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Consumo Despesas básicas sobem mais que a inflação e tiram R$ 14,5 bi do consumo De janeiro de 2015 para cá, o porcentual de renda disponível - depois do pagamento de despesas essenciais - atingiu o menor patamar desde 2009

Por: AE

Publicado em: 15/04/2018 08:43 Atualizado em: 15/04/2018 09:15

A escalada dos preços da energia elétrica e da gasolina, acima da inflação, tem corroído o orçamento das famílias brasileiras, apesar do aumento da massa salarial. De janeiro de 2015 para cá, o porcentual de renda disponível - depois do pagamento de despesas essenciais - caiu quase dois pontos porcentuais, de 45 6% para 43,76%. É o menor patamar desde 2009. Isso significa que o brasileiro poderia estar consumindo, a mais, algo em torno de R$ 14,5 bilhões.

Levantamento da Tendências Consultoria Integrada mostra que a despesa que mais avançou sobre o orçamento do brasileiro foi a gasolina, que subiu de 4,86% para 5,6% no período. O resultado é reflexo especialmente da nova política de preços da Petrobrás, que agora repassa de forma imediata o sobe e desce do petróleo no mercado internacional.

De meados do ano passado até o início deste ano, o preço do combustível na bomba subiu 19,5%. Em janeiro de 2015, o litro da gasolina era vendido a um preço médio de R$ 3,032 no País; neste mês, o valor está em R$ 4,219, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP).

A conta de luz seguiu a mesma trajetória. O peso na renda das famílias subiu de 2,94% para 3,44%. O agravante é que até o fim do ano a participação no orçamento vai aumentar ainda mais, segundo projeções da Tendências: deve subir para 3,89%. A explicação está nas estimativas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que prevê reajuste médio acima de 10% nas contas neste ano. Em alguns casos, a alta deve superar a casa dos 20% por causa da entrada em operação de usinas térmicas para compensar os reservatórios baixos das hidrelétricas.

O orçamento das famílias, segundo a Tendências, só não está mais apertado porque o arrefecimento dos preços dos alimentos tem compensado parte do aumento da conta de luz, da gasolina, do gás de cozinha, dos planos de saúde e da educação. Além disso, a renda do trabalho voltou a crescer em 2017 e continua ascendente diz a analista da Tendências, Isabela Tavares.

Na prática, a queda dos porcentuais representa um freio para a retomada da economia. O ritmo do avanço do consumo poderia estar maior, diz o economista Adriano Pitoli, sócio da Tendências.

Ele destaca que, para ajustar os aumentos à renda, o brasileiro acaba reduzindo o consumo de bens e serviços considerados supérfluos, como vestuário e bens duráveis. Em fevereiro, as vendas do varejo caíram 0,2% - o pior resultado para o mês desde 2015 -, e um sinal de que a recuperação será mais lenta do que se esperava.

Em três anos, o peso de quase todos os itens essenciais aumentou no orçamento das famílias. As exceções foram alimentos, cuja participação caiu de 16,15% para 15,8%, e telecomunicações, de 4 20% para 3,64%. 

Pressionada, família muda hábito de consumo

Com filhos gêmeos de 8 anos, a paisagista Luciana Almeida sentiu na prática o aumento do peso da educação no orçamento das famílias. A mensalidade da escola em que estudavam subiu cerca de 15% em dois anos e Luciana precisou mudá-los para uma mais barata. "Agora, pagamos R$ 1.000 a menos de cada um", conta. Segundo o levantamento da Tendências Consultoria Integrada, a participação dos gastos com educação nas despesas totais das famílias passou de 4,59% no início de 2015 para 4,82% neste ano.

Além trocar a escola das crianças, Luciana e o marido também tiveram de mudar alguns hábitos. A família deixou de almoçar e jantar fora todos os fins de semana e passou a cozinhar em casa - restaurantes ficaram para ocasiões especiais. Também trocou as idas ao cinema pelos parques e reduziu os presentes que dava a amigos e familiares. A paisagista ainda parou de ir à manicure e seu marido assumiu o cargo de síndico do condomínio para não pagar a mensalidade e reduzir os gastos com habitação.

O aumento do preço da gasolina foi outro item que pesou no orçamento da família de Luciana nos últimos anos. A paisagista faz, desde 1999, um controle completo da renda e das despesas da casa e, de acordo com sua planilha, os gastos com combustível, seguro de dois carros e IPVA avançaram quase 25% desde 2015.

Diante dessa alta, Luciana e o marido optaram por vender um dos carros. O marido passou a usar transporte público e Uber em emergências. "Estávamos acostumados a um patamar de vida e o perdemos. O que a gente ganha não acompanha o preço das coisas", afirma a paisagista.

Melhora desigual

A queda da renda disponível, depois de descontados os itens essenciais, ocorre num momento de inflação comportada e uma lenta retomada da massa salarial. "Mas o que percebemos é que essa melhora não tem sido linear", afirma o economista da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomércio), Guilherme Almeida. Ele destaca que o Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) mostra que, para as famílias com renda de até dez salários mínimos, a situação é pior do que para quem tem um rendimento maior. "Nesses casos, ainda há dificuldade de aumento de consumo."

O professor do Insper, Fernando Ribeiro Leite, explica que isso é reflexo do endividamento do brasileiro durante os anos de bonança. Ele observa que, depois de descontados os itens essenciais, a renda disponível do brasileiro é usada para pagar as dívidas. Até janeiro, o nível de endividamento das famílias estava em 41,1%, segundo dados do Banco Central. "O País tem uma baixa poupança uma vez que as famílias alocam um porcentual maior da renda para a desalavancagem (redução da dívida). Isso reduz ainda mais a renda para consumo."

Outro dado que reforça essa tese é que o crescimento da massa salarial no primeiro trimestre deste ano foi puxado pelo aumento do número de pessoas que entrou no mercado de trabalho, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, uma das principais prioridades desses trabalhadores que arrumam emprego depois de passar um tempo desempregados é pagar as dívidas em atraso e não consumir.

Inflação

A professora do Ibmec/SP, Rina Pereira, alerta ainda que, apesar de a inflação estar comportada, é preciso tomar cuidado com alguns itens que têm subido bastante, o que pode achatar mais o orçamento dos brasileiros. Além da gasolina e da energia, o valor dos aluguéis voltou a aumentar em março. Pelos dados da Tendências, a participação dessa despesas subiu de 7,19% para 7 4% entre 2015 e agora.

"Na média, o brasileiro voltou a consumir alguns produtos que tinha deixado de lado durante a crise. Mas o consumo poderia estar maior." Além do aumento do peso de alguns itens essenciais diz ela, o número de brasileiros que desistiu de procurar emprego subiu. No total, são cerca de 4 milhões de pessoas que estão incluídas no grupo de desalentados. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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