negócio Robôs fazendeiros cuidam do leite à inseminação da vaca Como uma propriedade no interior da Holanda transformou um pequeno negócio familiar em uma das maiores produtoras do país. Experiência pode servir de exemplo para o Brasil

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 19/09/2018 07:51 Atualizado em: 19/09/2018 07:53

Fazenda da den Elder, na Europa, investiu na automação do processo de produção de leite com ganho de 10%. Foto: Paula Pacheco
Fazenda da den Elder, na Europa, investiu na automação do processo de produção de leite com ganho de 10%. Foto: Paula Pacheco

Well (Holanda) — Ernst van der Schans, de 62 anos, transformou uma fazenda familiar, especializada em produção de leite, em uma das maiores propriedades do gênero na Holanda. Mas, em vez de as contratações crescerem ao longo dos anos, ocorreu o contrário. O produtor rural optou por se associar à tecnologia para melhorar seus ganhos e seguir em expansão.

Dono da den Eelder, especializada em produção de leite e derivados, vendidos para grandes redes de supermercado da Holanda, mas também, em menor volume (1%) para a Espanha e Curaçao, Schans trocou parte do trabalho feito por humanos pela robotização de sua operação. Os robôs atuam em várias frentes, desde o empacotamento do feno que será usado para a alimentação animal até na linha de envaze e de fechamento das caixas com leites, iogurtes e manteiga que seguirão para o varejo.

Schans assumiu a atividade agrícola em 1983, pouco depois da morte do pai, que também era fazendeiro. Foi um período difícil e ele decidiu investir com a expectativa de conseguir suprir as necessidades financeiras da família. Depois, o empreendedor se casou e teve três filhos. Todos fizeram faculdade e hoje trabalham, direta ou indiretamente, na den Eelder.

Falta de pessoal
Os primeiros robôs chegaram à den Eelder há seis anos. A decisão foi tomada porque o empreendedor sentiu dificuldades na contratação de mão-de-obra para a ordenha. Com 500 vacas e 300 bezerros, a fazenda é considerada grande para os padrões holandeses, onde predominam propriedades menores, com menos animais.

Robô faz ordenha com controle da temperatura e transmite dados do animal para central computadorizada. Foto: Paula Pacheco
Robô faz ordenha com controle da temperatura e transmite dados do animal para central computadorizada. Foto: Paula Pacheco


Hoje, só na parte de ordenha, estão em operação oito robôs. Cada um, acoplado a computadores que apontam em tempo real as características do animal, custa 1,5 milhão de euros (algo como R$ 7,2 milhões). O equipamento mais recente chegou há um ano e foi instalado em uma segunda área para os animais, com investimento total de 1,6 milhão de euros. A tecnologia foi financiada em um prazo de dez anos. A produtividade é 10% maior do que no caso da ordenha manual.

Todo o processo para a retirada do leite não precisa de contato manual. O equipamento desinfeta as tetas da vaca, identifica por meio de luzes de infravermelho onde os sugadores devem se fixar e faz a extração do líquido. Os animais ficam tão tranquilos com a operação de ordenha mecânica que fazem fila para passar pelo ritual – claro, são agradados com ração e por uma máquina que relaxa os bovinos com uma grande escova que faz uma espécie de massagem nas costas.

Ganhos
Mas os robôs da fazenda de Schans fazem mais do que ordenhar os animais. Por meio do auxílio de transmissão de dados por antenas, eles conseguem ler informações de colares eletrônicos instalados nos pescoços dos bovinos e saber se a temperatura do leite é a adequada – tem de ser de 37 graus para obter as melhores características –, e até qual é o ápice do período fértil da vaca, que dura no máximo quatro horas. Com isso, as tentativas de fertilização caem de três a quatro para uma a duas por animal. Parece apenas um detalhe, mas na ponta do lápis essa assertividade vai resultar em economia. Cada amostra de sêmen custa, em média, 12 euros. Com 500 vacas leiteiras, os ganhos podem ser relevantes no total da operação da fazenda.

