inflação Equilibrar as contas públicas será o grande desafio econômico de Bolsonaro Bolsonaro enfrentará grandes desafios no campo da economia. Mas o presidente eleito tem duas boas cartas na manga: o IPCA na meta e os juros básicos no patamar mais baixo da história, que favorecem investimentos

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 05/11/2018 07:58 Atualizado em: 05/11/2018 08:01

"Não vejo grandes riscos, o que pode gerar um desbalanceamento são choques externos, como a elevação de juros nos Estados Unidos, a guerra comercial entre China e EUA, e um PIB mundial em queda. Foto: Daniel Ferreira/CB
"Não vejo grandes riscos, o que pode gerar um desbalanceamento são choques externos, como a elevação de juros nos Estados Unidos, a guerra comercial entre China e EUA, e um PIB mundial em queda. Foto: Daniel Ferreira/CB

O futuro presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), sabe que terá que enfrentar grandes desafios para equilibrar as contas públicas e garantir a confiança do mercado. Para sair do vermelho, economistas defendem que o novo governo precisa frear o crescimento da dívida e apresentar uma agenda de reformas. Mas, mesmo com pontos difíceis, nem tudo são más notícias. Bolsonaro tem nas mãos a Selic mais baixa da história (6,5%) e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) controlado, com meta de 4,5%, em 2018.

De acordo com o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), André Braz, o novo governo começará com algumas cartas na manga por ter a taxa de juros baixa e a inflação na meta. “É uma recuperação econômica mais rápida, porque já existe um sistema em curso. Com a taxa de juros favorável para o investimento e o IPCA mais estável, você gera uma maior previsibilidade dos ganhos. É uma grande vantagem começar o governo assim”, afirma.

A inflação, que impacta diretamente no poder de consumo da população, sofreu um pequeno aumento, em outubro, no acumulado em 12 meses. Foi a primeira vez no ano que o índice ultrapassou o centro da meta do Conselho Monetário Nacional (CMN), alcançando o patamar de 4,53%, mas permaneceu dentro da margem de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Porém, mesmo com o resultado acima do esperado pelo mercado, a expectativa dos especialistas é de que não haja fortes ameaças à estabilidade do índice e que o IPCA fique entre 4,5% e 3,75% nos próximos anos.

Para 2019, a meta central da inflação é de 4,25%, com intervalo de tolerância de 2,75% a 5,75%. Segundo o ex-diretor do Banco Central Carlos Eduardo de Freitas, o índice deve seguir a meta do ano, mas sempre é preciso ficar atento ao cenário externo. “Não vejo grandes riscos, o que pode gerar um desbalanceamento são choques externos, como a elevação de juros nos Estados Unidos (EUA), a guerra comercial entre China e EUA, e um PIB mundial em queda. Mas o novo governo parece comprometido com reformas, então, isso deve ajudar o cenário e a economia a se restabelecerem”, explica Freitas.

A Selic também é um ponto favorável para Bolsonaro. A taxa foi mantida no patamar de 6,5% para 2018, após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do último dia 31. Mas o novo governo precisa ficar atento às mudanças. Apesar de estar no nível mais baixo da história, é possível que o BC eleve a taxa para 8%, no fim do próximo ano, para controlar pressões inflacionárias e também cambiais. Após incertezas do período eleitoral, o cenário econômico brasileiro voltou a um estado mais confortável, com o dólar atingindo o patamar de R$ 3,70. Mas, em 2019, o cenário internacional nebuloso pode aumentar o valor da moeda.

O aumento da Selic para 8% não contribui para um aumento da atividade econômica. Entretanto, de acordo com o economista André Braz, esses ajustes são necessários para manter a economia sob controle. “Não é um sinal favorável (para a atividade econômica), mas também não é eterno. Se o IPCA começa a avançar para longe da meta, é preciso aumentar os juros. E isso não tem efeito imediato. Se o radar aponta muitas pressões que não foram incorporadas pelos índices, é melhor fazer o reajuste antes porque demora de 6 a 9 meses para ter resultado”, diz.

"Eu tive que pegar empréstimo para pagar outros empréstimos, e aí foi com agiota. Hoje, a dívida corresponde a 40% do meu salário. E ainda pago luz, água, gasolina. Foto: Camilla Venosa/Esp. CB
"Eu tive que pegar empréstimo para pagar outros empréstimos, e aí foi com agiota. Hoje, a dívida corresponde a 40% do meu salário. E ainda pago luz, água, gasolina. Foto: Camilla Venosa/Esp. CB


Para conseguir tirar proveito da Selic e do IPCA, os especialistas são unânimes em afirmar que o novo presidente precisa controlar as contas públicas e iniciar o mandato com foco na reforma da Previdência. Segundo Braz, não basta olhar somente para a política monetária, é preciso estender ações para a parte fiscal. “Selic e IPCA são fundamentais, são monitorados de perto pelo governo e pelos agentes econômicos. Um Banco Central independente tem total condição de manter a política monetária em dia, mas o governo precisa se concentrar na política fiscal. E isso passa por reforma da Previdência e enxugamento de ministérios”, afirma.

O professor do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da Universidade de Brasília (UnB) Bruno Vinícius Ramos Fernandes lembra que, depois de fazer as reformas iniciais, é necessário pensar nos investimentos a longo prazo. “Após arrumar a casa, o investimento virá. E aí precisamos tornar a indústria brasileira mais competitiva porque temos vivido de protecionismos. Não há uma integração das universidades com as indústrias para gerar desenvolvimento e tecnologia”, lembrou o professor.

Crédito
Mesmo com a inflação e a taxa básica de juros baixas, a população não conseguiu sentir todos os benefícios do controle desses índices. Produtos importantes, como energia, gasolina e botijão de gás, continuam com preços elevados e prejudicam o poder de consumo. Além disso, os bancos não reduziram de forma considerável os juros sobre crédito.

Ivone dos Santos Pereira, 63 anos, começou a se endividar com o término do primeiro casamento, quando precisou assumir o pagamento da casa em que morava com os filhos. Há quase 26 anos pagando dívidas, ela conta que precisou recorrer a agiotas por não conseguir renegociar juros com o banco. “Eu tive que pegar empréstimo para pagar outros empréstimos, e aí foi com agiota. Hoje, a dívida corresponde a 40% do meu salário. E ainda pago luz, água, gasolina. Tudo isso vai comendo o salário”, diz.

O economista da FGV André Braz explica que as famílias mais pobres sentem com mais peso no orçamento os preços elevados de alguns produtos. “Energia e gás, por exemplo, são produtos a que a pessoa não pode renunciar. E é uma política de preço monitorado. Com o desemprego elevado, o orçamento está mais enfraquecido, e esses preços pesam mais. As famílias mais pobres têm uma sensação de inflação maior”, alega.

Para o ex-diretor do BC Carlos Eduardo de Freitas, os bancos temem não receber o valor emprestado e, por isso, não reduzem as taxas sobre crédito. “O desemprego cai muito lentamente e a renda está crescendo pouco. Então, os bancos têm dificuldades na hora da cobrança”, esclarece.

Após o fim de um relacionamento, a publicitária Vanda Branchine, 49, começou a se endividar por não conseguir arcar com as despesas da casa. Depois de 10 anos, quitou suas dívidas, mas se lembra das dificuldades que passou para equilibrar as contas. “Num primeiro momento, a minha despesa física era o dobro da minha receita. Então, nós só comíamos em casa, e eu escolhia o que podia comprar no mercado. Renegociei o pagamento da minha faculdade e dos juros no banco. Consegui reduzir as despesas de casa, aprendi a pesquisar e encarei a dívida”, contou.
 


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