reformas Com esperança de mudanças estruturais, empresários estão otimistas Depois das eleições, índices de confiança de empresários e consumidores melhoram, principalmente com relação ao futuro. Apesar de a escolha da equipe econômica ser considerada boa, ainda há insegurança sobre a força política para efetivar reformas

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 24/12/2018 07:30 Atualizado em:

Aloisio Campelo, superintendente de estatística da FGV: "Acho que foi dado o primeiro passo para uma retomada mais efetiva, que foi a volta de uma visão mais otimista da economia. Agora, isso não tem efeitos práticos. Precisamos de um segundo passo. Por isso, a grande expectativa dos empresários em relação à nova política do governo". Foto: FGV/Reprodução
Aloisio Campelo, superintendente de estatística da FGV: "Acho que foi dado o primeiro passo para uma retomada mais efetiva, que foi a volta de uma visão mais otimista da economia. Agora, isso não tem efeitos práticos. Precisamos de um segundo passo. Por isso, a grande expectativa dos empresários em relação à nova política do governo". Foto: FGV/Reprodução
Após o resultado das eleições que definiram Jair Bolsonaro como o futuro presidente do país, os índices de confiança mostraram dados mais positivos em relação à economia brasileira. Tanto os empresários quanto os consumidores estão mais otimistas. Na passagem de outubro para novembro, todas as amostras setoriais da Fundação Getulio Vargas (FGV) revelaram que há uma percepção de que a atividade tende a melhorar, mas, segundo analistas, apesar do movimento, é cedo para dizer que o consumo e os investimentos vão aumentar.

Na prática, o efeito no dia a dia das pessoas pouco mudou, mas existe uma sinalização de que o público em geral está satisfeito com a vitória de Bolsonaro. Tanto é que recente pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com o instituto Ibope aponta que 75% dos brasileiros avaliam que o futuro governo está indo na direção correta. “A população ainda não tem clareza sobre que medidas serão tomadas. É mais um voto de confiança, achando que ele está indo na direção correta. Nós vamos ter de esperar que o governo tome posse e comece a andar, para depois a população avaliar e se posicionar”, diz o gerente executivo de pesquisas da CNI, Renato da Fonseca.

Entre os empresários, a FGV mostrou que o índice de confiança saiu de 91,7 pontos para 95 entre outubro e novembro. Na pesquisa com os consumidores, a alta foi ainda maior, passando de 87,7 pontos para 95 no mesmo período. Resultado mais recente envolvendo o público mostra 94,9 pontos em dezembro, segundo a fundação. De acordo com os dados, a maior alta de otimismo ocorreu exatamente na expectativa em relação ao futuro, passando de 99 pontos em outubro  para 107,2 neste mês — o que corresponde a um salto de 8,2 pontos em dois meses.

O índice de avaliação da situação atual também subiu, mas de forma mais moderada: saiu de 72,7 pontos para 78,1 no mesmo intervalo. Com o “voto de confiança”, o presidente eleito terá o papel de não frustrar as expectativas de que a economia vai melhorar. O superintendente de estatísticas da FGV, Aloisio Campelo, afirma que existe um efeito “lua de mel” pós-eleições. “Não há uma melhora expressiva da situação atual e, sim, da expectativa em relação ao futuro. Acho que foi dado o primeiro passo para uma retomada mais efetiva, que foi a volta de uma visão mais otimista da economia. Agora, isso não tem efeitos práticos. Precisamos de um segundo passo. Por isso, a grande expectativa dos empresários em relação à nova política do governo”, explica.

Modelo de teste
A economista-chefe da gestora ARX Investimentos, Solange Srour, avalia que a eleição de Bolsonaro para presidente diminui o risco de ruptura com a atual política econômica, mas toda a melhora dos índices de confiança é frágil e depende da força do novo governo em aprovar reformas. “Ainda é cedo para atrairmos investimentos. Tudo vai depender do encaminhamento da reforma da Previdência. Sem ela, não há como fazer um programa de privatização ou concessões que gere um bom resultado monetário”, comenta.

Solange também ressalta que a equipe econômica formada pelo futuro governo mantém as expectativas em relação a continuidade da agenda de reformas. Apesar disso, a economista-chefe avalia que será necessário uma demonstração de maior força entre o grupo para a aprovação de medidas no Congresso Nacional. “Os nomes da nova equipe econômica são muito bons e há otimismo por conta disso. O problema é a articulação política que ainda é muito incipiente e parece adotar um modelo novo que ainda será testado. Há muita incerteza se esse novo modelo dará certo”, diz. “A principal preocupação é passar uma reforma da Previdência que não seja muito desidratada e que o governo mantenha força, evitando que o Congresso tome a agenda legislativa, possivelmente com pautas bombas”, completa.

Desanuviar
Por enquanto, Aloisio Campelo ressalta que há “muita coisa em aberto” em relação à política econômica do novo governo e que a alta mais sustentável da confiança poderá ocorrer quando houver sinalização mais transparente das ações da nova equipe, principalmente no índice que mede o otimismo dos empresários. “Não há um plano totalmente claro e definido. Até mesmo porque o presidente parece pensar diferente do (futuro ministro da Economia) Paulo Guedes. A visão geral é de que é preciso chegar a um consenso. Nada está tão claro e, quando desanuviar, acho que dará um ganho adicional para melhorar a situação atual. Poderá se transformar em mais contratações e investimentos”, aponta o especialista.

Para analistas, a equipe formada pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, tem alto nível técnico para dar continuidade à agenda de reformas esperadas pelo mercado. Mesmo assim, as indefinições políticas deixam os economistas com um pé atrás se, realmente, haverá concretização das mudanças esperadas.

Flávio Borges, superintendente de finanças do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), classificou as altas nos índices de confiança como “otimismo cauteloso”. “A relação com a percepção do presente não mudou muito. Por melhores que sejam as ações, demoram para surtir efeito. Então, há otimismo e perspectiva de investimento maior para o futuro, A situação atual, entretanto, para empresas e consumidores, ainda é problemática, com endividamento e restrições”, explica.


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