DP Empresas Presidente do Sinduscon fala das perspectivas para o setor da construção civil

Por: Rochelli Dantas - Diario de Pernambuco

Publicado em: 24/11/2018 14:00 Atualizado em:


Os últimos dados do Índice de Velocidade de Vendas (IVV) de Pernambuco apontam um crescimento de 6,4% em Pernambuco. Em setembro, segundo levantamento da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), as ofertas totais foram de 5.843 unidades, montante menor que o registrado no mesmo mês do ano anterior (7.542). No caso das vendas, foram 383 durante os 30 dias de setembro deste ano, enquanto em setembro de 2017, foram 356. Os números mostram como anda o setor de construção civil em Pernambuco: em uma lenta recuperação entre um ano e outro. %u201CDesejávamos um crescimento, mas o ano passou e não houve uma mudança significativa no cenário. Algumas questões evoluíram mas não a ponnto de representar uma retomada do setor no estado%u201D, ressalta o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no estado de Pernambuco (Sinduscon/PE), José Lucas Simón. Em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco, o empresário falou sobre o cenário estadual, projetos em curso, além de uma perspectiva do setor de construção civil, com as expectativas do segmento com o novo governo, tanto a nível estadual, quanto federal. Os principais pontos abordados durante a conversa você confere na entrevista abaixo.

Quais as estratégias que estão sendo utilizadas pelas construtoras para reduzir o estoque de imóveis?
O estoque hoje no estado é regulado de acordo com o que sempre tivemos em vendas anuais. O que acontece é: nós não tivemos acréscimo de venda significativo, mas também não tivemos lançamentos, o que fez com que o estoque permanecesse basicamente inalterado em números absolutos. Foram pensados vários tipos de ações pelas construtoras e pelo setor para mudar esse cenário, mas não foram efetivamente suficientes. Todas serviram pontualmente para resolver alguns problemas de estoque, mas, no geral, não houve mudança significativa.

Como estão caminhando os projetos do Minha Casa Minha Vida no estado?
Veja, a gente tá aquém dos outros estados, principalmente quando se tira um recorte só do Nordeste nessa questão do Minha Casa Minha Vida. Quando a gente discute, exclusivamente, o que é a faixa 1,5 hoje, o que são as faixas 2 e 3, você até que tem uma condição de equiparação. Quando você discute Faixa 1, a gente tá bem abaixo do investimento em outros estados do Nordeste, embora nossa carência seja a mesma. Vamos dizer: existe um déficit habitacional em torno de 90% concentrado no Nordeste e a gente infelizmente não tá enfrentando esse déficit, mas como o governo federal também deixou de enfrentá-lo desde 2014, hoje esse déficit tende a crescer, novamente, para esses números.

O Teto para adquirir imóveis com o uso do FGTS subiu para para R$ 1,5 milhão. Essa mudança vai ajudar a impulsionar o setor?
Funciona porque na hora que você tem esse aumento do teto, você faz com que a economia gire, ou seja, quem tem um apartamento hoje de até R$ 600 mil ele financia um imóvel de R$ 1,5 milhão e aquele outro já vai para o mercado. Então, você tem essa parte do SBPE do FGTS funcionando de forma mais pronunciada, não esquecendo as faixas 2 e 3 lá embaixo e olhando o SFI, lá em cima, como outra opção de financiamento. Isso veio complementar a grade de negócio que pode ser executada pela classe média.

Um projeto tramita em Brasília alterando a lei dos distratos. Isso deve mudar a relação entre construtoras/consumidor?
Eu acho que tudo que você tenta resolver muitas vezes de mercado com legislação, você acaba caindo no vazio. Eu não acredito que vai satisfazer empresário. Nem, muito menos, que vai satisfazer o consumidor. Nem, muito menos, que se torne uma regra aceitável por todos. Isso pelo simples fato de que o mercado se regula. Essa questão de distrato, e até a crise - nunca antes vista - ele funcionava perfeitamente ocorrendo distrato e ocorrendo a retomada e ocorrendo todo pagamento do dinheiro investido. Acho que legislar sobre isso vai cair no problema maior do que o existente.

O anúncio do primeiro empreendimento no Cais Estelita abre uma nova %u201Cfrente%u201D da construção civil? Outras regiões podem surgir?
O projeto Cais José Estelita já está atrasado na sua cronologia. Ele já tem seis anos que devia ter sido lançado, então todo fato modificado que ele carregaria na sua construção, hoje não vai ser mais percebido. Até porque pode tornar uma ilha. Não tem como, hoje, aquilo ali percolar para o resto da cidade porque a velocidade com que ele vai ser feito não vai permitir que a mudança seja radical, até porque estamos falando de apenas dois prédios de todo um conjunto.

