Especial Seguros Indústrias adotam medidas alternativas para reduzir danos Custo de seguros nas indústrias é considerado alto e, por isso, empresas adotam outras estratégias para reduzir os prejuízos, principalmente, por roubos

Por: Rochelli Dantas - Diario de Pernambuco

Por: Sávio Gabriel - Diario de Pernambuco

Publicado em: 20/10/2018 14:03 Atualizado em: 18/10/2018 21:28

Roubo de cargas é principal fator que faz apólices subirem em Pernambuco. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP
Roubo de cargas é principal fator que faz apólices subirem em Pernambuco. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP

As rodovias, principal meio de escoamento de produção estadual, passaram a ser um furo no orçamento do setor produtivo. Não apenas pela precariedade dos asfaltos, mas pelos números da violência. No ano passado, o número de registros do tipo cresceu 60%. Os constantes roubos fizeram com que os custos com ações preventivas subissem. Com isso, cresceu também o custo do transporte terceirizado, que inclui o valor do frete. De acordo com o presidente da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (Aspa), José Luiz Torres, na maior parte das empresas do setor, o seguro é muito alto para casos de roubo de cargas, que seriam a principal demanda do setor.

“Os caminhões são segurados, mas não a carga. Quando o serviço de transporte é terceirizado a empresa normalmente tem seguro e embute esse custo no valor do contrato. Então, de toda forma, o custo é repassado”, pontua. Segundo ele, já existem algumas rotas que são consideradas mais visadas pelos criminosos, como a BR-101 Sul, a BR-232 e nas proximidades da Arena de Pernambuco. “São trechos conhecidos, que tentamos evitar e que as empresas de transporte já monitoram também”, diz.

Os números de roubos de carga em Pernambuco fizeram os custos com seguros de algumas indústrias dobrarem. É o caso da Masterboi Alimentos. Hoje, o custo mensal com o segmento de distribuição a partir dos frigoríficos, localizados no Norte do país, é de R$ 15 mil, valor que inclui custo de seguros, iscas e seguradora de risco. “A incidência maior de roubo de carga é no Nordeste e Sudeste do país. E nessas duas regiões o destaque fica para Pernambuco e Rio de Janeiro. São os estados com maior risco. Então, as seguradoras cobram um valor por carga e, no caso de entrega nesses estados, o valor sobe porque precisa incluir a isca e a seguradora”, explica o diretor da empresa, Miguel Zaidan.

Segundo o executivo, no caso da Masterboi, o impacto é maior pois 90% da carga vem para o Nordeste. Além disso, desse total, 60% tem Pernambuco como destino. “Para se ter ideia, caso a distribuição fosse realizada apenas em Pernambuco, o custo mensal seria de R$ 100 mil, inviabilizando a operação. Por isso adotamos medidas alternativas com custo menor, como a saída dos caminhões em comboios. O problema é que aí o impacto é na nossa competitividade. Perdemos por conta da insegurança nas estradas”, lamenta.

Medidas alternativas também estão sendo adotadas por outras indústrias pernambucanas. No caso da Karne e Keijo, o custo mensal para ter direito a cobertura da seguradora seria de R$ 25 mil. “No ano passado, tivemos quatro cargas roubadas. Em cada uma o prejuízo foi entre R$ 15 mil, e R$ 20 mil. Então não compensa eu ter esse custo mensal”, afirma o presidente da indústria, Inácio Miranda. Uma das alternativas encontradas está sendo a utilização das chamadas iscas, uma espécie de radar escondido nas mercadorias.

“Botamos dentro das caixas das cargas nos caminhões, assim, em caso de roubo, temos mais chance de recuperar e o custo é de R$ 80 por isca. Hoje eu pago uma média de R$ 3 mil por mês com esses equipamentos”, detalha. Por outro lado, a sede industrial da empresa, localizada no bairro do Barro, possui seguro contra incêndio, uma garantia. “Nesse caso, é um custo que compensa pois é um risco e, havendo, podemos ter prejuízos”, ressalta. A empresa está completando 40 anos e hoje possui cerca de 850 funcionários.

