DP NOS BAIRROS Comércio de frutos do mar no DNA de Brasília Teimosa A atividade pesqueira está intimamente ligada até mesmo à ocupação da comunidade de Brasília Teimosa em seu surgimento no meio do século passado

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 24/08/2018 07:42 Atualizado em: 24/08/2018 07:56

Foto: Bernardo Dantas/DP/D.A PRESS
Foto: Bernardo Dantas/DP/D.A PRESS
Um local cujo nome é também adjetivo e símbolo. De resistência, de luta...ou teimosia, como quiseram chamar os que assim denominaram o bairro pernambucano com alcunha de capital federal. Brasília Teimosa, considerada uma das mais antigas “invasões urbanas” do Recife, surgiu da ocupação de uma área denominada Areal Novo no final dos anos 1940, começo dos 1950. Diz a história que a localidade destinava-se à construção do Parque de Inflamáveis do Porto do Recife, fato que nunca aconteceu. Assim, o terreno ficou em litígio e, consequentemente, foi invadido. No que se refere ao comércio local, a chamada teima é aliada à geografia: situada na Zona Sul do Recife, entre os bairros do Pina, Boa Viagem e área do Porto, Brasília Teimosa é uma linha contínua de recifes paralela à costa e bem próxima à praia. Daí, o comércio de frutos do mar estar, desde o seu surgimento, no DNA do bairro.

É em Brasília Teimosa que está localizada a mais antiga Colônia de Pescadores de Pernambuco, a Z-1 (daí o dígito). Segundo o presidente da instituição, Augusto Lima, o seu Neno, ela surgiu em 1920, criada por um grupo de pescadores oriundos das Matas Norte e Sul em busca de trabalho, após o declínio da indústria açucareira. “Eles montaram uma palhoça no bairro do Cabanga e passaram a comercializar o produto na área metropolitana. Depois de algum tempo, foram para Boa Viagem e, finalmente, fincaram raízes em Brasília Teimosa, onde nossa sede foi construída”, explica.

Atualmente, a colônia possui cerca de 2 mil pescadores associados, desses 600 são mulheres. “O número total de profissionais atuantes na área permitida em Pernambuco - a região costeira entre Olinda e Jaboatão, com seus vários braços de rio, bifurcação e bacia estuária – entretanto, é praticamente o dobro disso. Quase 2 mil pescadores na informalidade”, informa.

Todos esses trabalhadores são responsáveis por um quantitativo de, pelo menos, 4 a 5 mil quilos de produtos pescados por dia, entre peixes, mariscos e moluscos. No período entre meados de março a final de julho, contudo, esta produção costuma ser reduzida em até 40%, devido à baixa salinidade e consequente redução de oxigênio nas águas. Esse quantitativo é, em sua maioria, 70% comercializado diretamente por eles em mercados, residências e pequenos comércios locais. Os outros 30% vão para as mãos dos intermediários que os distribuem em frigoríficos e restaurantes. “Precisamos deles porque não temos condições adequadas de transporte e estocagem”, explica.

A renda mensal do pescador é de, aproximadamente, 1,5 salário. A Colônia não possui fins lucrativos e funciona como um sindicato de representação social, buscando resolver questões como documentação dos associados e de lutas por segregação de território. Cada associado contribui com R$ 10 por mês, mas, atualmente, apenas 35% dos sócios oferece esta contribuição, efetivamente. Seu Neno define a vida de pescador na Brasília Teimosa. “Tenho orgulho de fazer parte desta classe, de ser quem sou, apesar de todos os problemas e opressões por qual passamos. Nossa missão, entretanto, é de luta e sobrevivência”, conclui.

O destino final: os restaurantes

Uma suculenta e bem temperada moqueca ou o celebrado camarão em suas mais diversas formas de preparação não é coisa que falte a quem procura qualquer um dos aproximadamente 30 restaurantes de Brasília Teimosa. O bairro possui longevos representantes da culinária litorânea, como o Império dos Camarões, com 44 anos de existência, além de famosos como o Bar do Cabo, com seus pratos à base de polvo, indicações em premiações especializadas e participação em festivais como o Comida di Buteco.

O comerciante Urik da Silva, 31, atua há 20 anos na comunidade de Brasília Teimosa. Seu estabelecimento, o Bar do Peixe, é um dos mais concorridos da região. Antigamente situado na parte mais interior do bairro, desde a construção da orla mudou-se para lá. Com cinco funcionários fixos e mais três contratados de acordo com a demanda – todos familiares de Urik –, atende, geralmente, um público variado que, no fim de semana, vai de 100 a 120 clientes por dia. Urik obtém seu pescado – aproximadamente 200kg por mês - diretamente do barco do seu pai, atualmente pilotado por pescadores mais jovens. Embora há três anos tenha vivido tempos melhores, chegando a atender quase 250 clientes em cada dia dos fins de semana, continua acreditando que vale a pena estar na profissão. “Estou nesse ramo há muito tempo, me dou bem com o público, conheço bem minha clientela. São parte da minha vida”, afirma.

André Luiz Araújo, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – Abrasel PE, lembra uma época áurea, por volta dos anos 2000, de grande fluxo de consumidores. “Um momento de crescimento econômico e aumento do poder de consumo nas classes C e D, que caracterizam o bairro”, conta. 

Os restaurantes investiram, qualificaram-se e atraíram também o público que não era local para um ambiente com localização privilegiada à beira-mar. “Recebíamos pessoas que viam de outros estados, diretamente do aeroporto, para os estabelecimentos”, explica. 

André faz um panorama dessa trajetória de 20 anos. “Há uma série de fatores que promoveram o fechamento de vários restaurantes, tais como problemas de esgotamento sanitário, falta de investimento, crise econômica, etc. Temos, entretanto, uma comunidade extremamente politizada, de pescadores que lutam e reivindicam seus direitos. Há a resistência em manter essa cultura em uma região com excelentes profissionais da gastronomia que trabalham com muita originalidade, esmero e sabor”, afirma.


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