orgulho de pernambuco Quando a contabilidade descobriu Umbelina A docência foi arrebatadora para ela, que, além do Orgulho, já ganhou cadeira como imortal da Academia de Ciências Contábeis

Por: André Clemente - Diario de Pernambuco

Publicado em: 01/12/2018 11:47 Atualizado em:

A homenageada recebendo o prêmio das mãos de José Gonçalves Campos Filho, do CRC. Foto: Camila Pifano / Esp.DP
A homenageada recebendo o prêmio das mãos de José Gonçalves Campos Filho, do CRC. Foto: Camila Pifano / Esp.DP
Entrar na sala de aula naquele dia, pela primeira vez, deu medo. A mulher que nunca tinha parado de estudar a vida inteira, naquela vez, estava decidida a recuar. O motivo era a posição. Em vez de aluna, teria que encarar uma turma pronta para ouvir o que ela teria a ensinar. “Ensinar? Eu? Ninguém vai querer me ouvir. Não tenho capacidade. Não vou assumir o cargo”, desabafou com o coordenador do curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Era o primeiro dia de trabalho no cargo de professora substituta do concurso que tinha sido aprovada. Ouviu um “Tem uma turma esperando por você”, seguido de “Só dê bom dia. Depois você decide”. 

Desde aquele dia, a docência foi arrebatadora para Umbelina Lagioia. A menina de nome diferente e que queria ser engenheira química se viu levada a um caminho diferente do seu sonho de adolescente. Virou contadora, instrutora técnica, mestra, doutora, professora. Umbelina virou imortal da Academia Pernambucana de Contabilidade e é, em 2018, a premiada na categoria Contabilidade do grande prêmio Orgulho de Pernambuco.

A segunda opção de carreira veio da não aprovação no vestibular de engenharia química. Nunca tinha sonhado em fazer ciências contábeis, mas “o plano de papai do céu era outro”, como ela mesma descreve. Era o certo. Ao entrar na faculdade, veio o primeiro retorno. “Aprovada no concurso de técnica administrativa. Nível médio. Assumi aos 18 anos na UFPE, o emprego que me permitiu concluir todo o curso na universidade e me manter depois de formada”, pontuou. Quando terminou a faculdade, inclusive, veio a dúvida do que fazer. Dessa vez, não tinha sonho à frente. Foi se especializar. Entrou na pós-graduação em Administração financeira na Universidade de Pernambuco (UPE). Ao fim desse passo, nova dúvida. “O que eu vou fazer? Não tinha planejado nada para depois dessa especialização. Vou fazer outra”, lembra.

Entrou na especialização em Contabilidade e Controladoria na UFPE. Novo título, nova etapa concluída. Nova dúvida. Na sala de aula dessa especialização, ouviu falar do mestrado. Obviamente e como sempre, questionou sua capacidade. “Mestrado é para gente capacitada. Não para mim. Me mandaram tentar. Fiz e passei. Na mesma época, abriu um concurso para a vaga de professor substituto de contabilidade na UFPE. Uma única vaga. Pensei logo em não fazer. Primeiro porque a docência não estava nos planos e segundo porque era uma única vaga. Comentei com a minha mãe ser impossível passar e ela me disse: ‘tem uma vaga, filha? De quantas você precisa?’. Respondi ‘uma’.” E foi dela.

Ensinar passou a ser missão. Ultrapassou o campus da UFPE e foi lecionar em universidades privadas. Veio o fim do mestrado e o doutorado passou a ser o caminho natural. Apesar de mais questionamentos sobre sua capacidade, virou doutoranda e um novo concurso “surgiu” à sua frente. A chance de virar professora efetiva de dedicação exclusiva da UFPE apareceu. Depois da graduação, duas especializações, mestrado, doutorado e de nunca ter parado de estudar, passou no concurso. Justificativa dada por ela: “papai do céu me ajudou”.

 A indicação para o prêmio Orgulho de Pernambuco foi mais um susto. “Como assim? Fiquei tão feliz por ser lembrada. A gente não imagina que as pessoas estão considerando você como um orgulho da profissão. Fui ver os concorrentes e um deles era simplesmente o presidente do Conselho de Contabilidade. Meu chefe. Pensei: “não ganho nunca”. Ele me mandou uma mensagem parabenizando a indicação e eu prontamente respondi que ele seria o vencedor, é claro”, descreveu. “Quando me ligaram dizendo que eu tinha vencido, dei um grito no corredor da universidade. Eu, um orgulho de Pernambuco? Não mereço”, insistiu.
 
A excelência na soma da teoria com a prática
 
Na sala de aula, as coisas foram acontecendo com a menina que nunca parava de estudar. A primeira experiência de Umbelina Lagioia como professora efetiva foi “traumática”. “Me deram a pior disciplina para ensinar. Mercado de capitais era um assunto burocrático, não era algo que os estudantes gostavam e eu também não me sentia preparada para ensinar. Pensei logo em desistir, em dizer que não ia ficar. Mas resolvi me preparar, estudar o assunto e as coisas foram acontecendo. Consegui passar o assunto direitinho, percebi que os alunos estavam gostando e que estava funcionando”, pontuou.

Umbelina destaca um fator para a aceitação em sala de aula: vivência de mercado. Também por razões de “coisas que foram acontecendo”. Em uma aula que ministrava numa turma de MBA, um dos alunos apresentou uma demanda para a professora. Uma consultoria empresarial na área contábil. A missão seria atuar em todo o processo de convergência contábil da empresa. “Aceitei o desafio. Fiquei insegura quando descobri que a empresa era simplesmente a Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento). Um desafio enorme. Aceitei e realizei”, lembra. A partir dali, o bom desempenho no trabalho fez essa área de atuação deslanchar. É consultora contábil de diversos projetos empresariais, bagagem que daria instrumentos reais para serem colocados dentro de sala de aula.

“Como eu falaria para os meus alunos sobre o que fazer nas empresas sem ter vivenciado? É isso que tem diferenciado o meu dia a dia em sala. São exemplos reais de dificuldades e problemas encontrados e tratados com as devidas aplicações de normas técnicas. Ficaria muito chato esse assunto ser tratado apenas na teoria. São muitos detalhes de um trabalho pesado, criterioso, que precisa de um efeito para se tornar real. E eu tento passar isso, unindo as atividades. Acho que as pessoas gostam. Até nisso eu tive sorte”, explica, mesmo depois de nunca ter parado de estudar.

O resultado não poderia ser outro. “Fui ficando conhecida e vieram outros e outros trabalhos. São atividades pontuais que realizo temporariamente nos ambientes corporativos e que me foram dados a partir da projeção que ganhei quando fui convidada a treinar os colegas de profissão, como instrutora do Conselho de Contabilidade. Em seguida, também fui convidada para ser instrutora do Ibracon (Instituto dos Auditores Independentes do Brasil) e para dar aulas na escola de contas do Ministério Público de Contas de Pernambuco e na Escola de Administração Fazendária (ESAF). E as coisas foram acontecendo”, detalhou.

Tanta experiência veio em mais uma notícia para a professora. Indicação para integrar o grupo de imortais da Academia Pernambucana de Ciências Contábeis. Como sempre, não se achou merecedora. “Eu sou professora e acho que não mereço. São tantos colegas com mais importância que eu. Acho que faltou opção”, brinca. E a imortal vai continuar estudando.  
 


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