Nas indústrias, outra prática corriqueira é a adesão a seguros devido à contratação de financiamentos para aquisição de maquinários. É o que acontece na Frompet, indústria de pré-forma de garrafa PET, localizada no Complexo Industrial Portuário de Suape. Por ter bens financiados junto a bancos nacionais, a empresa precisou aderir a apólices seguradas. “Nosso seguro tem a vigência do financiamento. Para nós, não é vantagem ter além disso. Sem o financiamento não faríamos porque o risco é baixo. A probabilidade de acontecer um problema elétrico em mais de um equipamento é mínima. Então, para nós, é mais vantagem investir na manutenção e tratar caso a caso”, pontua o controller da Frompet, Fernando Rocha. Segundo ele, a distribuição dos produtos é terceirizada e aí o preço do seguro é embutido no frete cobrado. “Neste caso, a carga tem que ser segurada, mas a transportadora possui o seguro e nos repassa no valor do frete”, explica.

Bicicletas e carros protegidos

Em um mercado onde já se produziu 578 mil bicicletas nos primeiros oito meses de 2018, número 16% maior que o mesmo período de 2017, e onde a projeção é de que até dezembro sejam fabricadas mais 186,5 mil unidades, as empresas de seguros já percebem um aumento na procura por apólices para as magrelas. Fatores como problemas de mobilidade, implantação de  ciclofaixas, entre outros, também têm impulsionado o crescimento desse tipo de seguro. Diretor da Garantia Seguros, empresa pernambucana que atua prestando consultoria para corretores de seguros, Hodson Menezes explica que as emissões de apólices cresceram mais de 50% em 2018.

“No Brasil operam mais de uma centena de seguradoras. Desse montante, apenas meia dúzia opera seguros para bikes. No caso de Pernambuco, três oferecem esse serviço”, explica, destacando que problemas de mobilidade, a procura por uma vida mais saudável, facilidades de financiamento, aumento do número de lojistas que comercializam são fatores que fazem do mercado de bicicletas um setor promissor.

Além das bikes, os seguros de automóveis também continuam em alta. Dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram que, no recorte de janeiro a agosto, o total arrecadado pelas seguradoras, em Pernambuco, passou de R$ 507,7 milhões em 2017 para R$ 554,6 milhões neste ano, o que significa um crescimento real de 5,73%. Gerente da Porto Seguro no estado, Rinaldo Reis confirma a tendência. “No acumulado do ano, já crescemos 12% em Pernambuco, bem acima do mercado”. Muito embora a maioria dos seguros seja comercializada na Região Metropolitana, ele destaca que cidades do interior, a exemplo de Caruaru e Garanhuns, no Agreste, além de Floresta, Salgueiro e a região do Vale do São Francisco têm potencial de crescimento.

Celulares têm procura alta

Cada vez mais sofisticados e caros, os celulares também entraram na mira do mercado de seguros. Muito embora as empresas já ofereçam o serviço há pelo menos uma década, a procura por parte dos consumidores se acentuou nos últimos anos, em pleno período de crise econômica, o que demonstra que o setor passou à margem dos resultados negativos. Segundo a Federação de Seguros Gerais (FenSeg), ao todo, 300 mil celulares foram indenizados no Brasil pelas seguradoras em 2017.  Somente em Pernambuco, houve um aumento de 120,8% no montante arrecadado pela contratação das apólices (prêmios) no comparativo de janeiro a novembro do ano passado com o mesmo período de 2016.

Em valores nominais, as seguradoras arrecadaram, no estado, pouco mais de R$ 5,6 milhões em 2017 contra R$ 2,5 milhões no ano anterior. A tendência também se observou em toda a região Nordeste, já que apenas dois estados (Sergipe e Alagoas) apresentaram retração. Presidente da Comissão de Garantia Estendida e Afinidades da Fenseg, Luis Reis destaca que o Nordeste tem um peso de 13% nos resultados nacionais do setor. “Em 2016, foram vendidos 49 mil seguros nos estados nordestinos, e em 2017 foram 269 mil”, explicou.

Segundo Luis Reis, o aumento da criminalidade, além do custo cada vez mais alto dos aparelhos de celular e da fragilidade dos equipamentos, de modo geral, são fatores que justificam a procura por apólices de seguro. “É um produto que está presente em todas as classes sociais. Além de ser disseminado, é caro e há uma alta dependência, já que as pessoas se comunicam e trabalham com os aparelhos. Se você parar para pensar, está andando com R$ 3 mil, R$ 4 mil na mão, o que faz com que seja um produto visado. Hoje os aparelhos se tornaram caixas de vidro, e, quando caem, o potencial de dano é maior do que antigamente”, diz.


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