Mark Mobius "Depois da lua de mel, vem a realidade" Apoiador das medidas de Donald Trump, Mobius se mostra entusiasmado com a Lava Jato e com o futuro governo de Jair Bolsonaro, apesar de apontar que a lua de mel entre investidores e o presidente eleito pode acabar em seis meses

Por: AE

Publicado em: 09/12/2018 09:16 Atualizado em:

Aos 82 anos, o guru dos mercados emergentes Mark Mobius está em uma nova empreitada. Após se aposentar da empresa de investimentos Franklin Templeton - na qual ficou mais de 30 anos e que o tornou conhecido mundialmente -, lançou o Mobius Capital Partners, que terá fundos de investimentos destinados a empresas de médio porte de países emergentes.

Apoiador das medidas de Donald Trump, Mobius se mostra entusiasmado com a Lava Jato e com o futuro governo de Jair Bolsonaro, apesar de apontar que a lua de mel entre investidores e o presidente eleito pode acabar em seis meses, quando aparecerem dificuldades para aprovar reformas no Congresso. 

O megainvestidor esteve no Brasil na última semana para reuniões com o BTG, que distribuirá seu fundo no País, e conversou com o Estado. Disse que a guerra comercial entre China e EUA será longa, e que o Brasil poderá se beneficiar disso. Leia os principais trechos da entrevista:

Há uns meses, o sr. disse que os investidores viriam ao Brasil quando as incertezas políticas acabassem. Elas acabaram?

Agora há mais certezas. Pelo menos é a impressão no exterior. Os investidores sabem que Bolsonaro foi eleito e que ele tem uma agenda favorável aos negócios. Haverá uma lua de mel e depois a realidade se estabelecerá. Talvez, em seis meses, as pessoas digam que tem um Congresso contra ele para fazer as reformas. Mas a maioria dos investidores dirá: ‘o progresso que ele fará será suficiente para mover a economia’.

Os investidores vão esperar definições mais claras para vir ao Brasil?

Não. O mercado acionário no Brasil já subiu uns 30%. Os investidores perceberam e disseram: ‘melhor entrar lá, antes que suba mais’. Isso está acontecendo agora.

O País passou por uma de suas piores crises nos últimos anos. O sr. vê uma recuperação?

Definitivamente. Olhe a Petrobrás e o que ela tinha no passado para reformar, estamos falando de bilhões de dólares de economia para o governo. Esse é um exemplo. Se Bolsonaro for capaz de atacar a corrupção, o que já vem acontecendo, será um grande impulso para a economia. Há outros problemas no País além da corrupção, como desemprego e falta de investimento.

Bolsonaro percebeu que primeiro tem de olhar para o Orçamento, reduzir os custos do governo. Quando isso acontecer, a confiança na moeda vai aumentar, e isso é positivo. Outra coisa é a reforma trabalhista. Isso também vai ser muito bom para os negócios, porque significa liberalizar o mercado. As companhias vão responder a isso investindo mais.

O sr. já comentou que seu fundo vai investir em empresas brasileiras. Que empresas e setor está olhando?

Já investimos em uma do varejo. Estamos olhando uma empresa de internet e outra de manufatura. 

Como estão os preços das empresas brasileiras? 

Elas estão muito baratas. Não só as brasileiras, a maiorias das de mercados emergentes. Muitas dessas empresas estão baratas porque a moeda de seus países desvalorizou por causa de crises financeiras.

Essas crises ficaram no passado?

Acabou. Vamos pegar a Argentina. (O presidente Mauricio) Macri está tentado fazer reformas. Eles tiveram de pedir ajuda ao FMI. Quando o FMI vem, ele força o País a mudar, a ter o orçamento em ordem. Esse é o momento para investir. Quando as coisas realmente parecem ruins, é preciso olhar o que virá: qual a intenção do governo? No Brasil, teve a Lava Jato, pessoas foram para a cadeia por corrupção. Esse é o momento para investir no País.

Quando Donald Trump anunciou uma trégua na guerra comercial, o sr. comentou que esse enfrentamento não acabou. Pode haver um acirramento?

Os americanos perceberam que (a guerra) não é apenas sobre comércio, é sobre transferência de tecnologia, é sobre coisas que são injustas do ponto de vista americano. Acho que isso vai durar bastante.

O sr. disse que o Brasil pode sair ganhando, mas uma guerra comercial pode desacelerar a economia global, reduzir preços de commodities e afetar o País negativamente...

Depende da relação do Brasil com os EUA. Muito da produção chinesa pode vir para o Brasil e, então, ser exportada para os EUA. Há ótimas empresas aqui e está mais caro produzir na China. Vocês terão boas oportunidades.

Trump deu o pontapé inicial nessa guerra. Como analisa o governo dele?

Ele está fazendo um bom trabalho. É preciso escutar o que ele diz. Ele diz que gostaria de ter livre comércio total, mas a relação (dos EUA) com a China é loucura. O mesmo com a Europa. Você quer exportar algodão americano para a Europa, tem 25% de taxas. O que é isso? A beleza de Trump é que ele está disposto a falar alto: ‘vamos sentar e mudar essas coisas agora’. 

Há quem compare Bolsonaro a Trump. O Brasil pode brigar com países como China mesmo sem ter a importância dos EUA?

O Brasil é importante. Vocês são grandes exportadores de matérias-primas. Bolsonaro pode fazer muito.



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