Agronegócios Alta do dólar impacta bacia leiteira Produtores nacionais de milho e soja viram na exportação o melhor caminho para o lucro mas medida desabasteceu o mercado interno e elevou matéria-prima

Por: André Clemente - Diario de Pernambuco

Publicado em: 22/09/2018 09:00 Atualizado em:

Preço da ração, que é basicamente feita de milho e soja, teve alta, que está sendo repassada ao consumidor. Foto: Teresa Maia/DP (Foto: Teresa Maia/DP)
Preço da ração, que é basicamente feita de milho e soja, teve alta, que está sendo repassada ao consumidor. Foto: Teresa Maia/DP
O leite está mais caro no supermercado e a causa é real. A agropecuária local, que movimenta mais de mil criadores de gado leiteiro em Pernambuco, foi prejudicada por diversos problemas de ordem econômica e climática, que elevaram os custos de produção. O mais claro dos entraves diz respeito à alta do dólar, que favoreceu a exportação de mercadorias brasileiras e tirou de circulação interna boa parte da matéria-prima da ração animal, que é basicamente feita de milho e soja e trazida do Centro-Oeste. Com menos oferta, o preço sobe. O movimento paralelo de produtores locais de plantar milho por aqui foi frustrado pela falta de chuvas, outro ônus para o bolso de quem tem que manter a nutrição animal em dia para produzir leite.

De acordo com o presidente da Sociedade Nordestina de Criadores, Emanuel Rocha, a conta não está fechando. “São efeitos que prejudicam demais os custos. As ações para amenizar o quadro ajudam, mas ficam longe de resolver a situação. A alta do dólar deixou o mercado externo muito mais favorável e tirou uma parte grande do que abasteceria a gente. É o que está acontecendo com os produtores de milho e soja. Essa diminuição do que fica para o mercado nacional faz o preço subir e a gente ainda depende basicamente do que vem do Centro-Oeste”, pontuou.

No começo do ano, o preço da saca de milho custava pouco mais de R$ 50 e hoje custa R$ 75. No caso da soja, o preço saiu de R$ 60 para R$ 83 atualmente, com tendência de mais alta, segundo Emanuel Rocha. “Acredito que vai passar dos R$ 100 a saca da soja. A situação vai entrar em desequilíbrio grave. O aumento deve continuar justamente porque o que ainda chega por aqui é o fim dos estoques dos produtores de outros estados. E é um aumento que não dá para repassar no preço do leite, porque não tem demanda. Hoje a gente já não repassa todo, imagine quando chegar a esse nível”, ressaltou.

O que tem amenizado a situação do produtor rural é a oferta do milho da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que chega ao produtor pelo preço de R$ 33 a saca. “Em Pernambuco, o governo do estado isenta do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Isso faz o preço ficar abaixo do mercado e nos ajuda. Mas a quantidade é muito baixa e acaba em dias, e acaba não tendo grande representatividade para reverter a situação”, disse.

Segundo ele, no começo do ano, foi iniciado um movimento de produtores pernambucanos para produzir milho aqui em uma quantidade maior, mas as chuvas que pareciam chegar não vieram. “Até abril, pelo que já tinha chovido, a gente tinha expectativa de bom inverno, com previsão de chuvas boas. Plantamos e a chuva não veio. Abril, maio ruins e até junho, que historicamente é um mês muito bom de chuvas, frustrou novamente. Julho completou o desastre e o nosso inverno na verdade foi mais um ano de extensão da seca. Perdemos tudo”, detalhou.

Para o futuro, o presidente Emanuel Rocha espera que o novo comando do executivo nacional tenha atenção com o agronegócio, pela resposta que vem dando nos anos de crise. “O país está parado e o agronegócio lutando e respondendo. É o agro que vem sustentando o PIB deste país há mais de cinco anos. Seria muito pior sem o agronegócio. Aqui em Pernambuco, por sinal, os maiores crescimentos vêm da agropecuária dentre os setores que compõem o PIB. Isso mostra que a gente está com disposição e que qualquer ajuda que melhore o ambiente de negócio do campo tem resposta favorável”, reforçou.



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