prisão Prisão de Carlos Ghosn põe fim a uma era Celebrado na indústria automobilística mundial, o brasileiro que tirou a Nissan da crise encerra a carreira detido pelas autoridades japonesas e denunciado por suspeita de crimes financeiros

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 20/11/2018 07:48 Atualizado em:

As ações da Renault, negociadas na bolsa de Paris, fecharam a segunda-feira em queda de 8,43%, depois de chegar a uma baixa de 14,1%. Já os papéis da Nissan tiveram desempenho menos desastroso na bolsa de Frankfurt, com queda de 6,42%. Foto: Vanderlei Almeida/AFP
As ações da Renault, negociadas na bolsa de Paris, fecharam a segunda-feira em queda de 8,43%, depois de chegar a uma baixa de 14,1%. Já os papéis da Nissan tiveram desempenho menos desastroso na bolsa de Frankfurt, com queda de 6,42%. Foto: Vanderlei Almeida/AFP
As maiores agências internacionais de notícia dispararam “breaking news”. A informação era realmente muito importante para o mundo dos negócios. Carlos Ghosn, de 64 anos, presidente do conselho de administração da montadora Nissan, foi detido na manhã de ontem, em Tóquio, depois de uma investigação interna, deflagrada por uma denúncia e feita pela própria empresa nos últimos meses, apontar seu envolvimento em fraudes financeiras, violando as leis do país. O executivo também ocupa os cargos de presidente executivo da Renault, além de ter o principal posto no conselho de administração da montadora francesa e da Mitsubishi Motors, parceiras estratégicas da Nissan.

As investigações internas da Nissan apontam que Ghosn teria reduzido o valor de seus salários em 5 bilhões de ienes (US$ 44,3 milhões) em declarações feitas por “muitos anos”. A suspeita é de que a manobra contábil tenha ocorrido com a ajuda de um outro executivo, Greg Kelly. Além disso, a companhia investiga se o brasileiro teria infringido outras normas de conduta, como o uso pessoal de ativos da Nissan.

“A investigação mostrou que, ao longo de vários anos, Ghosn e Kelly declararam rendimentos inferiores aos valores reais à Tokyo Stock Exchange, de forma a reduzir o montante declarado de Ghosn”, informou a Nissan por meio de comunicado. A multinacional japonesa diz estar colaborando com a Justiça do país.

Trajetória
Conhecido como o executivo que salvou a Nissan da bancarrota, nascido em Porto Velho, Ghosn é franco-brasileiro, filho de pai libanês e mãe francesa. Quando tinha pouco mais de um ano, deixou o país com a família por causa de problemas de saúde e foram todos viver no Líbano, e depois na França, onde se formou e começou sua carreira como executivo na Michelin, chegando anos depois à presidência. Além de português (com sotaque) e francês, Ghosn fala árabe e inglês.

Sua chegada à Nissan, designado pela Renault, aconteceu em 1999, quando a multinacional francesa havia comprado uma grande participação no capital da montadora asiática. Naquele momento, a companhia estava em situação financeira gravíssima, perto de um colapso.

Em 2001, Ghosn assumiu como presidente executivo, algo raro para um estrangeiro em empresas japonesas. Na época, adotou uma política rigorosa de corte de custos, fechou cinco fábricas e se desfez de 21 mil postos de trabalho. Muitos acreditavam que a falência seria inevitável.

A Nissan deu a volta por cima e Ghosn se tornou uma espécie de salvador da pátria entre os japoneses. Escreveu um livro sobre gestão, foi tema de outras tantas obras e virou até personagem de mangá. Até ontem sua trajetória inspirava muitos executivos da indústria automobilística.

Com o desdobramento do escândalo, a Nissan pode ver sua aliança estratégica com a Renault e com a Mitsubishi Motors, presidida por Ghosn, ameaçada. O mercado esperava que as relações se estreitassem e caminhassem para a criação de uma grande companhia global. Com o responsável por costurar as parcerias fora do jogo, essa evolução dos acordos pode ser inviabilizada. Recentemente, o executivo disse que pretendia continuar na função até 2020.

