Observatório Econômico #FicaTemer

Por: Marcelo Eduardo Alves da Silva

Publicado em: 15/10/2018 03:00 Atualizado em: 15/10/2018 10:03

Após a pior recessão de nossa história (2015 e 2016), em 2017, crescemos 1% e a expectativa para este ano é de crescimento de 1,35%, de acordo com os últimos dados do Boletim FOCUS do Banco Central. É pouco, mas sinaliza que estamos em recuperação. O mesmo pode ser dito com relação ao emprego. Considerando o emprego formal, este parece começar a dar sinais de melhora. Dados da CAGED/MTE mostram que o país fechou agosto com um saldo positivo de mais de 110 mil empregos formais, sendo o melhor número dos últimos cinco anos. A inflação está sob controle e deve fechar o ano abaixo da meta de inflação de 4,5% a.a. Os juros também caíram e sinalizam para um período de calmaria, ao menos, por enquanto. O que esperar dos próximos anos? 
 
A pergunta é difícil de responder, particularmente em um período de elevada incerteza eleitoral. Tudo dependerá do que fará a próxima equipe econômica. O fato é que ou prosseguimos com as reformas necessárias ou caminharemos rumo à deterioração da economia. Exemplos de aventuras populistas não nos faltam, em especial, com rebatimentos sobre a democracia. A Venezuela, a ditadura favorita de alguns, é logo ali. Erros sistemáticos de política econômica, com o típico menosprezo pela simples aritmética fiscal (não se pode gastar mais do que se arrecada), são caminhos rápidos para o abismo.
 
Precisamos prosseguir com o ajuste fiscal e com reformas que aumentem nossa produtividade. No primeiro caso, o principal desafio do próximo presidente será implementar uma reforma previdenciária. Por uma razão simples, os gastos previdenciários já consomem metade do orçamento federal, nossa razão dívida pública-PIB está rumando para os 100% e não estamos gerando os superávits primários (diferença entre gastos e receitas do governo) necessários para estabilizar a dívida pública. Numa linguagem mais simples, estamos no cheque especial e ainda assim continuamos gastando além do que podemos. Detalhe, o problema não está apenas na previdência pública, mas também e principalmente (pelo volume) no Regime Geral de Previdência Social.
 
A equipe econômica atual nos deixará um legado positivo. Fez mais do que o esperado e menos do que gostaria, mas avançou bastante. Com recuperação do PIB, juros baixos e estáveis, inflação sob controle, e um lento ajuste fiscal temos o mínimo para entrarmos em 2019 com esperanças de que ainda há tempo para evitarmos o abismo. Todavia, nada como um governo populista e fiscalmente irresponsável para mudar esse quadro (para pior) rapidamente. Promessas de um mundo maravilhoso, sem sacrifício, já tivemos na eleição presidencial de 2014. “Compramos o paraíso” e nos entregaram a pior recessão da nossa história republicana. A falácia que nos venderam foi de uma pseudocrise internacional, que pasmem afetava apenas o Brasil! 
 
O mais interessante é não ver os responsáveis pela última crise (e quase sempre por todas as outras) apresentarem um mea culpa, admitindo os erros e propondo uma reconciliação com a boa ciência econômica e com a boa e velha aritmética.  Muito pelo contrário, continuam a assessorar candidatos que nos prometem maravilhas, a volta a um passado glorioso, ignorando os erros do passado e os prejuízos gerados.  É por essas e outras razões que já estou com saudades da equipe econômica atual. Acho que vou aderir à nova moda nas redes sociais #FicaTemer. 

* Professor do Departamento de Economia da UFPE.


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