ELEIÇÕES 2018 Próximo presidente terá que agir rápido para evitar turbulência na economia Novo presidente deverá enfrentar alta de juros nos Estados Unidos, guerra comercial, valorização global do dólar e precisará implementar agenda consistente de reformas para garantir equilíbrio das contas e tranquilidade aos investidores

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 19/10/2018 08:10 Atualizado em: 19/10/2018 08:12

O próximo presidente da República terá de agir rápido e de forma eficiente para conter os efeitos do cenário adverso na economia global. As tensões comerciais e a elevação dos juros em países desenvolvidos, em especial nos Estados Unidos, devem gerar turbulências nas nações emergentes em 2019. Um dos afetados, o Brasil precisa sinalizar que adotará uma agenda firme de reformas consistentes, que dê tranquilidade aos investidores e ao setor produtivo. Apesar da urgência, os candidatos ao Palácio do Planalto ainda precisam alinhar os discursos com equipes econômicas para garantir a credibilidade das propostas.

O presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, alertou para os perigos do cenário internacional adverso em 2019. Segundo a empresa de comunicação Bloomberg, ele, que é visto como o responsável pelo recente controle da inflação e dos juros, não vai permanecer no cargo no próximo governo. O mercado viu como negativa a informação. O próximo comandante da autoridade monetária terá de encontrar um nome capaz de manter as expectativas ancoradas e minimizar as turbulências vindas do exterior.

Goldfajn entende que o cenário externo será desafiador com o menor apetite ao risco — o que resulta na baixa atratividade de investimentos para o Brasil. A elevação dos juros nos Estados Unidos gera enfraquecimento das moedas emergentes e aumenta o risco para essas nações. Divulgada na tarde da última quarta-feira, a ata do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) foi vista como mais agressiva na direção de alta dos juros norte-americanos, o que repercutiu ontem nos mercados globais, inclusive no Brasil. O presidente do BC defende que a reforma da Previdência Social é um “passo decisivo” para assegurar a confiança na sustentabilidade fiscal e no maior crescimento.

Segundo Lia Valls, pesquisadora-sênior da área de economia aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV), o país não tem condições de se blindar das turbulências externas, mas precisa arrumar a política macroeconômica e continuar com o compromisso do BC de inflação controlada. “Para isso, há necessidade de discussão política e de forma transparente, passando por direitos e benefícios previdenciários e, lógico, sem privilegiar uma classe ou outra, como a dos servidores”, defendeu.

Foto: Arte/CB
Foto: Arte/CB
 

Concretitude 
À frente nas pesquisas de intenção de votos o candidato do PSL ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro, diverge de sua equipe econômica. O militar reformado sofre pressão das bases de apoio, que são conservadoras para temas sensíveis, como reforma da Previdência e privatizações. Por outro lado, Fernando Haddad (PT) enfrenta a resistência no próprio partido, que evita assumir os erros da política econômica adotada durante os últimos anos. O mercado avalia que o candidato do PSL tem mais condições de dar continuidade à agenda de reformas, mas ainda precisa de garantias mais concretas.

De acordo com Ivan Tiago Oliveira, diretor de estudos e relações econômicas e políticas internacionais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil está precisando abrir a economia para melhorar a competitividade e o ambiente de negócios. “É um cenário que vamos ter que ligar. O Brasil é um dos países mais fechados do mundo”, frisa. “É difícil fazer isso unilateralmente, por conta do Mercosul, a não ser que saíssemos como união aduaneira e negociássemos sozinhos com outros países. Mas, para isso, há esse constrangimento legal. Avalio que é preciso implementar essa agenda de abertura ao passo que fazemos as reformas”, completou.

Abertura econômica
Bolsonaro pretende fazer uma ampla abertura econômica, diminuindo as tarifas cobradas dos produtos importados. A medida está sendo estudada pela assessoria econômica do deputado federal, comandada pelo economista Paulo Guedes. Estudos preliminares apontam que isso poderá reduzir, em média, 5% o custo das mercadorias vindas do exterior. Apesar disso, especialistas e o setor produtivo são contra, como já mostrou o Correio.

Na prática, as empresas brasileiras sofrerão com a entrada dos produtos estrangeiros, porque têm custo de sobrevivência muito maior, principalmente por causa da carga tributária. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, entende que o Brasil precisa se integrar mais ao mundo, mas vê que a abertura econômica por canetada “obviamente não é boa”. “Não podemos só tratar sobre a redução de preços. Precisamos abordar todo custo do Brasil que está envolvido. Nosso custo interno fabril não fica diferente do mundo, mas há adicionais como elevados impostos, burocracia infernal, escolta no transporte para garantia de segurança e outros”, disse.

Segundo Pimentel, mesmo que a campanha do candidato do PSL tenha interesse em fazer uma simplificação tributária, reduzir a burocracia e melhorar a segurança, são mudanças que levam tempo para surtirem efeitos. “É muito mais rápido reduzir tarifas com canetada do que passar todas essas reformas prometidas no Congresso Nacional. Por isso, entendemos que precisamos adotar a agenda que já está em curso, que é caminhar para o ambiente de negociações internacionais, como o Mercosul faz com a União Europeia: com clareza das necessidades da nação e não por redução unilateral de tarifas para dar choque de competitividade”, defendeu o presidente da Abit.



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