Como avaliar o novo plano diretor do Recife?
A avaliação inicial é muito complexa. Ele é composto de mapas e restrições que eu acho que ninguém ainda entendeu o tamanho do que é que vem. Agora há pontos fundamentais que a gente vem discutindo... A questão do coeficiente de utilização, não é importante para o setor, mas será para o consumidor e será para o setor, a medida que os negócios não vão ser executados. A questão da outorga onerosa quem tem que definir realmente aonde vai ser aplicado, em quanto vai custar, por que isso é uma questão que dificilmente o dono do terreno vai querer arcar, e é por isso que a gente tem a tese de que a cidade vai de alguma forma parar por um ciclo porque o dono do terreno no coeficiente único, unitário, ele não vai ter interesse fazer o negócio. Um exemplo: se você tem um terreno de 1000 metros, mas tem uma casa de 400 metros, no coeficiente único você vai permutar por 200. Quem tem 400 de casa como é que vai permutar por 200 de apartamento? Numa troca de 20%, mais ou menos real? Agora, se a gente discuti a outorga e paga, voltando a ter um coeficiente 3 aí você tá discutindo 600 metros de área, só que aí tem que ver se o dono do terreno quer pagar. A gente tem a ideia de que nesse novo plano você tem novos instrumentos, mas que deve ser melhor avaliada. A transferência do direito de construir também é outro instrumento que deve ser melhor avaliado. E a gente tem uma série de fatores que é lógico que tá fazendo crer no benefício. Agora as intercorrências e as consequências colocadas nisso é que eu acho que não estão sendo bem avaliadas e parte de algumas premissas erradas, como uma diminuição do valor do terreno por conta da diminuição de potencial. Essa relação, infelizmente, não acontece e não aconteceu nunca nessa cidade.

Como a tecnologia e as startups que estão surgindo tem contribuído para o setor?
No Sinduscon, a gente teve um protagonismo exemplar no passado e no presente quando a gente tinha os avanços tecnológicos e investia nessa tecnologia, nesses avanços, na sustentabilidade. Tem um Fórum de Sustentabilidade com 20 anos. A questão da startup é mais nova. É que você deixa de investir exclusivamente na tecnologia e no avanço tecnológico e passa a investir em inovação. Então, a gente já tem alguns exemplos, tem oito startups em Pernambuco com programas e softwares utilizados por todos, e a ideia é que realmente a gente cada dia invista não mais no avanço tecnológico, mas em inovação.

Este ano, a Prefeitura de Jaboatão, anunciou um plano de atração de construções na orla. Como está esse projeto?
Na realidade será baseado em 21 projetos e acredito que a maioria está sendo aprovada já em sua fase final. O que eu tenho registrado também hoje de Jaboatão é que está começando a fazer as obras de saneamento e isso tá atraindo, de alguma forma, também um mercado de venda à beira-mar. Eu acho que com as restrições colocada, Jaboatão pode-se haver um êxodo, sim. É um município que hoje gera condições, inclusive legais, para que o setor possa atuar de forma mais maciça.

O que esperar do governo federal eleito?
Na pauta nacional a gente espera grandes mudanças. Esperamos um enxugamento geral da máquina e uma percepção menor do estado no privado. Esta é a promessa de campanha e o que a gente espera. Como vai se dar isso e quais pautas vão avançar, aí é uma prerrogativa do presidente eleito e o que mostrou até agora é uma questão de manutenção dos atuais programas habitacionais com a diferença e a divergência colocada na questão dos subsídios. Então, a gente vê com muita preocupação porque assim desde que eu me entendo por gente, moradia popular tem que ser subsidiada e tem de haver isso no programa de forma clara e objetiva na colocação. Isso é um ponto preocupante. Nos demais, acho que a mudança é muito benéfica até porque o estado comeu muito espaço do privado nos últimos governos então dá pra gente diminuir bastante o tamanho do estado.

E a nível estadual?
Como é o mesmo governo e já conhecemos a demanda, o que esperamos é que ele consiga, através de convênios, destravar e consiga alavancar as obras do estado que estão pendentes e que dependem, em 80%, 90%, do governo federal. Obras como, por exemplo, Transposição, Transnordestina e a questão do Arco Metropolitano (que já virou um arquinho mas que a gente ainda quer entender como é que vai ser feito). Então, a pauta é a mesma que vem sendo desde a primeira gestão de Paulo Câmara. O que a gente tem que ter hoje é que um grande percentual dessas obras e isso é dependente do governo federal. Então é bom começar conversando isso muito cedo.

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