dp nos bairros Madalena e Torre: Onde não há hora para matar a fome Seja sob a luz do dia, à noite ou virando a madrugada, bairros oferecem sanduíches para todos os gostos e bolsos também

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 26/10/2018 08:04 Atualizado em: 26/10/2018 08:16

Depois que Fofão morreu, Josenildo, que trabalhava no espaço, assumiu o negócio junto com o primo. Foto: 	Nando Chiappetta/DP
Depois que Fofão morreu, Josenildo, que trabalhava no espaço, assumiu o negócio junto com o primo. Foto: Nando Chiappetta/DP

Quem circula de madrugada pelas ruas do Recife, a diversão ou a trabalho, certamente já procurou os bairros da Madalena e Torre para matar a fome. Quando tudo estiver de portas fechadas, uma certeza: é lá onde muitos trailers e lanchonetes costumam estar abertos em horários mais avançados. Um exemplo clássico é o tradicional Fofão Burguer, localizado quase em frente à sede do Sport, na Ilha do Retiro. Administrado pelos primos Josenildo Francisco de Santana e Marconi José da Silva, possui 45 anos de existência e uma longa história a ser contada. E quem relata é Josenildo. 

“Chegamos aqui como funcionários do seu Wilson, o Fofão, que tinha um trailer. Depois que ele faleceu, seus herdeiros não continuaram com o negócio e o proprietário do lugar onde estacionávamos achou melhor fechar. Então, há 27 anos, eu e meu primo decidimos administrar o Fofão. Durante um ano e meio, éramos só nós dois nos alternando no trabalho de 12 em 12 horas. Um de 8h às 20h e o outro de 20h às 8h. Isto porque não fechamos nunca e em nenhuma situação. Pode cair raio, chuva, granizo, o que for, que a gente não fecha”, conta.

O comprometimento e profissionalismo renderam frutos. Continuando com o sistema de funcionamento 24 horas, os primos inauguraram outra filial a poucos metros, o Fofão Burguer II, e possuem um total de 12 funcionários nas duas lojas, além de quatro motoqueiros próprios e seis terceirizados. O delivery é forte e, para isso, utilizam-se dos recursos mais atuais como Ifood, Uber Eats e Glovo. Sempre atuando nas lojas, Josenildo conta que, apesar de ter percebido uma redução de 45% na quantidade de clientela nos últimos dois anos, ainda há um bom fluxo nas 18 mesas do salão. “Em média, recebemos cerca de 500 pessoas nos fins de semana. Em eventos como Natal ou Reveillón, entretanto, esse número chega a triplicar. Chego a arrecadar o dinheiro do décimo em uma noite. Nessas ocasiões, fico aqui e vou até para a chapa se preciso for”, afirma. 

Com renda mensal aproximada de R$ 12 mil, o empresário nascido em Passira oferece mais de 40 itens do cardápio e tem um público eclético e fiel. “Algumas pessoas vinham aqui quando mais jovens e continuam vindo, só que, agora, trazendo também seus filhos”, conclui. 

CONCORRÊNCIA
A presença do Fofão na área atraiu mais do que o público, desde o início. Do outro lado da avenida onde ele está situado, perto da subestação local da Celpe, fica o Rangos Burguer, um espaço de venda exclusiva de sanduíches e que também tem como característica o funcionamento durante as madrugadas. Abre de domingo a quinta, das 18h às 2h, e às sextas e sábados, das 18h às 5h. O proprietário e administrador do espaço há 29 anos, Vital Pessoa, conta que morava nas proximidades e percebeu, com o sucesso do Fofão e de outros espaços que já fecharam, um interessante nicho de mercado. Entendeu que havia um bom movimento e decidiu investir também. A concorrência com o vizinho “inspirador” não é problema para ele. “De jeito nenhum. Concorrência é algo muito bom para quem sabe trabalhar”, explica. Atuando com cinco funcionários (no início eram dois), tem uma clientela eclética formada, principalmente, por profissionais de saúde que trabalham à noite, taxistas, pintores, além de clientes vindos de festas e eventos.
 