Assim como no Brasil, o lucro na produção de leite é baixo, em média de 5 centavos de euro por litro. A produção da unidade rural é de 16 toneladas de leite por dia (ou algo como 15,5 mil litros). Em uma conta superficial, por dia a fazenda rende a Schans em torno de 777 mil euros.

Apesar da quantidade de animais e da fábrica de laticínios, a propriedade gera poucos empregos. Ao todo, são 35 funcionários — apenas sete trabalham na fazenda. Durante a visita, a reportagem não viu nenhum funcionário nas duas áreas de confinamento dos animais, nem mesmo no controle dos computadores. A operação é 100% autônoma.

Holambra
Em 2016, Schans conheceu o Brasil, acompanhado de um grupo de produtores rurais. Além de São Paulo, o fazendeiro visitou Holambra – cidade no interior paulista onde vive uma grande comunidade de holandeses, especializados no cultivo de flores e plantas, que abastecem o varejo de todo o país. “Foi muito interessante ouvir as histórias de quando eles desembarcaram no Brasil e quantas dificuldades enfrentaram no começo”, lembra.

Schans prefere não definir uma data, mas diz que pretende aumentar a mecanização de sua fazenda de leite. “Isso tem ajudado no bem-estar das vacas”, garante o empreendedor. Novos robôs também deverão ser acrescentados à fábrica de laticínios, que começou a produzir em 1999.

Robôs no Brasil
A Lely, fabricante dos robôs usados por Schans na ordenha das vacas, também tem negócios na América do Sul, em particular no Brasil, segundo Evert Niemeijer, gerente da companhia. De acordo com o executivo, um dos produtores brasileiros adquiriu quatro equipamentos. Também há robôs no Chile e no Uruguai – são 30 em território sul-americano.

A Lely tem um escritório de representação em Carambeí, no Paraná. Além dos desenvolvimentos robóticos, feitos na Holanda, também investe em softwares de gestão de fazendas produtoras de leite. No ano passado, essas duas áreas de atuação apresentaram um crescimento de 12%. O desempenho foi graças principalmente aos mercados da América do Norte e Japão. Em 2018, a companhia chega aos 70 anos de fundação e pretende manter os investimentos em pesquisa e desenvolvimento para aumentar a oferta de produtos e de inovações. A estimativa é colocar 6% da receita em P&D.

O principal argumento, segundo o executivo, é a queda do preço do leite. Mas, segundo Niemeijer, outro apelo cada vez mais relevante é o tratamento mais amigável dado aos bovinos com o uso de robôs. “O mercado pede por esse tipo de cuidado e respeito e está disposto a pagar por isso”, garante.

Em 2017, de acordo com Niemeijer, foram comercializados pela companhia 300 robôs como os que Schans tem em sua fazenda. Crítico dos produtores chineses, que conseguem exportar leite e derivados a preços mais competitivos porque usam mão de obra remunerada segundo os padrões do país asiático, o executivo da Lely garante que equipamentos como o que vende são à prova de contaminação. “Ninguém acredita na produção leiteira dos chineses, que é manual. Com o tempo, os robôs também serão a solução para eles”, avalia.

Para Niemeijer, a mecanização deverá avançar cada vez mais nesse segmento, tanto por causa das exigências sanitárias cada vez mais rigorosas quanto por conta da necessidade de buscar ganho de produtividade. Mas essa aposta do executivo da Lely pode esbarrar, em mercados como o brasileiro, na insuficiência de linhas de crédito para o financiamento dos robôs. Ainda mais quando se trata de um mercado dominado por pequenos produtores, quase sempre com dificuldades de obtenção de recursos nos bancos.

* A jornalista viajou a convite da Agência de Investimentos Estrangeiros da Holanda (NFIA)


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.