negócios Neoenergia destinará R$ 10 bilhões contra fraude Empresa faz acordo com a Nokia para implantar rede inteligente que controla aferição de consumo e pode reduzir os chamados gatos e a adulteração de medidores da conta de luz

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 17/10/2018 08:35 Atualizado em:

Subestação de Limeira, da Elektro: as distribuidoras da Neoenergia atendem cerca de 34 milhões de pessoa. Foto: Elektro/Divulgação
Subestação de Limeira, da Elektro: as distribuidoras da Neoenergia atendem cerca de 34 milhões de pessoa. Foto: Elektro/Divulgação
A imagem do funcionário da empresa distribuidora de energia que passa de casa em casa para fazer a leitura do medidor e depois volta para entregar a conta começa a mudar. No seu lugar, surge a tecnologia que permite tanto o controle do funcionamento das redes quanto a aferição do consumo, residencial ou empresarial.

Na terça-feira, durante a feira de negócios em telecomunicações e tecnologia Futurecom, realizada em São Paulo, a Neoenergia, empresa do setor de energia controlada da espanhola Iberdrola, e a finlandesa Nokia, do setor de telecomunicações e tecnologia, anunciaram a assinatura de um contrato para o desenvolvimento de projeto-piloto na área de atuação de uma de suas empresas, a Elektro, concessionária com atuação no interior de São Paulo.

Participaram do evento o CEO da distribuidora de energia, Giancarlo Souza, e o presidente da Nokia para a América Latina, Osvaldo H. Di Campli. A rede privada de banda larga sem fio 4G LTE (tecnologia móvel de transmissão de dados, na tradução do inglês para o português), fornecida pela subsidiária brasileira da finlandesa Nokia, vai conectar todas as tecnologias de rede e os medidores inteligentes de 75 mil clientes e permitirá gerenciar o uso de energia.

Investimento
Na primeira etapa, o serviço será levado a moradores das cidades paulistas de Atibaia, Bom Jesus dos Perdões e Nazaré Paulista. Para isso, serão investidos R$ 110 milhões. Mas o plano da companhia é chegar a uma cifra bem mais alta. Estão previstos R$ 10 bilhões para a troca de 100% de sua rede nos próximos 12 anos, até 2030. Segundo Heron Fontana, superintendente de Smart Grids da Neoenergia, o projeto deve entrar em uma segunda fase dentro de dois a três anos, até chegar a atender aos 228 municípios que fazem parte da área de atuação da Elektro.

Em paralelo com o projeto paulista, a Neoenergia levará a rede inteligente para regiões onde atua por meio de outras distribuidoras de energia. A data ainda não foi confirmada pela multinacional, mas já está definida a implantação do novo serviço nas cidades de Feira de Santana (BA), Caruaru (PE) e Mossoró (RN). No Brasil, a Neoenergia tem a concessão de quatro distribuidoras, com atuação em 16 estados — Coelba (BA), Celpe (PE), Cosern (RN) e Elektro (SP e MS) — e atende cerca de 34 milhões de pessoas – aproximadamente 20% da população do país. A companhia atua nos segmentos de geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia.

Esse tipo de rede inteligente, explica Fontana, permite a redução das fraudes, como os chamados “gatos” e a adulteração dos medidores, em até 80%. “Só não chega a 100%, porque em alguns casos, dependendo da localização, nossos funcionários simplesmente não fazem a leitura do consumo, porque é perigoso e não os expomos a riscos”, diz.

Performance 
Giancarlo Souza, CEO da Elektro, acredita que, no longo prazo, conforme crescer a adoção da rede inteligente, será possível ver efeito também na conta de energia dos consumidores, que poderá ter reajustes menores, à medida que a operação traz eficiência ao negócio. No entanto, esse benefício só deverá ser percebido a partir do momento em que mais usuários forem incluídos no programa e a companhia começar a ter ganho de escala. Influencia ainda a melhora da performance da empresa, conforme o furto de energia diminuir.

Fontana acredita que não deverá levar muito tempo até que esse tipo de inovação se expanda pelo país. Segundo o executivo, isso não ocorreu até agora, porque o setor ainda estava atrelado a uma política de universalização dos serviços públicos de energia. A partir de agora, no entanto, ele aposta que a modernização das redes por meio da conversão tecnológica será cada vez mais comum.

