investimento Taxa de investimentos aumenta, mas está longe de impulsionar a economia

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 01/03/2019 07:50 Atualizado em:

Linha de montagem de motocicletas em Manaus: indústria opera com capacidade ociosa e precisa de modernização. Foto: José Paulo Lacerda/Divulgação - 17/4/15
Linha de montagem de motocicletas em Manaus: indústria opera com capacidade ociosa e precisa de modernização. Foto: José Paulo Lacerda/Divulgação - 17/4/15
Apesar de ter registrado alta de 4,1% no ano passado, o nível de investimentos na economia não chegou a animar os especialistas. Primeiro, porque essa expansão ficou longe de recuperar a queda brutal de quase 30% ocorrida nos últimos anos. Em segundo lugar, a taxa de investimentos, de 15,8% do PIB, é considerada muito baixa para puxar o crescimento econômico em 2019. Além disso, o dado, divulgado nesta quinta-feira (25/2) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi inflado artificialmente no terceiro trimestre de 2018 por mudanças no Repetro, regime fiscal especial do setor de óleo e gás. Tanto que, na comparação do quarto trimestre com o anterior, o indicador registrou queda de 2,5%.

O aumento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), nome técnico usado para designar o investimento produtivo, foi impulsionado pelo crescimento da importação e da produção interna de bens de capital. Isso compensou o desempenho negativo da construção, cujo peso é de 47% na FBCF e teve queda de 3,4%. Máquinas e equipamentos registraram alta de 15,4%, com participação de 38%. Outros setores também contribuíram, com alta de 4,7% e impacto de 14%.

O gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, ressaltou que os últimos anos foram de baixo investimento, por isso a recuperação é bastante modesta. “O ritmo de investimento está muito aquém do necessário para recompor os níveis anteriores à crise”, alertou. Em 2013, a taxa de investimento ultrapassava 20% do PIB e, em 2017, despencou para 15% (veja gráfico).

Castelo Branco explicou que houve uma pequena melhora no setor de máquinas e equipamentos, apesar de a indústria ainda operar com capacidade ociosa, porque as empresas precisam de atualização tecnológica. “Há produtos de alta obsolescência. Além disso, o investimento é também uma forma de melhorar a eficiência e reduzir custos para manter competitividade”, acrescentou.

O comportamento do último trimestre de 2018, de queda da FBCF, aponta para incerteza e falta de confiança, segundo o gerente da CNI. “Foi um período dominado pelo efeito eleição, de embate entre duas visões muito distintas.” A expectativa de Castelo Branco, contudo, é de uma reversão já em 2019, com os investimentos voltando a subir. “Isso, porém, está condicionado a avanços efetivos, como a reforma da Previdência”, acrescentou.

Fraqueza
Para Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, a alta de 4,1% não representa recuperação efetiva. “A taxa de 15,8% do PIB mostra fraqueza, o que reduz a capacidade de crescimento da economia. Tanto que revisamos a estimativa de alta do PIB em 2019 de 2,5% para 2,1%”, disse. A queda na margem também é um sinal ruim, conforme Rosa. “Há um quadro de indefinição diante das reformas e isso está segurando os investimentos. Mesmo que o governo avance em concessões e privatizações, elas só trarão resultados no segundo semestre”, estimou.

Embora não tenha revisado sua previsão para o PIB deste ano, o economista-chefe da Opus Investimento, José Márcio Camargo, disse que isso poderá ocorrer, dependendo do andamento da reforma da Previdência. “Ainda é cedo. Nossa estimativa permanece de um crescimento próximo de 4%. Mas o investimento será o mais afetado, se a reforma não passar”, explicou. Segundo Camargo, o que dá previsibilidade de solvência do Estado é o teto dos gastos, que só é sustentável com a reforma. “Se a Previdência não mudar, a relação dívida/PIB continuará crescente, o que gera insolvência. Por isso, o comportamento dos investimentos só ficará claro após o desenrolar das mudanças no sistema previdenciário”, reiterou.

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes, alertou que a alta da FBCF tem um componente da mudança do Repetro. “O investimento alocado em plataformas de petróleo fora do país passou a ser registrado aqui dentro, o que inflou artificialmente o dado. Tanto que a queda no último trimestre do ano ocorreu, em boa parte, porque a base comparativa do terceiro trimestre, de alta de 5,5%, foi artificial”, explicou. Bentes disse, ainda, que a taxa de investimento precisa chegar a 25% do PIB para o crescimento deslanchar.

Como o investimento foi inflado em função da mudança nas regras do Repetro, alguns especialistas estimam que, na realidade, a expansão da FBCF foi bem menor. Pelas contas de José Ronaldo de Souza Jr., diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e de Sílvia Matos, pesquisadora sênior do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a alta real foi de 2%. “Desde o início da retomada, após 14 meses de recessão, o investimento cresceu 6,1%, mas, se descontarmos as plataformas, na verdade, ficou em torno de 4%, o que explica o baixo desempenho do PIB”, sintetizou Sílvia.


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