Nomes de sanduíches inspirados em pontos da Torre

Leonardo escutou os pedidos e começou a vender também uma opção vegana para os clientes da sua casa. Foto: 	Nando Chiappetta/DP
Leonardo escutou os pedidos e começou a vender também uma opção vegana para os clientes da sua casa. Foto: Nando Chiappetta/DP


Outro empresário que aproveitou o próprio local de moradia para a abertura de um novo negócio foi Leonardo Melo, do Vila Torre Original Burger. Léo, como costuma ser chamado, morava na casa onde hoje funciona a hamburgueria. “A cozinha atual está localizada no quarto onde vivi a vida inteira”, conta. 

O local funciona até a madrugada (2h de domingo a quinta, 5h às sextas e sábados). A homenagem ao bairro da Torre vai, neste caso, além da localização: os pratos do cardápio são nomeados com nomes de rua e pontos históricos/turísticos locais, como Praça Torre, Cotonifício Capibaribe, Cine Torre, Café Continental, etc. O diferencial buscado pelo proprietário foi a qualidade da matéria-prima e a receita do seu carro-chefe. 

“Percebi que apesar de existirem boas opções na madrugada, faltava algo mais diferenciado. Então, fui buscar as receitas originais dos hambúrgueres e as melhores matérias-primas. Prova disso é que estamos desde o surgimento da casa, há 11 anos, com praticamente os mesmos fornecedores. Isto traz um vínculo mais familiar e traz resultados”, afirma. 

Resultados que vieram em forma de premiações. O Vila Torre foi consagrado como melhor hambúrguer da cidade nos anos de 2014, 2017/2018 pela Revista Veja e vende aproximadamente 700 unidades de sanduíche por semana. Uma novidade recente, elaborada a partir de pedidos dos clientes, é o vegano. “O falafel é produzido fora da empresa e, chegando aqui, toda a preparação é realizada em um ambiente à parte de onde é confeccionado o restante dos pratos”, explica. 

Com média de clientes em torno de 200 a 300 por noite, tem planos de expansão para outra cidade. “Estamos pretendendo abrir uma unidade em Olinda, para onde já vamos, geralmente, durante o carnaval”, conta.
 
O trailer do passado se transformou em duas unidades

Carlos Cavalcanti, dono do Carlitos Burguer, resolveu apostar na lanchonete, em 1993, e abandonou uma cantina de escola particular.
Carlos Cavalcanti, dono do Carlitos Burguer, resolveu apostar na lanchonete, em 1993, e abandonou uma cantina de escola particular.
 

Expansão, aliás, é um assunto que faz parte da vida de outro empreendedor da região: Carlos Costa Cavalcanti, proprietário das duas unidades do Carlitos Burguer. A história da marca conhecida da maior parte dos recifenses começou no ano de 1993, quando o ex-dono de uma cantina, situada em uma escola particular, resolveu seguir os conselhos dos clientes satisfeitos e abrir uma unidade própria: um trailer localizado no final da Rua Senador Fábio de Barros, na Madalena. Em 2013, surgiria a primeira loja nas proximidades da Ilha do Retiro. Dois anos depois, viria a da Torre. Apostando no delivery desde 1995, tem, atualmente, entre 10 mil e 20 mil clientes cadastrados. O objetivo a ser atingido, provavelmente até o fim do ano, é implementar uma unidade apenas para entrega na Zona Sul. “Fazíamos este atendimento anteriormente, mas entregávamos a partir da Zona Norte, onde estamos, e o produto acabava chegando ao cliente sem a mesma qualidade com que tinha sido confeccionado”, afirma.

Cliente este que busca, cada vez mais, o que a empresa oferece: sanduíches artesanais com recheios e adicionais diferenciados, como a cebola no molho shoyu e a variedade de molhos, a exemplo dos de alho e azeitona. “Recentemente, implementamos o sanduíche de carneiro, atendendo a sugestões”, afirma. Com cerca de 4.788 clientes circulando por semana pelos dois estabelecimentos (2.550 na Torre e 2.238 na Ilha do Retiro), Carlos é o típico empreendedor que “põe a mão na massa”, cortando carne e fazendo os molhos na central de produção. “Sinto falta, entretanto, do contato mais próximo com os clientes e passo sempre para os meus funcionários a necessidade de se estar perto deles”, conta.  


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