Conectividade
Soluções de conectividade como a que permitirá à Neoenergia saber, de dentro de salas de comando do comportamento de consumo de seus clientes e das condições de suas redes de fornecimento de energia em tempo real, também começam a chegar ao agronegócio brasileiro. Empresas, como Nokia, TIM, Case e Jacto estão trabalhando em conjunto para levar a internet ao campo, possibilitar a leitura e interpretação de dados e aumentar a eficiência das propriedades rurais.

Ontem, a TIM anunciou seu segundo contrato no segmento do agronegócio, desta vez com o SLC Agrícola. A operadora passou a fornecer a cobertura 4G à Fazenda Panorama, em Correntina (BA), que também adotou a tecnologia celular da Nokia. Com isso, a propriedade, de 22 mil hectares, voltada ao cultivo de algodão, passa a poder adotar soluções de IoT (internet das coisas, na tradução do inglês para o protuguês), conectando colheitadeiras, tratores, estações meteorológicas e outros tipos de tecnologia relacionadas à agricultura de precisão.

O primeiro contrato desse tipo foi assinado em abril com a Jalles Machado, que atua no setor sucroalcooleiro, em Goiás. Alexandre Dal Forno, responsável pela área de produtos corporativos e IoT da operadora, está à frente da divisão de negócios “4G TIM no Campo”. Ele explica que, por enquanto, esse tipo de solução atende a demanda de grandes propriedades rurais, já que as coberturas dessa tecnologia são grandes, de no mínimo 22 mil hectares. Com o serviço, a SLC Agrícola passa a conectar 23 máquinas agrícolas e 10 coletores de dados.

Para Dal Forno, a expansão dessa frente de negócio está atrelada ao trabalho em conjunto com outros fornecedores do agronegócio. “É uma forma de termos informações sobre novas oportunidades em um espaço de tempo muito menor”, completa.

Ação integrada 
Durante a Futurecom, esses parceiros montaram um estande que reúne as diferentes possibilidades de conexão da internet das coisas no campo. A Case, fabricante de equipamentos agrícolas, tem atualmente modelos de tratores que fazem o monitoramento da atividade do equipamento.

Com o 4G no campo, esses dados podem ser acompanhados em tempo real pelo dono da propriedade rural por meio da análise de telemetria, explica Gerson Filippini Filho, especialista em marketing de produtos da companhia. A fabricante pode até dar assistência técnica à distância, acessando os dados do trator, por exemplo, enquanto o motorista trabalha no meio de uma grande plantação de soja. “Isso permite que as máquinas sejam usadas por mais tempo, sem o desperdício com manobras desnecessárias no dia a dia ou o tempo que elas ficam paradas para reparo ou manutenção”, diz.

A Jacto, fabricante de equipamentos usados para a pulverização no campo, também tem investido na conectividade. Hoje, a empresa já tem em sua linha de produção pulverizadores com tecnologia para leitura e análise de dados, que mostram a eficiência de uma aplicação de defensivos agrícolas, por exemplo. Mas, a partir do ano que vem 100% de suas máquinas contarão com a tecnologia de telemetria, segundo Gleyson Cortez Perosa, especialista em AP Sênior.

Para que essas tecnologias se comuniquem, as propriedades rurais têm de investir na cobertura de 4G e na antena que fará a captação e transmissão de dados. A partir daí, dados coletados durante o trabalho de vários pulverizadores podem ser transmitidos uns para os outros para evitar que a aplicação de um produto seja feita em duplicidade. Isso representa economia de tempo e de dinheiro.

Esse tipo de solução, segundo Renato Bueno, executivo de marketing da Nokia, tende a crescer e a contar cada vez mais com tecnologias conectadas. “Com 4G, é possível integrar todo tipo de dado, como informações meteorológicas que poderão apontar o melhor momento para a aplicação de um produto, para semear ou para colher. O agronegócio responde por 25% do Produto Interno Bruto brasileiro (PIB, o conjunto da produção de bems e serviços do país). É inegável o potencial”, lembra.


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