Gestão Líder 4.0: principal virtude é escutar É fundamental contar com pessoas que saibam não só falar bem, mas ouvir no ambiente de trabalho

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 14/10/2018 10:41 Atualizado em:

Muito se fala sobre a importância das habilidades socioemocionais ou comportamentais, aquelas que não dependem de conhecimento ou técnica, mas da atitude. Mas você sabia que entre as competências mais desejadas nos funcionários pelos empregadores está a “escutatória”? Quase 20 anos depois de o neologismo ter sidos criado pelo escritor, psicanalista, teólogo e professor brasileiro Rubem Alves, cresce o número de empresas que tentam estimular líderes a desenvolverem a capacidade de ouvir no ambiente corporativo. Instituições que antes eram adeptas do ditado “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, identificaram uma nova necessidade antes da tomada de decisões importantes: escutar sem preconceitos e considerar as opiniões do máximo possível de colaboradores.

Mais do que persuadir os funcionários a aceitarem o seu ponto de vista em todas as situações, o gestor moderno deve se abrir para visões diferentes sobre produtos, estratégias ou mesmo questões administrativas internas da companhia. É claro que esse tipo de habilidade é considerada importante também em empregados fora de cargos de gestão — afinal, um empregado que não se abre para o que os outros dizem terá mais dificuldade de aprender algo, conviver em equipe e até de melhorar o próprio desempenho. No entanto, esse tipo de atributo é ainda mais primordial entre líderes, a fim de que eles estimulem o hábito de ouvir  os demais colaboradores. É do chefe que devem partir as iniciativas para um ambiente mais democrático, aponta Jacqueline Resch, certificada em práticas de colaboração e diálogo pelo Taos Institute.

“O líder não é mais aquele que tem todas as soluções. Ele deve compreender por que o outro pensa diferente, evitar prejulgar antes de ouvir”, ensina. Para Susanne Andrade, consultora de pessoas e desenvolvimento humano, os chefes precisam focar menos em comandar e mais em ouvir os subordinados. “Muitas empresas querem lideranças mais humanizadas e servidoras, líderes que ouçam e gerenciem por meio de perguntas, em vez de impor”, afirma. Segundo ela, o mercado de trabalho caminha para uma metodologia mais colaborativa do que competitiva. De acordo com Jacqueline, psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), a empresa ganha em resultado com o debate de ideias.

“Durante a discussão podem ser levantados prós e contras que, em princípio, o líder não enxergou. Ao se considerarem as várias perspectivas de uma mesma questão, provavelmente se chega a uma decisão melhor”, acredita. Se o gestor age de maneira autoritária e não promove a “escutatória”, a entidade em que ele trabalha pode sofrer duras consequências: perda da capacidade de retenção de talentos e inovação, diz Jacqueline, que fez MBA em gestão pelo Instituto Coppead de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Se a empresa não escuta as pessoas, os mais jovens não querem trabalhar nesse local, porque eles querem ser ouvidos e participar. Além disso, como você vai inovar se não leva em consideração pensamentos diferentes? É necessário ter funcionários que tragam ruptura para pensar em outras alternativas”, aconselha, a sócia da Resch RH, consultoria em recursos humanos.

Gerações
Na White Martins, empresa de produção e comercialização de gases industriais e medicinais, representante da Praxair na América do Sul, modelos mais inclusivos de comunicação ganham espaço ao mesclar funcionários experientes e jovens. É o que relata a diretora de talentos e comunicação em RH na empresa, Cristina Fernandes, 48 anos. Ela cita uma das vantagens da “escutatória” que ela tem sentido na organização. “Dar voz a pessoas de todas as gerações, que têm bagagens diferentes, faz com que elas se motivem mais a entregar o melhor para a empresa”, afirma.

Pós-graduada em marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Cristina conta que a companhia onde trabalha tem promovido treinamentos de liderança com valorização de diversas competências, entre elas o hábito de escutar. 

Como ter um discurso eficiente

A demanda crescente de empresas por profissionais que saibam escutar torna o ambiente corporativo mais aberto às opiniões dos colaboradores. Mas isso não exclui a necessidade de que os trabalhadores, especialmente gestores, dominem a persuasão e saibam se comunicar bem com os funcionários e o público externo. Uma boa oratória é fundamental para os chefes não prejudicarem a organização.

“Sobretudo nas empresas mais tradicionais e de grande porte, ainda existe espaço para esse tipo de líder, persuasivo e ativo”, afirma Jacqueline Resch. Dados de uma pesquisa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa revelam um problema grave na comunicação dos brasileiros: apenas 8% das pessoas de 15 a 64 anos são capazes de se expressar de forma plena.

Assim, muitas empresas padecem não pela falta de conhecimento técnico ou de experiência dos gestores que estão à frente do negócio, mas porque esses não estão capacitados para se comunicarem. As consequências de um discurso malconduzido vão desde a falta de transparência nas informações internas da empresa, passando por falta de clareza e mal-entendidos ao passar tarefas, até a perda de oportunidades com os clientes e outras instituições que atuam na mesma área.

“100% das empresas têm algum problema de comunicação, seja internamente, seja na condução do negócio junto aos clientes”, afirma Sandra Rossi, sócia-proprietária da Verte,  consultoria de engajamento.

Um bom sinal de que existe progresso é quando as informações são compreendidas por todas as pessoas envolvidas no diálogo ou em reuniões da equipe. “A comunicação só ocorre quando a pessoa entende realmente aquilo que eu passo. Senão, é apenas uma passagem de informação. Quem fala e quem ouve devem entender em nível igual”, diz Susanne Andrade, coach pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC).


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