Banco Central Futuro presidente do BC, Roberto Campos Neto defende mais concorrência

Por: Hamilton Ferrari - Correio Braziliense

Publicado em: 27/02/2019 08:54 Atualizado em:

Segundo o futuro presidente da autoridade monetária, projetos para reduzir juros serão enviados ao Congresso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Segundo o futuro presidente da autoridade monetária, projetos para reduzir juros serão enviados ao Congresso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Aprovado para assumir o Banco Central (BC) no lugar de Ilan Goldfajn, o economista Roberto Campos Neto reconheceu que o setor financeiro é concentrado em poucos bancos. Apesar disso, minimizou os lucros das instituições financeiras e disse que há competição, mas que é preciso aumentar a concorrência através da modernização do mercado. O plenário do Senado Federal deu o aval para o economista ocupar o cargo máximo da autoridade monetária por 55 votos favoráveis e seis contra.

Antes da decisão do plenário, Campos Neto foi sabatinado por mais de quatro horas na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), na qual recebeu 26 votos favoráveis e nenhum contra. Na CAE, ele destacou que pretende dar continuidade à política monetária que vem sendo adotada desde meados de 2016 pela gestão de Goldfajn. Segundo ele, a autonomia do Banco Central também é fundamental para manter os juros em patamares mais baixos no futuro. Um projeto de lei já tramita na Câmara sobre o tema.

Questionado sobre o que pretende fazer para reduzir os juros cobrados no país, em especial os do rotativo do cartão de crédito, que atingem quase 300% ao ano, o economista afirmou que o spread bancário — a diferença entre a taxa pela qual as instituições financeiras captam dinheiro e os juros que cobram ao realizar empréstimos — é composto por quatro fatores. “Basicamente, 35% é inadimplência; 25%, custo financeiro; 25%, imposto e 15%, lucro”, afirmou. “Quando olhamos outro países, o componente lucro é razoavelmente maior do que no Brasil, então grande parte do spread bancário não reflete lucro, mas, sim, outros custos”, afirmou.

Campos Neto ressaltou que é preciso diminuir o impacto dos diversos fatores que encarecem o custo do dinheiro para reduzir os juros. Uma das opções, segundo ele, é a aprovação da lei do Cadastro Positivo, que passou pela Câmara e está no Senado. Ele também defendeu “remodelar” os empréstimos compulsórios mantidos pelos bancos no BC. E disse que novos projetos para reduzir as taxas de juros serão encaminhados ao Congresso.

A inadimplência também é fator de preocupação. “O Brasil, hoje, tem uma recuperação de crédito muito lenta e muito custosa. Para se ter uma ideia, a cada R$ 1 emprestado, se recupera R$ 0,13, num prazo, em média, de quatro anos. Em outros países emergentes, a taxa de recuperação é de 60% em um ano e meio a dois anos”, argumentou Campos Neto.

Competição
Sobre a concentração bancária, o economista ressaltou que, no Brasil, a situação é parecida com a de outros países, como Alemanha e Inglaterra. Segundo dados do Banco Central, os quatro principais bancos do país detém 80% do mercado de crédito. “No Brasil, apesar de o mercado ser concentrado — reconhecemos isso —, dá para dizer que existe competição. No entanto, isso não gerou um spread adequado”, admitiu Campos Neto.

Questionado sobre os lucros dos bancos, que continuam em expansão mesmo com a crise econômica iniciada em 2014, o economista destacou que “não é uma boa métrica” observar apenas esse fator, sendo necessário acompanhar a rentabilidade das instituições. “É preciso  ver qual é o lucro em relação ao capital empregado. O retorno dos bancos já foi bem maior, de 19%, 20%, e caiu para 12%. Bancos rendiam a mesma coisa que títulos do governo. Agora a rentabilidade voltou para algo como 15%. Apesar de o lucro ser crescente, a rentabilidade baixou muito. Voltou a crescer agora, mas ainda está abaixo do máximo”, afirmou o futuro presidente do BC.

O economista disse, ainda, que a Agenda BC+ será ampliada, e a modernização do setor financeiro será uma das prioridades. O Senado também aprovou a indicação do economista Bruno Serra Fernandes, para a Diretoria de Política Monetária do BC, e de João Manoel Pinho de Mello, para a de Organização do Sistema Financeiro. Flávia Perlingeiro recebeu aval para ocupar uma diretoria da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).


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