• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Vidas em Movimento Como um garoto prodígio da matemática virou inspiração em Quixaba, no Sertão Premiado sete vezes na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, o pernambucano João Lucas Gambarra é referência para estudantes de cidade em que a matemática alimenta sonhos

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 02/07/2017 14:00 Atualizado em: 03/07/2017 12:33

João Lucas ganhou intimidade com os números na infância, apostando memorizar placas de carro em troca de sorvete. Foto: Rafael Martins/DP
João Lucas ganhou intimidade com os números na infância, apostando memorizar placas de carro em troca de sorvete. Foto: Rafael Martins/DP

O pernambucano João Lucas Lopes Gambarra, de 22 anos, não tem sossego nos corredores da Escola Estadual Tomé Francisco da Silva, em Lagoa da Cruz, distrito de Quixaba, no Sertão de Pernambuco. Ganhou sete medalhas nas sete vezes em que participou da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e, com as premiações, veio a fama entre os moradores da região. Nascido em Serra Talhada, a 75 km de Quixaba, João concilia o estudo universitário com visitas à família e à escola sempre que pode. É quando os meninos mais novos lhe procuram pedindo conselhos, mostrando cadernos, repercutindo provas. João é uma espécie de ídolo: “Se eu consegui as medalhas, eles sabem que podem conseguir também”, resume.

Não fosse o incentivo dos professores na escola estadual, hoje reconhecida nacionalmente como referência no ensino de matemática, com professores e alunos premiados por seu desempenho, a história seria outra. Com 1,94m de altura e um perfil afiado para a competição, João Lucas poderia ser um bom jogador de vôlei ou basquete. Mas ele consegue, sem dificuldade, apontar o momento em que os clichês caíram por terra: encorajado na sala de aula, competiu pela primeira vez na Obmep em 2005, quando recebeu uma medalha de prata - e decidiu, assim que pendurou o “troféu” no pescoço, que repetiria a disputa em busca de um ouro. Dali em diante, foram cinco ouros (2006, 2007, 2008, 2010 e 2011) e um bronze (2009) para a estante de casa - onde era incentivado a “crescer na vida” pelos pais, a advogada Lucineide Gambarra e o sindicalista e professor Lourival Gambarra. Se os planos vingarem, os próximos anos serão dedicados a obter os títulos de mestre e doutor.

Certificados das conquistas da escola ficam exibidos na parede da instituição. Foto: Rafael Martins/DP
Certificados das conquistas da escola ficam exibidos na parede da instituição. Foto: Rafael Martins/DP
“A matemática é como um cachorro: amável com quem faz carinho nela. Há quem diga que também é um cachorro por rosnar para quem olha feio, mas cão que ladra não morde”, brinca João Lucas, que ganhou intimidade com os números na infância, apostando memorizar placas de carro em troca de sorvete. Ele é a prova de como bons frutos são colhidos a partir da desmistificação da ciência exata: todos os anos, todos os alunos matriculados na Escola Estadual Tomé Francisco da Silva se inscrevem na Obmep. E todos os anos há premiados. A escola está, hoje, entre as 20 instituições públicas mais bem posicionadas do estado no Enem e tem nota 6,5 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Para se ter uma ideia, a meta do Ministério da Educação é que a média nacional atinja 6,0 até 2022 – número ultrapassado pela Tomé Francisco, cinco anos antes do prazo.

“Exemplos como o de João Lucas são importantíssimos para mostrar aos meninos que eles são capazes. Temos aprovados em medicina, engenharia mecânica, engenharia elétrica... É resultado de um trabalho focado de nossa parte e comprometimento da parte deles”, avalia a professora Maria do Bom Conselho Freitas, 41 anos, que deu aula a João durante oito anos. Ela está entre os três professores da escola premiados na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas de 2016 pela relevância dos resultados nos últimos 12 anos do exame. A Tomé Francisco recebeu troféu pela trajetória de destaque e teve 32 estudantes premiados na última edição do concurso.

