Mudanças Empréstimos, cartões e até previdência privada: lojas invadem mercado financeiro

Por: Estado de Minas

Publicado em: 02/01/2019 11:58 Atualizado em:

O acirramento da concorrência no varejo brasileiro está transformando as maiores redes de lojas de moda fast fashion, como Riachuelo, Renner e Marisa, em autênticas agências bancárias – um movimento que irá, segundo especialistas, se intensificar em 2019.Continua depois da publicidade

Além do tradicional empréstimo pessoal, cartão de crédito private label (com bandeira da própria loja), seguros de assistência pessoal e garantia estendida, já existem até planos de previdência privada, serviço inédito lançado há poucas semanas pela rede Lojas Marisa, especializada em moda feminina. “Um dos objetivos foi diversificar o portfólio, além de lançar um produto alinhado às necessidades atuais de nossa clientela”, diz Célio Lopes, diretor de produtos e serviços financeiros da rede Marisa.

A decisão surgiu às vésperas da posse do novo governo e da iminente aprovação de uma reforma previdenciária pelo Congresso. Um dos pontos de interrogação, que tem levado muitos consumidores a buscar alternativas de complemento de renda na maturidade, é o endurecimento nas futuras regras a serem incluídas no sistema convencional da aposentadoria utilizada no Brasil.

Em setembro, o grupo se uniu à Icatu Seguros para formatar a Marisa Previdência. O produto, nos moldes do chamado Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL), tem sido comercializado em lojas de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Goiás aos interessados entre 18 e 64 anos.

Há duas modalidades ao custo mensal de R$ 70 ou R$ 100. O valor é cobrado na fatura do cartão de crédito da Marisa e não prevê dedução no Imposto de Renda. Se o investidor sacar o dinheiro depositado, o tributo é sobre o rendimento. Portanto, o foco é quem seja isento do IR ou recorra ao formulário simplificado.

“A bancarização do varejo é um processo que acompanha o aumento da própria bancarização da população brasileira, especialmente com o advento da fintechs”, afirma a economista Fernanda Mascarenhas, especialista em finanças pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O plano Marisa Previdência ainda cobre casos de morte ou invalidez total e permanente, que varia segundo a faixa etária do contratante. A carência estipulada no contrato é de 60 dias para eventuais resgates.

Segundo especialistas, o Marisa Previdência é um investimento conservador, que aloca os recursos em títulos do tesouro ou renda fixa vinculados à Selic (taxa básica de juros), hoje situada em 6,5% ao ano. Portanto, a importância de R$ 70 ou R$ 100 – aplicada mensalmente em opções como CDB de bancos médios ou títulos de tesouro – pode render até mais do que no produto da Marisa caso as taxas e tributação não sejam muito elevadas.

Assim como a Marisa, grandes redes varejistas como C&A, Renner, Riachuelo e Pernambucanas apostam em serviços financeiros exclusivos. A C&A oferece empréstimos a aposentados e pensionistas do INSS a juros mais acessíveis.

O beneficiário que, por exemplo, recebe salário de R$ 600, pode sacar até R$ 6.280 e quitar a dívida em 72 parcelas de R$ 180. O serviço é oferecido em parceria com a Bradescard, braço de serviços financeiros do Bradesco. Não há renda mínima exigida para o empréstimo.

Na Riachuelo, pode-se retirar empréstimos de valores diversificados e de limites razoáveis, desde que o cliente corresponda aos critérios previamente determinados. Leva-se em conta o rendimento mensal das pessoas. Há múltiplas escolhas nos prazos de pagamentos.

Já a Pernambucanas libera empréstimo pessoal exclusivo a quem possui o cartão de crédito da loja. Além disso, a empresa também considera o Cadastro Positivo e a Portabilidade de Crédito.

Esse mercado já traz resultados financeiros consistentes. A Midway, que administra os 30,5 milhões de cartões Riachuelo, afirma oferecer crédito pessoal direto e a venda de seguros para 7,4 milhões de clientes ativos. Não é só. Dos R$ 500 milhões que a Guararapes deve lucrar este ano, R$ 200 milhões virão da Midway, enquanto os outros R$ 300 milhões serão gerados pela atividade varejista.

Na comparação entre as maiores carteiras de crédito do país, o Nubank lidera o ranking (R$ 4,7 bilhões). Em seguida, aparecem Midway (R$ 3,6 bilhões), Banco Inter (R$ 2,9 bilhões) e Agibank (R$ 1,6 bilhão). No item patrimônio líquido, a Midway totaliza R$ 675 milhões, menos que os R$ 800 milhões do Nubank e os R$ 930 milhões do Banco Inter.

Os consumidores, no entanto, precisam ter cuidado e avaliar as finanças de maneira criteriosa antes de ir à loja solicitar empréstimos. “O custo elevado do empréstimo muitas vezes pode representar uma armadilha”, afirma Fernanda Mascarenhas, especialista da UFRJ. “Há casos em que os juros das lojas beiram os percentuais do cheque especial, algo como 330% ao ano, segundo dados do Banco Central.” De acordo com a especialista, tão importante quanto comparar os juros é checar o Custo Efetivo Total (CET), indicador que inclui juros e vários encargos, como seguro, taxas e impostos.


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