Além de ser conhecido por tirar a Nissan da crise, Ghosn é apontado como um dos executivos com maior salário no Japão. Em 2017, o franco-brasileiro recebeu 962 milhões de ienes (US$ 8,5 milhões) em espécie e ações por seus cargos na Nissan e na Mitsubishi. Já a Renault pagou 7,4 milhões de euros (US$ 8,4 milhões) por seus serviços.

Demissão 
Durante comunicado à imprensa, o CEO da companhia, Hiroto Saikawa, informou que haverá uma reunião do board, agendada para quinta-feira, para destituir Ghosn e Kelly do conselho. O presidente afirmou que houve “significativos atos” de má conduta e se desculpou com acionistas e parceiros comerciais pelo escândalo.

Apesar das palavras de Saikawa, o mercado acionário reagiu mal à denúncia e tanto as ações da Nissan quanto os da Renault viram seus papéis desvalorizarem no pregão de ontem. As ações da Renault, negociadas na bolsa de Paris, fecharam a segunda-feira em queda de 8,43%, depois de chegar a uma baixa de 14,1%. Já os papéis da Nissan tiveram desempenho menos desastroso na bolsa de Frankfurt, com queda de 6,42%

O caso, ainda que esteja em fase de investigação pelos procuradores japoneses, mostra que houve uma falha na forma como a montadora estabeleceu controles internos para evitar esse tipo de irregularidade. O próprio CEO admitiu: “O problema da governança foi significativo.” O delito de Ghosn, disse Saikawa, sem dar detalhes, foi grave e durou anos.

Por ter violado tanto a confiança de muitos, me sinto cheio de decepção e de arrependimento”, afirmou Saikawa, diante dos jornalistas. “Não é apenas decepção, mas um sentimento mais forte de indignação e, para mim, de desânimo.”

Governança
Professor das áreas de governança corporativa, gestão de empresas familiares, gestão estratégica e administração de conflitos da Fundação Dom Cabral (FDC), Dalton Sardenberg avalia que o caso envolvendo Ghosn reforça que nem mesmo executivos no seu nível estão imunes em tempos de preocupação cada vez maior com a reputação das companhias.

“Há um movimento global e crescente de combate à corrupção. As pessoas têm cada vez mais acesso a informações e se mostram mais intolerantes. As empresas, por sua vez, são mais cobradas por seu comportamento. Esse é um caso que mostra que ninguém está acima das regras”, avalia Sardenberg.

Marcos Sarmento Melo, professor de Finanças do Ibmec, lembra que mesmo com regras cada vez mais rigorosas de compliance sempre há brechas para irregularidades, seja qual for o porte da companhia. Apesar do impacto, o especialista acredita que a Nissan sairá bem da crise em torno de Ghosn. “O reflexo é não apenas dentro da própria empresa, que vai aumentar seus controles e buscar mais eficiência, mas nas concorrentes, que vão avaliar o caso e pensar ‘será que poderia ter acontecido conosco?’.”

Depois do debacle de Ghosn, a Nissan terá de ser ágil para comunicar ao mercado qual rumo deverá seguir depois de 17 anos sob as ordens do brasileiro. Do contrário, poderá ver toda a credibilidade construída desde a sua recuperação se perder e ser engolida pelo crescimento das concorrentes.

Como fica Ghosn em caso de condenação
Caso Ghosn seja condenado, terá de cumprir pena no Japão. Mas, no caso de ele aguardar o julgamento no Brasil, mesmo que seja condenado não poderá ser extraditado para o país asiático, explica Dorival Guimarães Pereira Júnior, professor, especialista em direito internacional e sócio do escritório de advocacia Guimarães Pereira Advogados e Consultores, de Belo Horizonte. “A Constituição veda a extradição de brasileiro nato. Uma ordem de prisão do Japão não tem validade no Brasil”, completa. É a mesma situação de Marco Polo Del Nero, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ele foi condenado pela Justiça dos Estados Unidos. Se sair do Brasil, será preso.


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