Economia

Bitcoin é moeda?

Por Fernando Dias (*)

Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação

Bitcoin é uma criptomoeda, um ativo digital que não tem correspondência no mundo real e que é gerado por um algoritmo computacional. A sua criação, em 2009, é atribuída ao australiano Craig Wright e a gestão do estoque global da moeda é feita através da tecnologia de blockchain, uma estrutura compartilhada em toda a internet dos registros de transação em Bitcoin que torna a mesma não rastreável. Por não ter contrapartida real nem autoridade monetária para garantir seu valor, o Bitcoin vale o quanto as pessoas acham que vale, e sua capacidade de realizar transações não rastreáveis ao redor do mundo é seu grande atrativo. E é moeda?

Ao contrário do que muita gente pensa, moeda é qualquer ativo que efetue as funções de meio de troca, reserva de valor e unidade de conta. Embora a moeda oficial do país seja a de maior liquidez, a que é trocada imediatamente por qualquer bem ou serviço, há sempre outros ativos que eventualmente servem como moeda em transações do dia a dia. O Bitcoin pode ser, desta forma, utilizado como moeda em intensidade que depende do grau de informatização das transações comerciais de cada país.

É o futuro? Por ter uma demanda que muitos entendem ser fortemente relacionada a atividades ilícitas, inclusive um Nobel de economia, a atual explosão no preço do Bitcoin é tida como uma possível bolha. E que bolha, o Bitcoin valorizou incríveis 124.000% nos últimos cinco anos, indo de centavos a 18.0000 dólares no seu lançamento na bolsa de Chicago em dezembro de 2017. Mas o caminho das transações em moeda virtual parece menos controverso, decorrência natural da redução de custos e maior praticidade destas transações no dia a dia. A velha carteira anda cada vez mais vazia, e até o cartão de plástico pode em um futuro próximo se substituído por digitais, leitura de íris, reconhecimento facial e outras tecnologias de autenticação de usuário.

Voltando ao Bitcoin, como é que um simples registro vira moeda? Em síntese, é uma questão de confiança, e a tecnologia não apareceu do nada. Em linhas gerais, considere por exemplo os serviços de pagamento na web, como o PayPal. Nestes serviços o cliente pode comprar créditos via web, e usar estes créditos para fazer pagamentos ou transferências, e eles já estão funcionando faz um bom tempo. As pessoas usam isto, e não diretamente o cartão de crédito, porque há seguros contra fraudes nas compras e, principalmente, porque podem fazer transações internacionais a margem dos sistemas de controle dos bancos centrais (sem taxas e sem registros). De forma rudimentar, podemos ver uma criptomoeda como um crédito de PayPal divisível e negociável.

E é seguro investir? Na teoria econômica dizemos que o ganho é diretamente proporcional ao risco que se corre, e os ganhos em Bitcoin estão em milhares de pontos percentuais. Some a isso o fato da demanda ser suposta estar lastreada em atividades ilícitas, além das suspeitas de bolha especulativa, e o cenário é bastante incerto. Façam suas apostas.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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