil. A via-crúcis foi percorrida por alguns meses por Rafaela Maria Coelho Araújo, de 22 anos, a primeira mulher a descobrir ter tido uma criança com microcefalia no município de Araripina, no Sertão do Araripe, a 681 km do Recife. Sem estrutura hospitalar, passou a levar Maria Luiza, hoje com 1 ano e 7 meses, do pequeno distrito de Gergelim às unidades de saúde de Petrolina, no Vale do São Francisco, uma viagem sistemática de 3 horas e meia, que ainda depende da qualidade dos transportes públicos municipais de assistência à saúde. Não é de se estranhar que a agricultora seja uma das entusiastas da Unidade de Pronto Atendimento Especializado (UPAE) recém-inaugurada no município de Ouricuri, uma viagem que passou a ser feita às terças e quintas dentro de 55 minutos, a uma distância de 60 km.

No local, Luiza recebe acompanhamento de fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e é submetida a exames diversos. “Eu tinha medo até de segurar minha filha para tomar vacina. Hoje, já levo a vida normalmente. O que vier eu encaro”, conta Rafaela, sempre acompanhada de outras mães de Araripina que também “migram” regularmente à cidade em busca do estímulo necessário das crianças afetadas pelo surto de microcefalia que atingiu Pernambuco entre 2015 e 2016 – associado ao zika vírus, que compromete o desenvolvimento total do tamanho do cérebro dos bebês ainda em formação nos úteros.

Rafaela Maria, Camila e Maria do Socorro passaram a fazer deslocamentos menores de Araripina e Ouricuri para seguir o tratamento de seus filhos. Foto: Rafael Martins/DP (Rafaela Maria, Camila e Maria do Socorro passaram a fazer deslocamentos menores de Araripina e Ouricuri para seguir o tratamento de seus filhos. Foto: Rafael Martins/DP)
Rafaela Maria, Camila e Maria do Socorro passaram a fazer deslocamentos menores de Araripina e Ouricuri para seguir o tratamento de seus filhos. Foto: Rafael Martins/DP
Com atendimento ao público iniciado apenas em maio de 2017, a UPAE de Ouricuri tem capacidade para atender bem mais do que os 12 casos que vem acompanhando. “Lidamos com 17 casos no Sertão do Araripe, mas nem todos vêm ser acompanhados por uma questão social, que tentamos contornar. Mas hoje, o atendimento (realizado das 8h às 17h) pode ser no mínimo dobrado”, garante o diretor Paulo Campelo. Do total de 110 notificações realizadas na região, a maioria dos casos acabou descartada e há outros 16 ainda em investigação.

O diretor médico Damião Coimbra afirma que a demora de iniciar o acompanhamento significa retardar o resultado. Foto: Rafael Martins/DP (O diretor médico Damião Coimbra afirma que a demora de iniciar o acompanhamento significa retardar o resultado. Foto: Rafael Martins/DP)
O diretor médico Damião Coimbra afirma que a demora de iniciar o acompanhamento significa retardar o resultado. Foto: Rafael Martins/DP
No caso específico de microcefalia, a descentralização se apresenta como uma maneira de tentar garantir a evolução sistemática dos pacientes, considerando o objetivo de reabilitação e estimulação precoce. A partir de 2013, outras nove unidades do tipo passaram a trabalhar com especialidades médicas e não médicas em todo o interior do estado. “Na prática, aumenta a responsabilidade dos pais quanto à criança, uma vez que a demora de iniciar o acompanhamento significa retardar também o resultado. A consequência do tratamento, você vê mais no rosto das mães que nas crianças. Elas é que percebem as pequenas diferenças”, explica o diretor médico, Damião Coimbra.

Camila Alves, 29, e Maria do Socorro Nobre, 23, entendem bem que responsabilidade é essa. Mães de Maria Ester, 1 ano e 5 meses, e Eriel Nobre Alencar, de 1 ano e 7 meses, elas completam o grupo de Araripina que cobram do poder público melhoria do atendimento e presença de médicos especialistas para seus rebentos, ambos com microcefalia. O pedido agora é por ortopedista mais próximo. Tudo pensando na abordagem holística de suas crianças.

A descoberta que Eriel enxergava bem foi o momento mais marcante para a mãe Socorro. Foto: Rafael Martins/DP (A descoberta que Eriel enxergava bem foi o momento mais marcante para a mãe Socorro. Foto: Rafael Martins/DP)
A descoberta que Eriel enxergava bem foi o momento mais marcante para a mãe Socorro. Foto: Rafael Martins/DP
“O momento mais marcante, pra mim, foi quando o médico disse que Eriel estava enxergando bem. O primeiro neurologista disse que ele passaria a vida acamado. Agora ele se mexe, escuta, olha para todo canto, fica bastante apoiado, com o pescoço em pé. Tudo é uma vitória”, conta Socorro. “Quando a zika manchou minha barriga e ouvi na televisão, já senti. Comecei a chorar. Mas foi Deus que quis assim. Perdi duas gravidezes. Aos dois meses, abortava. Com Ester, levei a queda de uma moto e não a perdi. Ela é especial”, destaca Camila.

Diferentemente das mães de primeira viagem, Rafaela, de um pioneirismo que qualquer mãe dispensaria ostentar, vai seguindo no trio, sempre duas vezes por semana, de Araripina a Ouricuri. Se preocupa com a filha mais velha, de cinco anos, e repete o que muitos pais se acostumaram a admitir: “Não estava tendo tanto tempo para a outra. Acaba que o amor com uma criança especial você acaba vendo que fica até maior, por causa do cuidado. Já pensei que não era capaz, mas sei que dou meu melhor a ela”. E elas vão seguindo assim – visão e corações maiores que quaisquer desafios.

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