carteira de trabalho De cada 10 brasileiros, apenas três têm emprego com carteira assinada

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 07/03/2019 08:10 Atualizado em:

Gizelia Araújo nunca teve oportunidade de ter carteira assinada, apesar de ter trabalhado como professora. Há 18 anos, vende acarajé em feiras. Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
Gizelia Araújo nunca teve oportunidade de ter carteira assinada, apesar de ter trabalhado como professora. Há 18 anos, vende acarajé em feiras. Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
O mercado de trabalho dificulta cada vez mais a formalização. Com a lenta retomada econômica e alta carga tributária, os empresários do país e os próprios trabalhadores procuram formas alternativas de emprego. Da força de trabalho total do Brasil de 105,2 milhões de pessoas, apenas 35,9 milhões têm carteira de trabalho assinada, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostra ainda que o número aumentou. No trimestre encerrado em janeiro de 2019, em comparação com o mesmo período de 2017, a quantidade de empregados sem carteira de trabalho subiu 2,9%, adicional de 320 mil pessoas no mercado informal.

Segundo o professor de administração pública da Universidade de Brasília (UnB) Francisco Antônio Coelho, o movimento de migração do mercado formal para o informal é uma tendência que deve aumentar nos próximos anos. Uma das causas é a própria necessidade do ser humano de sobreviver. “Há uma falta de oportunidades de emprego em geral. As pessoas procuram por trabalho dentro das possibilidades que aparecem”, explicou.

Coelho também ressaltou que a legislação trabalhista brasileira é antiga e, por isso, tem excesso de burocracias e regras que não convém aos empresários de hoje. A expressiva carga tributária brasileira também é uma justificativa apresentada pelo professor para o aumento na área informal. “Os empregadores não estão satisfeitos com a atual legislação trabalhista, e a economia informal surge como uma opção. Ela abrange de tudo”, analisou.

Para Grasiele Santos, 36 anos, foi uma alternativa para ganhar mais. Há sete anos, ela decidiu largar o emprego para montar o próprio negócio no ramo de venda de vestuário, inserida no mercado informal. “Antes eu trabalhava como recepcionista e secretária e ganhava muito pouco. Resolvi trabalhar por conta própria para ganhar mais dinheiro. Deu certo”, contou.

A recente crise econômica que assolou o país e a lenta retomada da produtividade também são fatores que contribuem para a evasão de trabalhadores do meio formal. Para o pesquisador em economia da Unicamp Felipe Queiroz, o movimento mundial não é de expansão. “A gente passa por um momento em que a crise econômica é global, com guerras comerciais entre duas grandes potências (China e Estados Unidos) e altas taxas de juros nos EUA”, indicou. Para completar, Queiroz reforçou que a reforma trabalhista aprovada durante o governo Temer ajudou no “processo de precarização do trabalho e da informalidade”.

Os fatos apontados pelos especialistas influenciaram diretamente na vida de Gizelia Araújo, 44, que nunca teve a oportunidade de trabalhar com carteira assinada. Há 18 anos, ela vende acarajé em feiras. “Antes daqui, trabalhei como doméstica e como professora, mas nunca com carteira assinada”, compartilhou. Gizelia disse que não tem esperanças de trabalhar no mercado formal. Além disso, a vendedora lamenta saber que o sonho de se aposentar pode não ser real.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.