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Culinária Bolo de rolo made in Estados Unidos João Tertuliano apostou na tradicional receita pernambucana para ganhar o mercado norte-americano

Por: Thatiana Pimentel

Publicado em: 15/07/2017 11:05 Atualizado em: 15/07/2017 13:26

Foto: Cake Roll Factory/Divulgação
Foto: Cake Roll Factory/Divulgação

Fatias de massa fininhas e amanteigadas intercaladas com camadas de doce de goiaba. Qualquer pernambucano sabe logo que a receita acima é de bolo de rolo. Considerada uma marca registrada de Pernambuco, uma vez que foi aqui que o bolo português “colchão de noiva” (uma espécie de pão de ló enrolado com recheio de nozes) foi adaptado, a iguaria está sendo fabricada nos Estados Unidos por um pernambucano. Aberta em setembro de 2016, em Boca Raton, Flórida, a Cake Roll Factory é a primeira fábrica de bolo de rolo em solo norte-americano e, em menos de um ano, já produz quase 2,5 mil quilos do doce por mês, com comercialização em 30 diferentes pontos de venda na Flórida, Texas e Alabama. Até 2022, a expectativa de João Marcelo Tertuliano, dono do empreendimento, é chegar a 10 mil quilos por mês e presença em mais de 100 endereços comerciais.
Vale ressaltar que o valor do quilo do bolo de rolo da Cake Roll Factory varia entre US$ 15 e US$ 20 (R$ 48 a R$ 65). Para 2018, o plano de João é entrar na cidade de Boston, que abriga uma grande comunidade de imigrantes do Brasil. “Nossas vendas são, em sua maiora, para brasileiros que moram aqui. Em segundo lugar, vem a comunidade latina em geral, que é grande também, principalmente em Miami. Em terceiro, os norte-americanos, sendo que cada grupo desses têm suas preferências específicas”.
Segundo João, existe uma diferença marcante de paladar nos três grupos. “Os brasileiros preferem o tradicional, com doce de goiaba; os latinos gostam de goiaba e doce de leite; e os norte-americanos escolhem o recheio de brigadeiro ou de manteiga de amendoim com geleias de frutas vermelhas ou azuis”. Ele garante ainda que, até o fim de 2017, estará com mais 34 lojas entre Miami e Orlando.
O início do negócio, porém, foi em Pernambuco. Entre 2007 e 2011, João teve uma empresa de bolo de rolo no estado, a Iguarias Pernambucanas, que tinha quiosque nos principais shoppings do Recife. Por estar envolvido com negócios de construção civil, o administrador de empresas resolveu vender a marca para o grupo pernambucano Licínio Dias, que comanda a Casa dos Frios, principal fabricante de bolo de rolo do Brasil. “No contrato, eu não poderia fabricar novamente esse doce por cinco anos, prazo que encerrou em 2016. Como tinha amigos nos Estados Unidos e eles me falavam que existia demanda, resolvi fazer um teste e deu certo.”
O teste foi feito em três dias quando João ficou mais de 12 horas fabricando, sozinho, quase 100 quilos de bolo. Isso tudo na casa de amigos em Miami. “Com o que produzi, fiz 300 amostras, coloquei em uma van alugada e saí viajando de Miami a Orlando, parando em todas as cidades e pedindo para que expusessem meus produtos em padarias e supermercados”. Com uma semana, todos os 30 pontos de venda pediram novas encomendas. “Foi quando eu decidi me mudar e investir nisso. Procurei um advogado especializado no mercado norte-americano, fiz meu plano de negócios e, como tenho também nacionalidade italiana e os Estados Unidos têm acordos com a Itália para investidores que querem o visto, consegui entrar na categoria E2, que aceita investimentos a partir de US$ 50 mil que provem ser sustentáveis”, detalha. No total, o investimento no negócio foi de US$ 200 mil (cerca de R$ 650 mil). 


Mudança de rumos profissionais

Foto: Cake Roll Factory/Divulgação
Foto: Cake Roll Factory/Divulgação
Apesar dele mesmo cozinhar os doces que vende, a vida de João Tertuliano teve um direcionamento gastronômico recente. Formado em administração pela Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o empresário de 35 anos estava focado em ganhar dinheiro com a construção de pequenos prédios e condomínios de casas em Pernambuco. Em 2015, contudo, o negócio que vinha crescendo, através do programa Minha Casa, Minha Vida, começou a sofrer com os atrasos dos repasses do governo federal. As dificuldades enfrentadas pelo empreendedor o levaram a avaliar outros caminhos. Foi quando surgiu uma proposta de um amigo para que ele tentasse fabricar e vender os bolos de rolo que João já havia criado em Pernambuco.
Para ele, a formação na PUC e o trabalho com construção civil o levaram a ter vontade de empreender. “A gente não costuma ter uma formação prévia para abrir um negócio em canto nenhum, nem mesmo na universidade. O que se costuma formar no Brasil são bons empregados ou futuros funcionários públicos e não gente que quer abrir uma empresa. Na PUC, porém, o foco é empreendedorismo e isso me salvou”, afirma. Para empreender em outro país, então, a informação é zero. “Tive que aprender por conta própria, mas é possível. A melhor dica que posso dar é que quem quiser vir para abrir negócio, procure um advogado ou uma orientação de quem conheça as leis locais, que são completamente diferentes do que é feito no Brasil.” Ainda assim, ele reconhece que é mais fácil apostar por lá. “O custo Brasil é muito alto. Aqui, depois que se entende, ninguém muda as regras do jogo no meio.”


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