Observatório Econômico Novo presidente, velhos problemas

Por: Fernando Dias

Publicado em: 08/10/2018 03:00 Atualizado em: 09/10/2018 09:01

O alvorecer de 2019 será com um novo presidente, e é certo que ele será um representante entre os que polarizaram a escolha nestas eleições. De esquerda ou de direita, o fato é que o novo presidente não vai ter vida fácil nem no ambiente político nem no econômico. No que se refere à economia a análise de ambas as propostas revela uma escolha entre a incerteza do sucesso e a repetição de uma estratégia fracassada, o que é muito ruim considerando que o país passou por dois anos de severa recessão e encontra-se em uma recuperação a marcha lenta.

Isto decorre do desconhecimento dos problemas nacionais? As propostas são pouco claras em função das incertezas do que se vai enfrentar? Longe disso, o diagnóstico dos problemas econômicos brasileiros já é tão conhecido que poderia até fazer parte de livro texto do primeiro grau. A saber, nossos problemas se baseiam em baixa produtividade, baixo investimento devido a poupança insuficiente e deficiência nos mecanismos de financiamento, custo e mecanismos de financiamento do déficit público, instituições deficientes, deficiência de capital humano, desigualdade social extrema e infraestrutura insuficiente, só para citar os principais.

De nada adianta tapar o sol com a peneira, nem trocar a peneira de lado, pois os furos continuarão lá. Negar o problema ou escondê-lo na base da pedalada também não resolve nada e apenas fragiliza as instituições ao mesmo tempo que eleva a percepção de risco do mercado quanto ao comportamento do agente público. E o fato é que as propostas que estão sendo postas à mesa estão mais para “boas intenções” que plano de ação, e boa intenção não resolve problema de gestão.

Considere-se, por exemplo, as propostas consideradas “de esquerda”. Não precisa de muita análise para entender que elas podem ser resumidas da seguinte forma: a elevação dos gastos públicos ira reativar a economia, gerando emprego renda, e o efeito deste crescimento sobre a arrecadação aliado a elevação dos impostos sobre os donos das empresas irá financiar o aumento do gasto, a redução do déficit público e resolverá a questão previdenciária. Não parece fazer muito sentido, estamos com um tremendo déficit público com alto custo de financiamento, economia em marcha lenta, com 60% do orçamento da União travado em previdência e folha, e a proposta é sobretaxar o lucro e aumentar o gasto? O intervalo para isto funcionar é bem exíguo e as experiências neste sentido no Brasil (Getúlio, JK e Dilma) resultaram todas em combinação de recessão e inflação destarte os resultados positivos de curto prazo.

E as propostas da assim considerada “direita”? Estas combinam elementos que os mercados consideram positivos, como o controle do déficit público com corte de gasto e redução do Estado, melhoria do ambiente produtivo através da reforma trabalhista e ações no sentido de conter o déficit previdenciário. Porém, importante ressaltar, todos estes elementos são colocados como intenções e há vaga indicação de como eles serão de fato implementados. Há, e isto é reconhecido tanto por analistas nacionais quanto internacionais, um evidente risco de as mesmas serem implementadas de maneira insuficiente, inadequada, ou mesmo nem serem implementadas, e isto só olhando para o lado econômico do novo governo.

Resta evidente que a polarização que tomou conta da agenda política brasileira nos últimos anos deve produzir o pior de dois mundos. Qual deles iremos ter de enfrentar?

* Professor do Departamento de Economia da UFPE


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