Observatório Econômico O Hellcife sofre com as boas intenções

Por: Fernando Dias

Publicado em: 27/08/2018 03:00 Atualizado em: 28/08/2018 09:20

Recife, a capital de Pernambuco, recebe por vezes e carinhosamente a alcunha de Hellcife por seus moradores, uma alusão ao forte calor que predomina por estas partes no verão... no outono... na primavera e, por vezes, também no inverno. Apesar de certo exagero dos nativos, e basta visitar as também capitais Teresina e Palmas para ter a evidência, o Hellcife assim como o inferno está cheio de boas intenções. Ou boas ideias, para ser mais preciso. Região sempre marcada por sua postura engajada e mesmo revolucionária, o Recife é um celeiro de boas ideias que terminam por atazanar a vida de seus moradores e, no fim, piorar a vida de todos.

São muitos os exemplos e quase sempre ligados a políticas públicas que deveriam, em tese, melhorar a vida das pessoas. Podemos começar pelo estacionamento da Joana Bezerra, concebido para receber os milhares de carros das pessoas que passariam a ir ao centro de metrô. Mas, no centro só tem uma estação de metrô e o estacionamento ficava no meio de um descampado! E as balsas? Um sistema para trazer ao centro via rio Capibaribe o fluxo de passageiros que parte da BR 101. Não passou da dragagem, em um projeto que passava pelos bairros que mais geram carros nas ruas e não parava para pegar ninguém. O BRT? Retalhos deste projeto podem ser encontrados por toda a região metropolitana e, quem sabe, um dia irão se encontrar.

No plano urbanístico não é diferente e exemplos de boas ideias não faltam. De um cais que se prefere abandonado a urbanização de margens de rio para os ricos levarem seus cães para passear, de tudo pode ser encontrado por aqui. A última boa ideia que surgir é o confisco de prédios abandonados com mais de cinco anos de IPTU atrasado. O foco é o centro da cidade, mais especificamente o Recife Antigo, onde decisões brilhantes do IPHAN incentivam os proprietários a deixar os prédios ruírem, escorando apenas as fachadas. A princípio parece uma boa ideia, mas há várias considerações que podem não estar sendo consideradas, e o passado condena nossos planejadores.

O que fazer, por exemplo, com os prédios? E quem vai pagar por isso? Ideias já surgiram, do tipo o Estado recupera o prédio e transforma em moradia social. É uma grande ideia, você pega um prédio em uma área histórica, tombada, e destinada negócios da área de serviço, e aí você reforma o prédio respeitando as normas de restauro e transforma ele em moradia social para uma família que não tem empregabilidade na área. O bolso da viúva realmente não tem fundo. E o que acontece quando o prédio vale mais que cinco anos de IPTU? Afinal, teoricamente o IPTU não é 20% do valor venal do prédio, e pode acontecer de ser vantagem para o proprietário abandonar o prédio e deixar de pagar o IPTU para “vender” para a prefeitura.

Exagero? O Iphan andou tendo ideias brilhantes nos últimos anos e os proprietários do Recife Antigo deixaram os prédios ruírem para só anos depois haver condições de reformar, podendo dar uso viável as edificações. O clamor popular por “bons projetos” no Cais José Estelita vem mantendo a área abandonada por décadas, e assim deve continuar.

O grande problema com o celeiro de boas ideias é que as mesmas parecem ter sempre os mesmos pressupostos que os demais agentes sociais não reagem, e que o bolso da viúva não tem fundo. Enquanto o momento em que as boas ideias forem postas na mesa acompanhadas dos custos, das opções de financiamento e de uma avaliação das reações e consequências que elas trarão a todos os agentes o que teremos serão apenas boas intenções. E como dito antes, de boas intenções Hellcife está cheio.

* Professor do Departamento de Economia da UFPE

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