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Vidas em Movimento Da mata pernambucana ao berço hispânico: o menino que abraçou a Espanha Estudante, Luis Gustavo, de Itambé, na Mata Norte, é um dos maiores defensores do estudo da língua espanhola frente à inglesa, após experiência de intercâmbio pela rede pública de ensino

Publicado em: 11/07/2017 10:04 Atualizado em: 11/07/2017 16:02

Luís Gustavo cruzou o oceano rumo à Espanha. Antes disso, a maior viagem tinha sido ao Recife, distante pouco mais de 87 Km de Itambé. Foto: Rafael Martins/DP
Luís Gustavo cruzou o oceano rumo à Espanha. Antes disso, a maior viagem tinha sido ao Recife, distante pouco mais de 87 Km de Itambé. Foto: Rafael Martins/DP

Da pequena Itambé, na Mata Norte de Pernambuco, Luís Gustavo Moreira Abreu, em seus 16 anos de vida, tinha ido no máximo à capital, Recife, ou a João Pessoa, na Paraíba. Enquanto organizava as malas antes de cruzar um oceano pela primeira vez, foi paralisado por uma crise de nervosismo forte e precisou ser “acudido” pela avó – já ocupada em disfarçar a própria preocupação. O menino nascido em Timbaúba passou meses frequentando normalmente as aulas no 3° ano do Ensino Médio e foi na véspera da viagem a Jerez de La Fronteira, na Espanha, que a noção de distância entre Pernambuco e o destino final se fez.

Era setembro de 2016 e ele trocaria a Escola de Referência em Ensino Médio Frei Orlando pela Europa, num intercâmbio promovido pelo Programa Ganhe o Mundo, que leva mais de mil alunos da rede pública de ensino ao exterior todos os anos. Seria o primeiro carimbo em seu passaporte. “Nunca havia imaginado cruzar o oceano. Entrei em desespero no dia anterior e pensei em desistir. Só não fiz isso porque me preocupava com o que os outros iriam dizer de mim, aqueles que envolvi no processo seletivo, meus avós, minha mãe, os professores, colegas…”, lembra o garoto.

O garoto ficou inseguro quando o embarque se aproximava, mas voltou da experiência mais maduro, segundo atesta Vânia Batista Barros, coordenadora da escola. Foto: Rafael Martins/DP
O garoto ficou inseguro quando o embarque se aproximava, mas voltou da experiência mais maduro, segundo atesta Vânia Batista Barros, coordenadora da escola. Foto: Rafael Martins/DP
A troca acabou nem sendo tão traumática assim. Acostumando, desde que nasceu, aos cuidados dos avós -  os professores aposentados Deusdete Moreira da Silva, 78, e Ana Lúcia da Silva Moreira, 62 -, Luis foi acolhido por sexagenários espanhóis: Josefa Cortes, 60, e Antonio Dominguez, 62. Junto à buldogue francês da família, Nana, o trio desbravou cidades e vilarejos do país durante o outono, cenário ideal para que o estudante fosse observando semelhanças e diferenças com a cultura da terra natal. “Cheguei no fim do verão e me impressionava o fato do sol se pôr somente às dez da noite. A única coisa que me deixou mais fascinado que isso foi o idioma espanhol, com o qual sempre tive afinidade”, conta. 

Hoje fluente em conversação na língua hispânica, usa a experiência no Velho Continente para estimular o percurso de outros alunos da escola, hoje com 405 estudantes. “Existe um certo preconceito no interior do estado em relação ao espanhol. As pessoas acham que só vale a pena o intercâmbio para aprender inglês, o que não é verdade. A língua e cultura espanholas são riquíssimas”.

Antes da viagem, Luís ficou paralisado pela insegurança de se afastar da avó, Ana Lúcia (esquerda), e da mãe, Ana Carlota (direita). Foto: Rafael Martins/DP
Antes da viagem, Luís ficou paralisado pela insegurança de se afastar da avó, Ana Lúcia (esquerda), e da mãe, Ana Carlota (direita). Foto: Rafael Martins/DP
O centro de ensino de Itambé teve outros alunos contemplados pelo programa, a exemplo de Sabrina da Silva Lima e Fernando do Nascimento Santos, ambos de 17 anos e com incursão no Canadá. “Os ganhos vão muito além do idioma. Voltamos transformados, com nova visão de sociedade”, conta Fernando, que agora estuda para o vestibular em psicologia. Sabrina, que planeja cursar engenharia elétrica, diz que a experiência no exterior foi de autoconhecimento: “Falei com minha família quatro vezes durante cinco meses de viagem. Queria saber quem eu era caso ninguém me conhecesse e voltei mais segura, corajosa, mais eu mesma”, relata.

“Os meninos voltam mais maduros e a diferença no rendimento escolar é perceptível. Eles saem de uma cidade pequena e descobrem a real dimensão do mundo”, conta a coordenadora pedagógica Vânia Batista Barros. Segundo ela, as oportunidades geradas pelo programa estadual têm provocado uma migração de alunos da rede particular de ensino em Itambé para a escola pública, de onde apenas em 2017, 15 estudantes viajarão para o exterior. No estado, serão 1.050, dos 184 municípios, para os três destinos estrangeiros, que incluem também a Nova Zelândia.

Sabrina da Silva Lima e Fernando do Nascimento Santos, ambos de 17 anos, fizeram intercâmbio no Canadá. Foto: Rafael Martins/DP
Sabrina da Silva Lima e Fernando do Nascimento Santos, ambos de 17 anos, fizeram intercâmbio no Canadá. Foto: Rafael Martins/DP
Seja qual for o país, há uma aflição recorrente de alunos e familiares com a distância e de como os jovens cidadãos se comportarão, sozinhos, em outra extremidade do mundo – sensação normalmente só diluída com a conclusão da experiência. “Fiquei feliz quando soube da aprovação dele no programa, pois era o que ele mais queria, só falava nisso… mas, durante os cinco meses, chorei todos os dias. Na volta, mandei pintar uma faixa e organizei uma comitiva de familiares para esperá-lo no aeroporto, no Recife”, conta a avó de Luís, Ana Lúcia, que vive com ele e outros dois de seus irmãos, José Guilherme, 12, e João Gabriel, 9.

Para quem “o mundo” acolhe, as idas e vindas são sempre grandes acontecimentos – e antecedem mudanças ainda maiores e significativas. “Quando me dei conta que deixaria meus pais espanhóis, abracei minha mãe Josefa enquanto preparávamos o jantar e comecei a chorar”, lembra o jovem. “Chorei para ir e chorei para voltar”, ele ri. Hoje, o garoto que pretende cursar direito ou história coleciona questionamentos. Muitos deles bem diferentes dos que fazia antes da viagem ou, mais além, quando estava prestes a voltar. Vai deixar Itambé? Vai retornar a ver os pais acolhedores, com quem fala por telefone ou internet toda semana? Vai voltar à Europa? Pensamentos comuns em quem percebe um tamanho de mundo sequer imaginado. “Se eu não tivesse ido, teria um arrependimento sem remédio. A gente cresce quando percebe que tem que se virar sem mãe, pai, avó. E isso tem consequências para a vida toda”.


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