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Vidas em Movimento Centro de triagem muda cotidiano de trabalho de catadores em Barreiros Instalação de unidades de triagem e recicladoras, implantação de coleta seletiva e capacitação de catadores dinamizaram trabalho em 11 municípios da Zona da Mata

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 05/07/2017 14:02 Atualizado em: 07/07/2017 18:27

Antes de se integrar à cooperativa de coleta, João Bosco trabalhava mais de 15 horas por dia cortando cana. Foto: Rafael Martins/DP
Antes de se integrar à cooperativa de coleta, João Bosco trabalhava mais de 15 horas por dia cortando cana. Foto: Rafael Martins/DP

Há alguns anos, catadores de lixo do município de Barreiros, na Mata Sul pernambucana, trabalhavam em completa informalidade: construíam barracos nos arredores dos lixões, onde recolhiam papelão, metal e derivados de plástico durante as primeiras horas da manhã, vários deles desperdiçando o restante do dia com o consumo desenfreado de bebida alcoólica. Em situação precária, alguns chegavam a se afastar da coleta por até duas semanas, enfraquecidos pelo vício. A situação mudou drasticamente em 2016, quando foi inaugurado o centro de triagem da região, onde os catadores têm horários fixos para a coleta de lixo e precisam custear o abastecimento de água e eletricidade do galpão. As responsabilidades puseram freio nos vícios, beneficiando a saúde dos catadores e a economia da região.

“Ainda sobra tempo para fazer 'bicos' entre uma coleta e outra. Cada um tem uma carroça e cobre uma área diferente da cidade, mas todo mundo se ajuda na arrecadação. Com o lucro, temos de pagar o óleo da prensa e as contas de água e luz”, explica João Bosco Santiago, 45 anos, catador há três. Crescido entre os canaviais da Zona da Mata do estado, João viu na função de catador a chance de trazer certo alívio à rotina: antes de se integrar à cooperativa de coleta, trabalhava mais de 15 horas por dia cortando cana. “Saía de casa às 3h da madrugada, voltava depois das 21h. Era um trabalho muito duro, não sobrava tempo, nem condição de fazer mais nada”, lembra João, um dos oito catadores ativos entre os cadastrados no centro de triagem. Para quitar os débitos fixos, ele e os colegas coletam e prensam cerca 300 Kg de papelão por dia – cada quilo vendido sai a R$ 0,17. 

Os irmãos Josemir e Izaquiel, junto com João, reforçam a ideia que na cooperativa todos se ajudam na arrecadaçã. Foto: Rafael Martins/DP
Os irmãos Josemir e Izaquiel, junto com João, reforçam a ideia que na cooperativa todos se ajudam na arrecadaçã. Foto: Rafael Martins/DP

O trabalho em equipe e os compromissos fixos têm reduzido a insalubridade da rotina, ainda pesada. “O que mais tem na rua é papelão, é o que mais catamos. A dificuldade ainda é tirar o sustento todo do lixo, não dá, não temos nenhuma bolsa para ajudar… mas tem o galpão, as carroças, a gente se ajuda”, conta Josemir Guedes da Silva, 37, que cata lixo desde a infância junto com o irmão, Izaquiel Guedes da Silva, 30. Jamais trabalharam com outra coisa. Em 2014, quando o lixão da cidade foi fechado, primeiro passo para a formalização da coleta em Barreiros, Josemir e Izaquiel não souberam o que fazer: a decisão parecia dar cabo da única atividade remunerada que eles dominavam. 

Era uma fase de transição. Os irmãos e outras dez famílias de catadores tiveram suporte do poder público enquanto era articulado o programa Recicla-PE, implementado em 11 municípios do estado e dedicado a melhorar a gestão de resíduos sólidos em Pernambuco. Os catadores barreirenses receberam cestas básicas e auxílio financeiro enquanto participavam, até o fim de 2015, de processo de capacitação. “A questão da bebida alcoólica, das responsabilidades, dos horários, além da coleta em si foram alguns tópicos melhorados durante o curso”, explica o artesão e professor Egnaldo José Alves da Silva, 50, conhecido como Bili, primeiro a assumir a presidência do centro de triagem. 

Ex-presidente Bili garante que a assiduidade dos catadores aumentou, os problemas com a bebida diminuíram e o desarranjo dos resíduos da cidade foi contido. Foto: Rafael Martins/DP
Ex-presidente Bili garante que a assiduidade dos catadores aumentou, os problemas com a bebida diminuíram e o desarranjo dos resíduos da cidade foi contido. Foto: Rafael Martins/DP
Bili foi peça-chave na forma como os catadores encararam as mudanças: serviu de conselheiro, capitão do barco, gestor. “Além do investimento do estado na construção do galpão, que ficou em torno de R$ 1 milhão, foi preciso investir cerca de R$ 2 mil para colocar a prensa para funcionar. A manutenção, entre contas fixas e ajustes, ficou a cargo dos catadores”, explica ele, que pôs a prensa em atividade com recursos próprios. Hoje, acompanhando a coleta em Barreiros como conselheiro fiscal voluntário, reconhece as melhorias: a assiduidade dos catadores aumentou, os problemas com a bebida diminuíram e o desarranjo dos resíduos da cidade foi contido. O quadro se repete em outras dez cidades, onde unidades recicladoras foram instaladas e reproduzem dinâmicas de trabalho semelhantes, como Tamandaré, Gameleira, Rio Formoso e Amaraji. 

“Além da nossa coleta, o caminhão da prefeitura limpa as ruas e tira quase todo o lixo”, explica Josemir Guedes. Apesar de reconhecer os benefícios da coleta seletiva pública para a gestão de dejetos, ele confessa que preferiria ter maiores quantidades de lixo para garimpar – o que representaria maior faturamento para os catadores. A única proporção possível, contudo, espanta: são oito catadores ativos no centro de triagem e mais 40 mil habitantes em Barreiros, segundo estimativas do IBGE. Hoje, cada um deles coleta, em média, uma tonelada de lixo por mês, faturando entre R$ 200 e R$ 600. “Alguns guerreiros chegam a coletar cinco toneladas, fazendo acordo com supermercados e recebendo o descarte diretamente dos comerciantes”, conta Bili. 

No centro de triagem da cidade, os catadores têm horários fixos para a coleta de lixo e precisam custear o abastecimento de água e eletricidade. Foto: Rafael Martins/DP
No centro de triagem da cidade, os catadores têm horários fixos para a coleta de lixo e precisam custear o abastecimento de água e eletricidade. Foto: Rafael Martins/DP
Para o futuro, a fim de aumentar os esforços, mas também as recompensas, os catadores esperam selar acordo junto ao poder público e estabelecer cotas mensais de coleta. Querem receber, além do faturamento normal, recompensas por metas atingidas, o que os liberaria da necessidade de “bicos” extras. “Seria uma forma de estimulá-los a conservar o projeto”, assegura Bili. Como ganho permanente, se orgulham há pouco mais de um ano da rede de cooperação articulada em torno do galpão de triagem e do dia a dia de coleta, menos insalubre fora dos grandes lixões. 

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