Escola Estadual Tomé Francisco da Silva está entre as 20 instituições públicas mais bem posicionadas do estado no Enem. Foto: Rafael Martins/DP
Escola Estadual Tomé Francisco da Silva está entre as 20 instituições públicas mais bem posicionadas do estado no Enem. Foto: Rafael Martins/DP
Acertar nas contas virou tradição na cidade. “Costumo incentivar a galera mais nova, o que é uma responsabilidade bem pesada, mas divertida”, diz João Lucas, que frequentou a escola estadual do 1º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. Questões de provas extraídas de olimpíadas e concursos de anos anteriores, aulas de reforço extraclasse e grupos de estudo dirigido seriam alguns ingredientes da receita bem-sucedida no Sertão Pernambucano. “Tentamos ensinar desde cedo, de forma dinâmica, desconstruindo o medo que existe em torno da matemática. Usamos jogos, brincadeiras, desafios. Isso vai além da Olimpíada, é uma estrutura que se forma para a vida deles, que pode abrir portas na fase adulta, garantir o acesso à graduação, ajudar na carreira que escolherem”, diz a professora Iranete Andrade, 32, que leciona matemática e física do 6º ano do Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. Ela também foi premiada em 2016.

Para João Lucas, menino prodígio do Sertão pernambucano, a metodologia que lhe garantiu os louros na matemática fez tanta diferença que influenciou uma mudança recente de vida: no oitavo período de engenharia mecânica, trocou o curso pela licenciatura em matemática, na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. “Quero ser professor. Minha principal ideia para Quixaba é desenvolver um projeto olímpico, despertar o interesse do pessoal e expandir a 'cultura olímpica' existente. É preciso que os alunos se dediquem não só à Obmep, mas à Olimpíada Nacional em História do Brasil, Olimpíada Brasileira de Astronomia, pela Olimpíada Brasileira de Química, Olimpíada Brasileira de Física, Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro...”, planeja o rapaz.

Essa história daria um livro
Gestor Ivan José Nunes Francisco vai transformar a história da escola em livro. Foto: Rafael Martins/DP
Gestor Ivan José Nunes Francisco vai transformar a história da escola em livro. Foto: Rafael Martins/DP
Os últimos 12 anos de conquistas matemáticas foram tão significativos para a história da Escola Estadual Tomé Francisco, em Lagoa da Cruz, que serão transformados em livro pelo gestor do centro de ensino, Ivan José Nunes Francisco, 52 anos. À frente da escola há 19 anos, ele vai assinar duas publicações em parceria com a esposa, Josilene Nunes: uma coletânea de textos dos alunos premiados em competições de língua portuguesa e redação e uma autobiografia cruzada com a trajetória recente do centro de ensino.

“Os resultados são frutos de uma proposta pedagógica. Aqui, nós não temos aversão à matemática. Passamos isso aos alunos, que vão se apaixonando pela disciplina e se engajam com o projeto, se inscrevem nas olimpíadas, depois se tornam engenheiros, professores, médicos...”, conta Ivan. O primeiro livro já tem título – Aluno autor: escrita premiada – e está em fase de revisão. “É uma forma de estimulá-los, além de registrar a história de êxitos da escola”, avalia o gestor, que recebeu prêmios de referência em gestão escolar (oferecido pelo Conselho Nacional dos Secretários de Educação, o Consed) em 2009, quando foi vice-campeão, e em 2012, quando alcançou o primeiro lugar nacional.

Yan Guilherme já foi medalhista de prata em 2014 e 2016 e fica orgulhoso de dar seguimento à tradição iniciada por João Lucas. Foto: Rafael Martins/DP
Yan Guilherme já foi medalhista de prata em 2014 e 2016 e fica orgulhoso de dar seguimento à tradição iniciada por João Lucas. Foto: Rafael Martins/DP
Para Ivan Nunes, ver casos como o de João Lucas se repetirem é o principal “troféu”. Nos últimos anos, os alunos do Ensino Médio Leandro Ferreira da Luz e Yan Guilherme de Souza, ambos com 16 anos, têm se destacado na aquisição de novas medalhas para o centro de ensino. Yan, medalhista de prata em 2014 e 2016, fica orgulhoso de dar seguimento à tradição: “João Lucas é um exemplo. Quando ele demora a visitar a escola e eu sei que está na cidade, vou bater na casa dele. Levo meu caderno, ele tira dúvidas, eu 'aperreio' mesmo”, brinca o menino, que cursa o 1º ano do Ensino Médio e sonha em cursar engenharia. “Não existe uma turma que se destaque mais. Todos se  empenham em participar, e muitos voltam com ouro, prata, bronze, menção honrosa… virou tradição nossa”, comemora o gestor.



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.