Acerto de contas O problema é o marxismo? Com a posse do novo governo, aparentemente duas frentes se abriram: uma muito relevante, que é uma reestruturação econômica, e outra completamente sem sentido, que é uma guerra cultural, que não levará o país a lugar algum

Por: Pierre Lucena

Publicado em: 06/01/2019 09:53 Atualizado em:

Governo está querendo atingir várias linhas de entrave econômico, com alguma modificação tributária, além da questão previdenciária, que é ainda mais urgente. Foto: Pixabay / Divulgação
Governo está querendo atingir várias linhas de entrave econômico, com alguma modificação tributária, além da questão previdenciária, que é ainda mais urgente. Foto: Pixabay / Divulgação
Na primeira delas, liderada por Paulo Guedes, os sinais são bem animadores para quem acredita em economia de mercado, que é o meu caso. O governo está querendo atingir várias linhas de entrave econômico, com alguma modificação tributária, além da questão previdenciária, que é ainda mais urgente. Em resumo, a ideia do governo é liberalizar a economia, facilitando a vida de quem deseja empreender e de quem produz. O equilíbrio fiscal parece ser a linha mestra de trabalho do novo ministro, o que é muito bom. 

Algo muito simbólico dito por Paulo Guedes também é bem relevante, como a apropriação de recursos ao longo dos anos por grandes grupos ou estruturas de poder, que sequestraram o orçamento do Estado. Estes grupos são formados por funcionários públicos de elite, como o Judiciário e o Legislativo (através das folhas de pagamento com salários muito acima de qualquer padrão aceitável até para países ricos), além de poucos grupos econômicos que se beneficiaram de recursos subsidiados do BNDES (ou mesmo dinheiro de risco através do Bndespar) para alavancar seus negócios, enquanto os empreendedores nacionais iam para a taxa de juros de mercado, que só veio cair durante o Governo Temer. É o que o professor Sergio Lazzarini (Insper) chamou de capitalismo de laços, onde poucos grupos fazem parte de um grande relacionamento societário de compadrio, todo ele financiado pelo Estado na sua fundação. 

Apesar da dificuldade enorme que o ministro da Economia terá para dar seguimento a sua agenda, aparentemente estamos com um conjunto de esforços bem direcionados.

Já em relação à segunda frente, temos aí um grande problema. Em poucas horas de governo, tivemos vários desencontros e declarações que mostram que o país poderá entrar em uma guerra cultural completamente inútil, tirando o foco do problema real, que é a recuperação econômica.

O destaque foi a ministra Damares Alves, até então assessora do senador Magno Malta, que foi alçada para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Começou com declarações polêmicas, como menino é príncipe e veste azul e menina é princesa e veste rosa, acabando com uma entrevista constrangedora na Globo News na quinta-feira, quando atacou o Enem por separar os filhos das famílias. A sensação de vergonha alheia foi tão grande que mudei de canal antes do fim.

Caso este governo fosse mais profissional do ponto de vista político, todos nós teríamos certeza de que isso se tratava de uma cortina de fumaça para desviar o foco para assuntos mais relevantes. Mas a guerra cultural parece ser algo relevante dentro da estrutura de poder, já que o próprio presidente falou que o combate ao marxismo irá melhorar o desempenho na educação.

Esta é uma visão completamente equivocada do processo educacional. Posso apostar que 99% dos professores sequer leu uma linha de um texto de Karl Marx e que grande parte sequer saberia dizer quem é.

O problema real de nossa educação é a falta absoluta de profissionalismo nas escolas públicas, e isso não é tratado como se deve. Enquanto o governo fica acreditando em uma bobagem como o escola sem partido, nossas crianças são colocadas em escolas sem estrutura alguma, com professores sem qualificação mínima adequada (que é diferente de formação), gerando indicadores ridículos de desempenho e atrapalhando o progresso de pessoas pobres que precisam de educação de qualidade para melhorar de vida. 

Isso sem falar que a educação de baixa qualidade que temos hoje é um grande entrave para o crescimento econômico e o aumento de produtividade do Brasil. Deveríamos estar discutindo como criar escolas criativas e profissionais, com professores e estruturas adequadas, ao invés de bobagens como doutrinação de estudantes.

Mas enquanto as pessoas acreditarem que o problema é o marxismo nas escolas, não iremos muito longe.


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